Você sabe mesmo o que é cultura da inovação? - WHOW
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Você sabe mesmo o que é cultura da inovação?

Veja dicas de três entrevistados do Whow! para o desenvolvimento ou mudança da mentalidade em empresas, startups e nos colaboradores

POR Eric Visintainer | 13/07/2020 17h01

A inovação nunca esteve em tamanha demanda, mesmo durante a pandemia. No entanto, um ponto muito importante para o desenvolvimento dela é a Cultura da Inovação, algo essencial para que isso aflore de forma sustentável nas empresas. E para aprofundar neste tema, com lições do dia a dia, além de perspectivas do mundo corporativo e das startups no Brasil, o Whow! conversou, simultaneamente por videoconferência, com Lívea Barbosa, gerente de inovação externa da Johnson &Johnson para a América Latina, Patrícia Osorio, cofundadora da startup Birdie.ia e do GVAngels e Alexandre Uehara, especialista em Estratégias de Inovação Corporativa.

Veja na sequência as análises e dicas para o desenvolvimento ou mudança da cultura em corporates, startups e nos colaboradores.

Cultura da inovação

Whow! – Como a cultura da inovação está presente na empresa em que atua e qual a sua visão sobre ela no contexto geral do Brasil atualmente?
Lívea Barbosa: “Aqui no Brasil temos um Centro de Pesquisa e Desenvolvimento, com mais de 200 pesquisadores. A gente enxerga nesta pandemia que temos que ler o consumidor, entendê-lo e saber o que faz sentido na vida das pessoas. E saber qual é a maior dificuldade para colocar os nossos esforços e sempre pensar em qual é a próxima dor e o próxima desafio que precisamos ajudar a humanidade a enfrentar.”
Patrícia Osorio: “Acredito que a cultura da inovação sempre existiu e evoluiu com o passar do tempo, assim como evoluíram os modelos de negócio. Hoje, falar de inovação está um pouco mais na moda por conta do tanto de disrupções que temos visto nos últimos anos, com as “big tech” e a cultura de startups crescendo. Isso, no entanto, acaba gerando até uma visão errada do que é inovação, pois inovar não é necessariamente fazer uma disrupção, pode ser também uma melhoria de processo, por exemplo. É importante falarmos de inovação para desconstruir esses mitos e fazer com que isso entre no nosso dia a dia, pois é só assim que a inovação realmente vai acontecer.”
Alexandre Uehara: “É interessante quando temos um sponsor dentro da empresa, porque todos estão apagando incêndios. É muito claro, dentro das empresa, que, o presidente e os executivos precisam pensar em inovação e, se não tiver uma mudança dentro da empresa, ela pode morrer. Eles sabem desta urgência. Da mesma forma, o pessoal que está “batucando” todos os dias quer fazer coisas novas e mudar algum processo, porque eles sabem que dá para melhorar alguma coisa. Não é algo de curto prazo, é de médio a longo prazo. Trabalhamos a facilitação e não com a execução, facilitamos para todos participarem.”

W! – Como foi a experiência no processo de desenvolvimento e/ou evolução da cultura da inovação nas respectivas empresas?
LB: “Hoje 50% do nosso portfólio vem de inovação externa. O maior valor que a gente consegue criar nesse mundo, hoje, é a possibilidade de fazer estas trocas. Temos uma estrutura de conexão com todos os principais hubs, é uma cocriação todos os dias. Inovação para gente é colaboração. Não importa de onde veio a inovação, o objetivo é colocá-la na mão dos consumidores.”
PO: “Como você mesmo disse, é um processo. Inovar não é algo que se faz da noite para o dia e é preciso estabelecer uma cultura dentro da empresa. Na Arizona, empresa em que trabalhei por muitos anos, e da qual me tornei sócia, a inovação era algo muito forte na cultura desde o início. Eu participei de grande parte deste processo, e também sofri as “dores do crescimento” ao tentar estabelecer rituais de inovação que permeassem toda a empresa, mas não tive sucesso. Acho que meu erro na época foi me preocupar mais com o processo (criar comitês, critérios e rituais) do que com as pessoas (como trazer todos para se sentirem donos e cocriarem, cada um com seu conhecimento). Na Birdie, temos um time jovem e ainda pequeno, o que nos permite estabelecer desde o início alguns rituais e premissas que mantenham a cultura de inovação viva, como feedbacks 1:1 quinzenais, reuniões abertas entre o time pra discutir assuntos de absolutamente todas as áreas, formação de um time diverso e muitos outros.”
AU
: “Sempre digo que uma empresa é feita por pessoas, e temos que trabalhar muito com esse novo mindset e a cultura de inovação diretamente com os colaboradores. Todos os dias as pessoas são cobradas para serem mais inovadores, mas ao mesmo tempo estão “apagando incêndio” nas próprias áreas. Isso acontece pois a maioria das empresas ainda trabalha em silos. Temos que mudar a forma em que trabalhamos e incentivar a inovação para que ela seja natural no dia a dia das pessoas, trabalhando com equipes multidisciplinares e auto organizáveis.”

