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TruckPad: a startup brasileira que conquistou o Vale do Silício e a China

Conheça a trajetória de Carlos Mira, CEO da TruckPad, que atraiu os dólares do Vale do Silício e os yuans da FTA, unicórnio chinês do setor de logística

POR Raphael Coraccini | 26/11/2019 15h28 TruckPad: a startup brasileira que conquistou o Vale do Silício e a China Divulgação

O próximo unicórnio brasileiro pode ser uma startup fundada por um empreendedor que foge totalmente do estereótipo. Ele não é um jovem engenheiro recém-formado em uma universidade americana de grife. Carlos Mira completa, em dezembro, 52 anos de idade. O empreendedor trabalhou desde os 15 anos na empresa da família e comandou o negócio junto com seu irmão até 2011, quando saiu, deixando para trás 30 anos de experiência em uma empresa com algumas dezenas de filiais pelo Brasil, centenas de milhões de reais em faturamento e quase mil colaboradores.

Tudo isso foi deixado para trás, mas não sem desafios e temores. Abandonar uma carreira longa como dono de uma empresa estabelecida para se jogar no mundo da incerteza não é das tarefas mais simples. A ideia de Mira era continuar no mundo do frete, mas agora como intermediador de transportadoras e caminhoneiros por meio de um app. “Eu já tinha 45 anos quando me arrisquei e muita gente perguntava, como você vai arrumar emprego? Eu falei, estou pensando em montar minha startup, contava a ideia e o pessoal dizia, é melhor você pedir desculpas para o seu irmão e voltar lá porque você não vai arrumar emprego. Essa sua ideia não existe”, conta o executivo.

Carlos Mira, da TruckPad, e Dieter Zetsche, ex-CEO da Daimler Carlos Mira (direita), fundador e CEO da TruckPad, com o ex-CEO da Daimler e seu mentor, Dieter Zetsche

A desconfiança não era por acaso. Em 2011, o uso de smartphones não era popular entre os caminhoneiros. Era preciso ter um olhar apurado sobre as dificuldades do mercado, mas também uma qualidade de prever cenários para entender que, poucos anos depois, os smartphones seria tão comuns nas mãos dos caminhoneiros quanto volantes, a ponta de, por meio deles, terem organizado, em 2018, a maior greve que a classe já organizou no País.

“Eu falei, estou pensando em montar minha startup; contava a ideia e o pessoal dizia, ‘É melhor você pedir desculpas para o seu irmão e voltar lá porque você não vai arrumar emprego'”

Carlos Mira, fundador da TruckPad

Essa qualidade de entender o que estava por vir fez a TruckPad atrair atenção (e o dinheiro) de empresas como a Plug and Play e a Mercedes-Benz. Neste mês, a startup brasileira recebeu um aporte do maior marketplace de fretes do mundo, o chinês Full Truck Alliance.

Conheça a história da TruckPad, desde a saída do seu fundador de uma empresa familiar até os bilhões de dólares dos chineses.

O espaço a ser ocupado

O setor rodoviário de cargas no Brasil é composto por cerca de 3,5 milhões de veículos comerciais, desses, cerca de um terço ou perto de 1 milhão dos caminhões são de propriedade dos próprios motoristas, os caminhoneiros autônomos,chamados de TAC – transportadores autônomos de carga. E as transportadoras usam com frequência o expediente de contratar caminhoneiros autônomos para transportar as mercadorias que excedam a sua capacidade operacional. Uma oportunidade de ouro para quem souber ligar as duas pontas.

Mais do que a quantidade de motoristas, a oportunidade estava na falta de conexão entre os profissionais do volante e as empresas de frete. “O job de você localizar o caminhoneiro é horroroso. Caminhoneiros parados em postos de gasolina esperando por carga ou desperdiçando até 15 dias da sua jornada mensal procurando um próximo frete. O motorista que não é bem conectado tem que ficar rodando de porta em porta de transportadora pedindo alguma carga para ele voltar ao destino de onde ele veio. Essa dinâmica fazia com que ele desperdiçasse muito tempo e energia, rodava vazio procurando frete e faturava pouco por conta do tempo ocioso”, explica Mira.

E as empresas também tinha seu drama porque tinha que ir aos terminais de carga procurar motoristas para determinado destinado, colocando um profissional para sair gritando no meio do terminal. Essa dinâmica fazia com que empresas perdessem entre dois e três dias para localizar um caminhão ideal para transportar a carga. Mira sofreu isso na pele durante 30 anos.

