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Tecnologia

Um ano de Pix: o empreendedor foi beneficiado?

Em um ano de funcionamento, o volume de transações via Pix por mês no Brasil multiplicou vinte vezes, alcançando R$ 502 bilhões em outubro

POR Marcelo Almeida | 16/11/2021 18h21

No aniversário de um ano do lançamento do Pix, as grandes facilidades e inovações tecnológicas que o serviço oferece foram um pouco eclipsadas pela proliferação de episódios de sequestro-relâmpago e golpes envolvendo a ferramenta digital.

O serviço de transferência de fundos em tempo real entre instituições financeiras sem o pagamento de taxas foi criado pelo Banco Central (BC) e representa uma melhoria tecnológica significativa. Afinal, outras formas de transferências (como TED e DOC) não são concretizadas em tempo real entre bancos diferentes, e costumam cobrar taxas para quem transfere, seja pessoa física ou jurídica.

Recentemente, o Banco Central tomou medidas visando a segurança do Pix, diminuindo para $ 1 mil as transferências entre as 20h e as 6h, por exemplo, assim como o bloqueio, por até 72 horas, do recebimento de recursos por pessoas físicas em caso de suspeita de fraude.

Além disso, entrou em vigor nesta quarta-feira, 16, o Mecanismo Especial de Devolução, que agiliza o ressarcimento ao usuário vítima de fraude ou de falha operacional das instituições financeiras. Até agora, em uma eventual fraude ou falha operacional, as instituições envolvidas precisavam estabelecer procedimentos operacionais bilaterais para devolver o dinheiro. Com o Mecanismo Especial de Devolução, as regras e os procedimentos serão padronizados.

Estatísticas do Pix

Durante evento ao vivo feito pelo BC, a instituição louvou a rápida adoção da ferramenta pelos brasileiros e mostrou que, na comparação com ferramentas semelhantes usadas por outros países, o Brasil alcançou o maior número de transações por habitante ao fim de um ano de existência, chegando a mais de 30, enquanto o Chile, que tinha o recorde, tinha chegado a 9 em igual período após o lançamento de ferramenta semelhante.

Também apontou que 762 instituições financeiras já aderiram ao Pix e que a participação dos bancos tradicionais no volume de transações por Pix é bem menor do que no mercado de débito e crédito (68% neste caso e 61% naquele), o que foi indicado como uma forma de tornar o sistema menos concentrado, aumentando a relevância de fintechs e bancos digitais. 

Em relação aos meios de pagamento em geral, o Pix, com 1,9 bilhões de transações no segundo trimestre de 2021, já ultrapassou os cartões pré-pagos e só está atrás dos cartões de crédito e débito agora.

Dentre o total da população, 104 milhões de pessoas já realizaram transações pelo Pix, o que representa 62% da população adulta, sendo que 70% das transações são feitas por pessoas com menos de 39 anos.

Em relação à inclusão financeira, o BC aponta que 45 milhões de pessoas teriam sido incluídas no sistema bancário digital, já que nos 12 meses anteriores elas não realizaram nenhum tipo de transação digital.

Considerando o crescimento por faixas de renda, o principal aumento foi entre as pessoas de baixa renda, com 131% de alta entre março e outubro deste ano, contra 52% no geral. Em relação ao valor, 60% das transferências realizadas via Pix ficaram abaixo de R$ 100.

Mas afinal, qual foi o real impacto do Pix para os empreendedores? A ferramenta digital, afinal, mudou a vida do empreendedor de forma positiva?

Mudanças para o empreendedor

A resposta é positiva, de acordo com o consultor do Sebrae-SP Inge Ommundsen Neto.

Ao contrário do que alguns pensam, não são todos que desfrutam de gratuidade nas transações com o Pix. Como ele explica, mesmo no caso de pessoas físicas podem ser cobradas taxas, caso seja provado que ela estava usando o sistema para transações comerciais.

No caso das pessoas jurídicas, a isenção do pagamento precisa ser negociada. Essa negociação, para deixar claro, é feita entre o empresário e a instituição financeira com a qual ele tem vínculos, não com o Banco Central. O que acontece, no fim das contas, é que bancos tendem a tabelar, assim como fazem com TED (transferência eletrônica disponível) e DOC (documento de ordem de crédito).

Mesmo assim, de acordo com Inge, o Pix é uma das melhores formas de pagamentos para os pequenos e médios empresários, mas não necessariamente é a forma menos custosa. “Depende muita da negociação, das condições do cliente e da empresa. Mas considerando a realidade atual, o Pix como pagamento à vista é uma das melhores forma de pagamento porque você não tem a taxa do débito e o dinheiro fica disponível na hora para o empresário”, afirma, ressaltando o menor custo em relação às maquininhas, que chegam a cobrar R$1,99 por transação.