W! -Para vocês, a implementação da cultura de inovação é uma mudança de mentalidade ou a adoção de um novo processo?
LB: “A inovação é um processo de várias etapas, que se inicia na identificação de um problema/oportunidade, passa por ciclos de ideação, criação, prototipagem, testes de hipótese, e finalmente é validada e implementada no mercado. Para que todas estas etapas ocorram, é necessário ter uma equipe com perfis diversos trabalhando em conjunto, uma vez que é difícil uma única pessoa ter todas as habilidades necessárias. Por exemplo, geralmente quem é bom em criar protótipos no laboratório, não é a melhor pessoa para implementar a inovação na fábrica, com o rigor exigido pelo controle de qualidade. Todas as etapas são igualmente importantes, e sua equipe será mais forte se você permitir que cada um foque na sua fortaleza.”
PO: “São ambos! Um novo processo, principalmente em se tratando de inovação, só é adotado quando há uma mudança de mentalidade na empresa, caso contrário ele não será aplicado plenamente e logo será abandonado. Para o processo de inovação funcionar, as pessoas precisam ver valor nele e entender seu papel dentro do todo, se sentindo também à vontade para poder contribuir, criticar, construir, ou até mesmo se abster por não achar que aquela discussão específica faz sentido pra eles. .”
AU:
“Criamos um processo separado de inovação e com a mentalidade de que errar é bom, desde que aprendamos. A gente pode trabalhar que, dentro da minha meta vou ter com dez iniciativas: em nove eu posso errar, mas uma eu vou acertar e pode ser até disruptivo, mas seremos muito assertivos quando colocar em uma esteira de produção. A assinatura de um NDA, por exemplo faz sentido dentro do processo de uma empresa, mas dentro de inovação talvez não faça.”

W! Poderiam comentar sobre a necessidade da comunicação, as incertezas da inovação e os rituais que utilizam ou já utilizaram, como parte da cultura da inovação?
LB
: “Comunicar abertamente as tentativas de inovação é primordial para todos entenderem que a inovação é sempre um funil: 1000 ideias serão propostas, 100 serão testadas, 10 serão colocadas no mercado e provavelmente apenas 1 será um grande sucesso. Por favor não desista de inovar só porque sua primeira tentativa falhou!
PO: “Outro ponto importantíssimo é ser aberto ao erro: a punição do erro faz com que o ciclo de aprendizado seja prejudicado e que as pessoas deixem de contribuir, pois instaura uma cultura de medo e punição que é o contrário do que se precisa para inovar.” 
AU
: “A cultura do erro ainda existe nas empresas. Os colaboradores continuam a serem “punidos” quando erram. Mas do outro lado, temos que criar um ambiente propício ao erro. Errar com o “avião no ar” não é o ideal. Existem alguns frameworks que tenho trabalhado para que se crie esse ambiente e seja disseminado as ideias da inovação para que as pessoas errem rápido, errem barato e errem com frequência, e sempre aprendendo para que possam levar isso para as próximas iniciativas.”

W! – Quais são os principais desafios para implementar a Cultura da inovação ou realizar uma mudança de cultura?
LB: “
Entender que a inovação é um processo de várias etapas também ajuda a quebrar o mito do “gênio” e do momento “eureca”. Na minha experiência, foram raros os casos de inovações que surgiram num dia ou evento pré-determinado para inovação, tipo brainstorms ou hackatons. Projetos paralelos de inovação, com cunho motivacional, geralmente não saem do papel. O ideal é ter uma organização capaz de nutrir e acolher a inovação em qualquer momento que ela apareça, no dia-a-dia da empresa. Geralmente uma boa ideia aparece num momento aleatório, aos poucos vai sendo estruturada por algumas pessoas e finalmente coordenada por um grande grupo para ser implementada. É importante então a alta gerência estar sempre aberta a receber novas propostas, apoiar sua evolução e reconhecer as tentativas e resultados positivos do time.
PO:
“A gente tenta ouvir todo mundo, criando uma cultura horizontal e colaborativa. A partir do momento que isso acontece, é só você colocar um processo que permita que isso continue acontecendo. E o erro que cometemos na Arizona foi, antes de colocar a cultura a a gente quis colocar o processo. E aí forçamos o processo, as pessoas estavam com medo, os gestores não estavam abertos a ouvir e virou um ambiente em que ninguém estava participando.” 
AU:
“Hoje as pessoas trabalham pelo propósito, e da mesma forma é necessário criar um propósito da inovação dentro das empresas. Se esse propósito não estiver alinhado junto com a estratégia da empresa, as pessoas não entenderão o que é a inovação. A alta direção tem que estar comprometida para que essa mudança ocorra, e sem falhas de comunicação. Não adianta, por exemplo, falar que existem portas abertas para conversar com qualquer pessoa internamente, mas ainda termos portas físicas e salas fechadas.”

W! – Quais dicas você daria para empresas ou pessoas que queiram começar e/ou fortalecer a cultura de inovação?
LB: “
Por fim, faça toda a equipe perceber o valor da inovação, diga que a responsabilidade da evolução do negócio está nas mãos deles, e que ninguém melhor que quem trabalha todos os dias com os desafios para pensar e trazer as melhores soluções. Para uma empresa não se tornar obsoleta, cada funcionário deve se perguntar todos os dias como poderia fazer melhor a sua função. E de forma mais ampla e estratégica, a alta gerência deve ter metas para reinventar o negócio da empresa no médio/longo prazo.
PO
: “Ser sempre aberto ao feedback, dar espaço para o erro como um processo de aprendizado, estimular o debate e a colaboração, garantir a formação de um time diverso e complementar, definir objetivos e critérios que ajudem a ajustar a rota e ao mesmo tempo manter a motivação, e principalmente saber que isso é um processo eternamente em construção.”
AU
: “Podemos criar desde processos de inovação, onde, por exemplo, podemos errar e aprender, disseminar a inovação via workshops e palestras, assim como trabalhar com cocriação e muita colaboração. O papel da área de inovação não é ser o executor, mas sim o disseminador e facilitador. A inovação precisa ser disseminada para a empresa inteira, sem que o gargalo seja a área de inovação.”


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