A viagem que mudou tudo 

Até que, em 2011, Mira foi ao Vale do Silício ver um pitch sobre uma empresa de San Francisco que estava dedicada a ocupar o lugar dos táxis usando smartphones conectando passageiros e motoristas informais. Em outra apresentação, desta vez na Universidade de Stanford, mira ouviu de um especialista da universidade sobre como os aparelhos telefônicos móveis deveriam cair de cerca de 1500 dólares para até 100 dólares nos próximos anos. O que viabilizaria uma enorme quantidade de transformações em diversos serviços. Mira acreditou que o frete rodoviário poderia ser um desses.

Elevator pitch

Na viagem, Mira encontrou Dave McCLure, um dos fundadores do PayPal e investidor de uma dezena de outras startups do Vale do Silício. “Eu encontrei esse cara no elevador. Eu disse a ele que tinha a ideia de conectar caminhoneiros e cargas, fiz um elevator pitch e ele achou super bacana e disse, eu investiria na sua ideia. Aquilo não me impressionou muito porque eu não sabia quem era Dave McCLure e não sabia que a cada 500 pitches ele aprovava apenas um”, conta o empreendedor brasileiro.

“A Plug and Play me ajudou a instrumentalizar o aplicativo. A Movile era super especialista em apps, com iFood, PlayKids e Sympla, e ajudou a construir uma plataforma escalável, a pensar a usabilidade. E o próximo investidor, a MapLink, a empresa que eu mais usava para fazer mapas digitais”

Carlos Mira, fundador da TruckPad

De volta ao Brasil, Mira nao encontrou dentro da empresa onde trabalhava espaço para tocar sua ideia e depois de litigios com seu irmão acabou vendendo sua parte. A partir de então, sem emprego formal, tudo que ele tinha era sua ideia e não poderia perdê-la. Registrou a propriedade intelectual da plataforma Truckpad como aplicativos de caminhoneiros quando os caminhoneiros – e a maior parte das pessoas – ainda não entendiam o que era um aplicativo.

Maomé e a montanha 

Em 2013, Mira começava a observar o aumento no número de smartphones, mas ainda insuficiente para fazer com que seu negócio ganhasse tração. Ele lançou o primeiro MVP e distribui, gratuitamente, 40 smartphones e tablets entre caminhoneiros para testar a funcionalidade do app. “O que a gente percebeu é que todo mundo usou, ninguém precisou de treinamento e os caras estavam adorando. Foi a prova cabal de que eles iriam usar. Teve uma série de problemas de comunicação nesse momento porque não havia nem 3G na estrada, era só 2G, mas os caminhoneiros estavam empolgados com aquilo”, lembra Mira.

Carlos Mira, CEO da TruckPad, entregou gadgets aos caminhoneiros O piloto teve que ser testado por tablets e smartphones dados pela própria TruckPad aos caminhoneiros

A Truckpad passou a usar uma sala em um terminal de carga em São Paulo para ensinar os caminhoneiros a usar os smartphones que passam a ser mais frequentes nas mãos deles. “Eu lembro que cheguei a um terminal de carga, tinha um menino de 19 anos que sabia operar, mas trabalhadores mais velhos que diziam, ganhei esse aparelho da minha filha, me ajude a usar. Começamos a treinar o motorista para entender o que eram os smartphones, o que era internet e, depois, a usar o aplicativo”, conta. Hoje, a empresa registra 1,2 milhão de downloads por ano e tem 400 mil caminhoneiros registrados em sua plataforma.

Investimentos

No começo de 2014, Mira conheceu o fundador da Plug and Play, uma das maiores aceleradoras do Vale do Silício, que o levou para um período no centro mundial da inovação, com tudo pago, mas ainda sem garantia de investimento. Nesse momento, a Truckpad estava criando apenas as primeiras linhas de código do app. O aporte veio após seis meses no Vale do Silício. Era o primeiro de vários investimentos importantes.

Ainda na Califórnia, Mira recebeu a visita dos executivos da Movile, dona do iFood e do PlayKids, que acabaram por fechar mais um aporte para a TruckPad. No Brasil, outra empresa da Movile investiu na ideia de Mira, a MapLink, especializada na produção de mapas. Com esses aportes, a TruckPad saltou de 2 mil downloads para 300 mil em apenas um ano.

Mais que dinheiro 

Mira conta que, durante sua estadia no Vale do Silício, recebeu propostas de cinco fundos de venture capital, mas recusou. Ele afirma que escolheu os investidores baseados no que poderiam oferecer para além do dinheiro.  “A Plug and Play me ajudou a instrumentalizar o aplicativo. A Movile era super especialista em apps, com iFood, PlayKids e Sympla, e ajudou a construir uma plataforma escalável, a pensar a usabilidade. E o próximo investidor, a MapLink, a empresa que eu mais usava para fazer mapas digitais. Considerei que era melhor pegar, além do dinheiro, o mapa, que é caríssimo para uma empresa de transporte”, detalha o empresário.

