Como a Worldpackers deixou o sonho de mochilar mais real - WHOW
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Como a Worldpackers deixou o sonho de mochilar mais real

Saiba como a startup brasileira passou de um blog de viagens a um marketplace de turismo e trabalho social, com uma comunidade de 1,5 milhão de membros

POR Raphael Coraccini | 17/07/2019 20h33 Como a Worldpackers deixou o sonho de mochilar mais real Imagem: Unsplash

A Worldpackers surgiu para aproximar viajantes com orçamento curto de anfitriões interessados em reduzir os gastos operacionais de seu negócio. A startup brasileira lançou sua plataforma online no dia 4 de fevereiro de 2014 que permitia às pessoas se hospedarem em seus destinos sem pagar por comida e hospedagem. Em troca, os turistas trabalham nas casas, hotéis, hostels e pousadas em diferentes funções, via de regra, mais operacionais e de pouca exigência técnica.

garcomUma notícia na mídia especializada em 2014, ano de lançamento da Worldpackers, fez com que os acessos ao site crescessem exponencialmente, derrubando a plataforma. Era a hora de investir para suportar o crescimento. A primeira rodada de investimentos não tardou, chegou ao fim daquele ano, 10 meses depois da estreia do site. A segunda rodada veio em novembro de 2016. A primeira rodada contou apenas com investidores-anjo e um fundo de venture capital. Na segunda, dois fundos participaram.

Operando por mais de 170 países, a Worldpackers tem entre seus mercados mais relevantes Brasil, EUA, México, Espanha, Portugal e Argentina. São mais de 1,6 milhão de membros na plataforma, sendo 5 mil anfitriões. “São diversas propriedades, ONGs, casas de família, pousadas, hostels, ecovilas. Cada um tem uma operação diferente, uma proposta diferente”, detalha Eric Faria, cofundador da startup.A aceleradora Farm é uma das startups que investe na Worldpackers desde o início da empresa. A empresa é dedicada a impulsionar o ecossistema de inovação e já trabalhou com grandes corporações, como IBM, Microsoft, Black Berry, Centauro e Falconi.

worldpackers A startup brasileira Worldpackers tem uma comunidade de 1,6 milhão de pessoas e agora aposta na qualificação para viajantes com cursos especializados em diferentes áreas

A Worldpackers entrou no programa de desenvolvimento de startups da Farm e de lá saiu uma empresa totalmente diferente. Alan Leite, CEO da Farm, conta que a startup de turismo chegou ao programa de aceleração com um modelo de negócios incipiente, que contemplava apenas um blog. “E saiu de lá com um novo modelo de negócios”, diz o executivo.

A Farm tem modelos de investimentos mais voltados a negócios pré-seed focado na modelagem dos novos negócios. “A gente funciona como uma ponte para que essas startups participem dos programas de aceleração”, afirma. “Temos um programa estruturado para testar e validar modelos de negócios. Quando uma startup chega e fala ‘quero mudar o mundo’, ela é questionada sobre qual problema das pessoas ela quer resolver, ao invés de partir logo para a articulação do modelo de negócios. E com a Worldpackers, o blog não era solução. A Worldpackers recebeu toda uma metodologia estruturada para então validar o seu modelo”, conta o CEO da Farm.

O programa articulado pela Farm que impulsionou o crescimento da Worldpackers foi financiado por duas gigantes da tecnologia, a IBM e a SendGrid (uma das maiores plataformas do mundo de e-mail marketing, que fornece serviços para o Uber, entre outras empresas). “A IBM já tem uma visão de produto, de plataforma. Ela tem o Watson que concentra cloud, IoT, inteligência artificial, e o interesse da empresa é que as startups nascentes sejam parceiras. a IBM dá até 120 mil dólares por ano para essas empresas tentarem (novas soluções). Se der certo, no futuro, as startups começam a pagar. Se não, não há grande risco à empresa”, detalha Leite.O designer Wagner Adão largou o emprego de seis anos em uma multinacional para passar 13 meses viajando pela América Latina. Parte da viagem foi financiada pelo dinheiro que guardou, a outra, foi resultado dos seus esforços de reduzir custos de hospedagem e alimentação ao trabalhar para pousadas e hostels. “Creio que, por segurança, se não houvesse feito voluntariado deveria ter voltado no oitavo mês, encurtando a viagem em cinco meses”, conta.

