Exclusivo: Você sabe o que é effectuation? - WHOW
Eficiência

Exclusivo: Você sabe o que é effectuation?

Conheça o método internacional que ajuda na criação de novos negócios em cenários de incerteza e pouco controle

POR Carolina Cozer | 22/10/2020 17h10

Effectuation é uma metodologia desenvolvida em 2001 pela Professora de Administração de Empresas e Empreendedorismo Saras D. Sarasvathy, da University of Virginia, nos Estados Unidos. 

A metodologia é utilizada por milhares de negócios de sucesso em todo o mundo, inclusive pela 100 Open Startups, parceira do Whow! Festival. A Professora esteve presente na edição de 2018 do Ranking, e a base de seu conhecimento foi fortemente utilizada na criação da premiação.

Ao Whow!, Sarasvathy contou que a metodologia se trata de um apanhado de princípios e filosofias baseadas no jeito que empreendedores de sucesso pensam. “A ideia veio de um estudo que chamo de expert entrepreneurs, que são pessoas que não apenas foram bem-sucedidas, mas que passaram por riscos múltiplos, incluindo vitórias e derrotas, e aprenderam lições importantes graças às suas experiências”, conta.

E aprofunda: “Estudei esses empreendedores usando métodos de ciência cognitiva, em que olhei como essas pessoas pensam, como tomam decisões e como agem. E observei que todos esses princípios estão atrelados a uma filosofia, que decidi nomear como Effectuation”.

Effectuation, segundo Saras, é a ideia de que é possível criar efeitos sobre coisas que estão fora de controle. “Tradicionalmente, o que ensinamos nas escolas de negócios é o pensamento causal, que são as múltiplas cláusulas e decisões que empreendedores precisam tomar. Mas a realidade é que os experts fazem algo totalmente diferente: eles olham ao redor de si mesmos e observam o que têm sob controle, e separam daquilo que não têm”.

Desta forma, esses experts pegam esses recursos disponíveis (sejam eles materiais ou intelectuais) e listam o que podem fazer com eles, e quais efeitos conseguem criar. “Isso é o que chamo de “effectual thinking” (ou “pensamento eficaz”, em português). Então é um movimento oposto à ideia de se começar tentando atingir metas; é sobre pensar em meios criativos de se fazer coisas novas com o que já se tem”, detalha.

Mais eficiência e menos autossabotagem

Segundo a Professora, o Effectuation pode ser aplicado por qualquer pessoa, não somente por empreendedores. “Quando olhamos para aquilo que não temos, o pensamento tradicional diz que devemos fazer dívidas adquirindo recursos ou procurando por quem nos financie”, diz. “Nos negócios, isso inclui encontrar pessoas para trabalhar com você, que estejam alinhadas aos seus artifício”, opina.

“Effectuation é sobre não perder tempo perseguindo coisas que você não tem, e não se autossabotar esperando ter uma série de recursos antes de começar a empreender. Em vez disso, gaste energia tentando ser mais criativo usando as coisas que você já tem”

Saras D. Sarasvathy, Professora da University of Virginia

Cases curiosos envolvendo Effectuation

Há literalmente milhões de exemplos de cases de empresas bem-sucedidas que aplicaram o Effectuation como filosofia-base. 

A Professora citou algumas questões inusitadas ao Whow!, para mostrar que é possível aplicar esse mindset em qualquer modelo de negócio. “De fato, se olharmos para qualquer empresa bem-sucedida no mundo, encontraremos alguma camada do Effectuation por lá.”

Uma das histórias mais curiosas nos Estados Unidos, Saras comenta, foi de uma empresa chamada Pet Rock, que produziu pedras de estimação. “Era basicamente uma pedra que era colocada em um ninho e nomeada para se tornar um bichinho de estimação. Era a coisa mais boba do mundo, mas acabou se tornando um sucesso de US$ 10 milhões”. 

Tudo começou com um publicitário chamado Gary Dahl, que era ótimo em piadas, e estava bebendo com amigos em um bar, onde o assunto da mesa eram animais de estimação. “Gary fez uma brincadeira falando que tinha um pet perfeito, que não dava despesas, não recebia cuidados e gostava muito de rolar no chão: era uma pedra. Todos acharam a ideia hilária. Alguém sugeriu, então, que ele escrevesse um livro com suas piadas, e ele assim o fez”, conta.

O que o autor não imaginava era que, após o lançamento do livro, começaria a receber uma série de ligações de pessoas interessadas em adquirir a pedra como animal de estimação. “Inicialmente ele achou tudo muito engraçado, e partiu em busca de pedras bonitas para vender. Quando ele se deu conta, aquilo já havia virado um negócio de US$ 10 milhões”, diz. 

De acordo com Saras, esta é uma história que emprega os conceitos de Effectuation mesmo que o propósito de se criar um negócio nunca tenha existido de modo formal. “Aquele homem só fez algo que estava à sua disposição, por pura diversão, e acabou virando um negócio lucrativo.”

Inovando no Polo Norte

Outro exemplo dessa aplicação em um negócio de escala está entre os famosos hotéis de gelo nos países ao Norte do planeta, que mostram que é possível inovar até mesmo em locais extremos. 

A ideia original para o primeiro hotel de gelo surgiu na Suécia, segundo Saras. “Assim como a Pet Rock, seu fundador também não criou a ideia propositalmente”, começa.

“No verão, no Norte da Suécia, esse homem trabalhava com esportes em meio à natureza, como caiaque nos rios, mas não tinha um negócio rentável para trabalhar no inverno.” O homem, ela conta, ouviu falar sobre uma exposição de arte de esculturas de gelo no Japão. Assim, decidiu levar essa ideia para a sua cidade no inverno. 

Mas, para seu horror, choveu na região no primeiro dia da sua exposição ― o que nunca acontecia naquela época do ano ― ocasionando o derretimento das obras. “Ele começou a questionar o que poderia fazer, já que muitas pessoas estavam no trem à caminho da exposição, e elas não teriam como voltar, porque o próximo trem só partiria no entardecer”. 

A reviravolta interessante, neste caso, foi que alguns dos visitantes, desapontados com a chuva, demonstraram o desejo de experimentar como seria passar a noite em um iglu. E assim surgiu a ideia de, na próxima exibição, as pessoas terem um grande iglu para ficarem hospedadas. “Isso atraiu mais e mais pessoas para o local, curiosas por terem essa experiência”, explica Saras. 

Nasceu, assim, um hotel completamente estruturado à base de gelo, que é um modelo de negócio popular em muitos países agora, tendo recebido, inclusive, versões alternativas, como bares e baladas. 

“Isso mostra que a inovação pode surgir em qualquer lugar ― basta que se tenha um olhar diferente e criativo sobre os próprios meios à sua disposição”

Saras D. Sarasvathy, Professora da University of Virginia


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