A vez dos alemães 

Em 2016, Mira participou de um evento na companhia do vice-presidente da Mercedes-Benz no Brasil, Roberto Leoncini. O executivo da montadora alemã estava atrás de empresas que pudessem entender o comportamento do motorista na estrada. Ao perguntar sobre se a Truckpad tinha como saber se os motoristas tinham tacógrafo em seus veículos e com qual frequência usavam, Mira disse que nao tinha essa resposta, o que encerrou o interesse da Mercedes-Benz na TruckPad. Por 15 minutos.

Depois de um café, Mira disse ao executivo que ja tinha a informação que ele procurava. “Recebi o resultado de uma pesquisa respondida por cerca de mil caminhoneiros sobre o uso do tacógrafo. A pesquisa foi feita e enviada na hora pelo meu sobrinho, que estava nos acompanhando no café. Ele disse, mas você não tinha essa resposta. eu falei, mas isso já faz 15 minutos”, conta Mira.

Mapa da TruckPad Mapa de calor dos caminhões registrados no app da TruckPad

Segundo o empreendedor, a Mercedes-Benz realizava pesquisas como essas com institutos tradicionais de pesquisa com metodologias analogicas que demoravam até 8 meses para serem apuradas. Eu comecei a responder coisas em 5 minutos para a Mercedes-Benz”, diz Mira. A montadora alemã foi a quarta a investir na startup brasileira.O aporte veio ao final de 2017.

Mais smart money 

Em 2018, o fundo Estrela Par, que investe em transportadoras, estações aduaneiras de fronteiras e terminais de carga, colocou o quinto aporte na TruckPad. Além do investimento em dinheiro, a TruckPad aprofundou seu conhecimento no transporte de cargas e ganhou clientes. Algumas das empresas nas quais a Estrela Par investe são grandes usuárias da truckpad.

Enfim, a China

No final de 2018, Mira visitou o Oriente para conhecer a operação de duas gigantes que faziam o mesmo trabalho que a TruckPad, mas em escala chinesa. Além de muito dinheiro, as empresas tinham atributos tecnológicos que nem o Vale do Silício tinha. Era muita grana e muita técnica. Os chineses são muito bons em criar algoritmos”, destaca Mira. Pouco tempo depois, as duas empresas se fundiram para formar a Full Truck Alliance, que capturou investimento colossal de 1,9 bilhão de dólares da Alphabet e do Softbank. A FTA é, hoje, o maior freight marketplace do mundo, com 6,5 bilhões de dólares e valor de mercado e rumo ao IPO.

“Temos a maior aceleradora do Vale do Silício, a maior empresa de inovação e a especialista em mapas, a montadora mais admirada do planeta, a empresa especializada em transporte de cargas, o maior marketplace de fretes do mundo. É o momento da TruckPad se preparar para outros investidores”

Carlos Mira, fundador da TruckPad

Neste mês, a gigante chinesa se tornou a sexta investidora da startup brasileira de logística. Com o aporte, a TruckPad muda de sede e quadruplica seu quadro de funcionários. A startup vai contar com 600 colaboradores até o meio do ano que vem.

2 bilhões de reais em frete em 2020

Com a nova estrutura, a TruckPad salta de 100 milhões de reais em frete em 2018 para estimados 2 bilhões de reais em fretes movimentados por auxílio do app até o fim de 2020. Este ano, a empresa vai encerrar movimentando 700 milhões de reais. “A gente nem arranhou o mercado ainda, o setor é muito grande”, avalia. Uma das promessas para o ano que vem é o lançamento da carteira de pagamento, da TruckPad Pay. “Entre 80 e 90% do que o caminhoneiro recebe ele gasta na estrada. Nossa carteira passa a funcionar a partir do dinheiro chinês. O caminhoneiro recebe o valor do frete em sua conta e não precisa sacar, ele paga com o aplicativo na rede de parceiros, semelhante ao iFood Pay”, explica.

FTA investiu na TruckPad Comunicação da Full Truck Alliance na China. Empresa é um dos muitos unicórnios chineses (imagem: China Daily)

Depois de construir sua base de investidores de qualidade, com dinheiro em grande quantidade, mas também qualificado, Mira afirma que a fase de captação via venture capital pode estar próxima. “Agora, eu fico confortável em pegar dinheiro de venture capital porque os pilares de uma empresa que vai valer bilhões de dólares estão montados. E os sócios continuam. Nós já temos a maior aceleradora do Vale do Silício, a maior empresa de inovação brasileira, a especialista em mapas no Brasil, a montadora mais admirada do planeta, a empresa especializada em transporte de cargas, o maior marketplace de fretes do mundo. É o momento da TruckPad se preparar para outros investidores”, diz Mira. O próximo unicórnio brasileiro pode estar a caminho.


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