WhatsApp Image 2019 07 17 at 20.02.24 1 Lago Nicarágua. na América Central. Um dos destinos do viajante brasileiro

Os benefícios oferecidos pelos hosts são diversos, segundo o designer. Além das necessidades básicas, os anfitriões também podem oferecer experiências em ecovilas e fazendas onde aprende-se técnicas de criação de produtos artesanais, bioconstruções, permacultura, línguas, agricultura, esportes, fotografia, culturas indígenas, entre outros aprendizados. “Além disso em alguns lugares existe as opções de lavanderia grátis, acesso a bicicletas, acesso a carros particulares, certificados, tours e experiências turísticas grátis, que podem ser integrados aos benefícios”, diz Adão.

Durante a viagem, o designer passou cerca de 4 meses fazendo serviço voluntário. “Calculando uma média de 10 a 13 dólares americanos por dia que gastaria nesses lugares, mais alimentação e transporte em alguns casos, creio que cheguei a economizar 1200 a 1400 dólares”, calcula. Adão usou outras plataformas para arrumar estadia. Ele destaca que a diferença entre elas está principalmente nos tipos de voluntariado que se consegue, e os custos. “No Workaway, havia um valor anual para uso da plataforma, enquanto, nos outros, haviam hosts que cobravam pelo período de voluntariado. A vantagem é que se poderia navegar entre diversas possibilidades para escolher o mais conveniente para aquele determinado momento da viagem”, afirma o designer.

WhatsApp Image 2019 07 17 at 20.02.24 O designer estratégico brasileiro Wagner Adão em sua estadia em Medelim, Colômbia

O viajante destaca que o principal motivo dos trabalhos voluntários era economizar, mas que o trabalho voluntário traz outros ganhos importantes para quem está na estrada há tanto tempo. “Quando se viaja por muito tempo sozinho, perde-se as conexões humanas mais estáveis e estar em um lugar só por um mês ou algumas semanas faz-te reconectar com as pessoas, algo que eu não teria se passasse apenas alguns dias, como turista. A melhor coisa do voluntariado, para mim, foi criar uma certa rotina na viagem e aos poucos entrar em sintonia com o local onde estava e sua comunidade”, detalha.

Ciente dessa necessidade que os viajantes têm de criar laços com as comunidades com as quais convive durante um período maior, a Worldpackers está testando, há alguns meses, seu programa de cursos dentro da sua plataforma online. “Muitas pessoas usam a plataforma muito mais que uma forma de economizar, o grande propósito é o aprendizado que conseguem obter através das viagens”, afirma Eric Faria, fundador da Worldpackers. A proposta é preparar melhor a mão de obra para atender as principais necessidades dos anfitriões.O Ministério Público de Santa Catarina (MP-SC) passou a investigar casos no estado em que pessoas faziam trabalho sem remuneração em troca de estadia e alimentação em hotéis, hostels e pousadas por considerar ilegal a atividade. Em nota ao portal UOL em fevereiro deste ano, o Ministério do Turismo afirmou que o trabalho voluntário não pode ser confundido com trabalho temporário.

A Lei do Voluntariado (9.608/98) afirma que estabelecimentos do setor hoteleiro não podem contratar voluntários. Para contratação dessa modalidade só estão autorizadas “entidade pública” ou “instituição privada de fins não lucrativos que tenha objetivos cívicos, culturais, educacionais, científicos, recreativos ou de assistência à pessoa”.

Magda Nassar, presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens (ABAV), afirma que o setor precisa se preocupar em diferenciar o que são viagens de voluntariado, com algum cunho humanitário, de casos de trabalho não remunerado. “Acho que temos que nos preocupar com a qualidade da mão de obra que está sendo entregue ao setor, porque há todo um trabalho para formar profissionais qualificados por meio das faculdades e cursos. E essa nova modalidade pode atrapalhar. A gente não precisa criar esse tipo de emprego”, alerta Magda.

Segundo a presidente, um trabalho voluntário dentro de um setor de hotelaria se caracteriza muito mais em um estágio não remunerado. Talvez a gente tenha que começar a pensar numa regulamentação para que isso fique bastante claro: se é um estágio não remunerado e a quem se aplica. E trabalhos sociais que são feitos por causas específicas, isso não tem nada a ver com trabalhos de turismo, de prestação de serviços, mesmo porque, este tipo de trabalho é muito técnico, as pessoas têm um longo caminho a percorrer antes de fazer qualquer trabalho na área”, ressalta.

Trabalho voluntário ou trabalho não remunerado? Crescimento do mercado deve colocar na mesa necessidade de nova regulamentação do trabalho no setor de turismo


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