Além disso, não é apenas na questão de comércio que o pequeno e médio empresário pode ser beneficiado. “Tinha muito empresário que acabava pagando funcionários, parceiros e outras coisas por meio de TED e DOC e, no final do mês, isso dava um custo absurdo”, afirma ele.

Os dados divulgados hoje corroboram a opinião de Inge. Entre as empresas, 7,9 milhões já realizaram alguma transação pelo Pix, o que representa cerca de 54% das empresas que têm relação com o Sistema Financeiro Nacional.

O uso para pagamentos para pessoas jurídicas cresceu significativamente, chegando a mais de 152 milhões de pagamentos em outubro de 2021, ou 15,6% do total de pagamentos feitos no período.

O diretor do Banco Central, João Manoel, ressalta que o crescimento dos pagamentos para o comércio cresce em um ritmo ainda maior do que os outros, demonstrando que esse setor ainda representa um potencial muito grande para o Pix.

Outro dado mostrando o aumento do uso no comércio aponta que 75% das transações do Pix em outubro deste ano ocorreram entre pessoas físicas, contra 87% no primeiro mês de funcionamento, mostrando que as empresas estão aderindo a este formato.

O aumento nos pagamentos a empresas também pode estar relacionado a algumas funcionalidades adicionadas ao longo deste ano para estimular o recebimento de Pix por empresas e prestadores de serviço. Em maio, começou a funcionar o Pix Cobrança, que substitui o boleto bancário e permite o pagamento instantâneo por meio de um código QR (versão avançada do código de barras) fotografado com a câmera do celular. Em julho, começou a ser ofertado o Pix Agendado, que permite o agendamento de cobranças, com a definição de uma data futura para a transação. Em setembro, o oferecimento da funcionalidade por todas as instituições financeiras passou a ser obrigatório.

Empresas e governo

As transações entre pessoas físicas e o governo aumentaram de R$ 2,25 milhões em novembro de 2020 para R$ 409,83 milhões em outubro deste ano. Apesar de pequenas em relação ao total movimentado, essas operações estão subindo graças a medidas como o pagamento de alguns tributos por grandes, micro e pequenas empresas e à quitação de taxas federais por meio do Pix.

Novidades no Pix

Outras novidades para o Pix virão em breve. A partir do dia 29 estarão disponíveis o Pix Saque e o Pix Troco, que permitem o saque em espécie e a obtenção de troco em estabelecimentos comerciais e outros lugares de circulação pública.

No Pix Saque, o cliente poderá fazer saques em qualquer ponto que ofertar o serviço, como comércios e caixas eletrônicos, tanto em terminais compartilhados quanto da própria instituição financeira. Nessa modalidade, o correntista apontará a câmera do celular para um código QR (versão avançada do código de barras), fará um Pix para o estabelecimento ou para a instituição financeira e retirará o dinheiro na boca do caixa.

O Pix Troco permite o saque durante o pagamento de uma compra. O cliente fará um Pix equivalente à soma da compra e do saque e receberá a diferença como troco em espécie. O extrato do cliente especificará a parcela destinada à compra e a quantia sacada como troco.

Open banking

Ainda neste trimestre, o BC pretende estender o iniciador de pagamentos ao Pix. Por meio dessa ferramenta, existente para pagamentos por redes sociais e por aplicativos de compras e de mensagens, o cliente recebe um link com os dados da transação e confirma o pagamento.

Atualmente, o iniciador de pagamentos existe para compras com cartões de crédito e de débito. O BC pretende ampliar a ferramenta para o Pix, o que só será possível por causa da terceira fase do open banking (compartilhamento de dados entre instituições financeiras), que entrou em vigor no fim de outubro.

Com a troca de informações, o cliente poderá fazer transações Pix sem abrir o aplicativo da instituição financeira, como ocorre hoje. O usuário apenas clicará no link e informa a senha ou a biometria da conta corrente para concluir a transação. Tudo sem sair do site de compras, do aplicativo de entregas ou da rede social.

Outras estatísticas do Pix

Até o fim de outubro, segundo os dados mais recentes do BC, o Pix tinha 348,1 milhões de chaves cadastradas por 112,65 milhões de usuários. Desse total, 105,24 milhões são pessoas físicas e 7,41 milhões pessoas jurídicas. Cada pessoa física pode cadastrar até cinco chaves Pix e cada pessoa jurídica, até 20. As chaves podem ser distribuídas em uma ou mais instituições financeiras

Em um ano de funcionamento, o volume de transações pelo Pix deu um salto. Em outubro, o sistema de pagamentos instantâneos movimentou R$ 502 bilhões, contra R$ 25,1 bilhões liquidados em novembro do ano passado.

(Com informações da Agência Brasil)