“Startups ganham relevância para investidores com queda histórica da Selic”, diz sócia da XP - WHOW
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“Startups ganham relevância para investidores com queda histórica da Selic”, diz sócia da XP

Queda da rentabilidade de investimentos atrelados à taxa básica pode favorecer startups mesmo diante da persistente crise econômica

POR Raphael Coraccini | 30/09/2019 17h27 “Startups ganham relevância para investidores com queda histórica da Selic”, diz sócia da XP Foto (Shutterstock)

A última reunião do COPOM (Comitê de Política Monetária) colocou a taxa básica de juros no menor nível na série histórica do Banco Central (desde 1986): 5,5%. Os cortes nas taxas de juros começaram em outubro de 2016, quando estava em 14,25%, e não pararam mais. A continuação da política de redução de juros diminui a rentabilidade dos investimentos beneficiados pela alta da Selic e do CDI. O que, por consequência, pode pulverizá-los em direção a outras opções, entre elas, a inovação.

Felipe Tamega, economista-chefe do Itaú Asset, destacou, em evento no Cubo Itaú em meados deste ano – ainda antes da queda da Selic abaixo dos 6% – que a política de juros baixos era uma tendência mundial para tentar recuperar o setor produtivo. “Quase todos os países estão fazendo expansão fiscal, via gastos do governo. Quando olhamos para bancos centrais, eles estão há alguns anos impulsionando a economia”, destacou o executivo.

Desde então, os Estados Unidos reduziram ainda mais seus juros básicos e a Europa cancelou o aumento previsto para setembro. A expectativa é de juros baixos também para 2020.

Para Marta Pinheiro, sócia e head da área de Business Development & Innovation da XP Investimentos, os investidores precisam revisar as estratégias de alocação para buscar melhores resultados diante dessa realidade de juros baixos. A executiva destaca que as startups já estão se beneficiando desse momento.

“Um exemplo é a maior facilidade para se levantar capital. Startups ganham maior relevância para investidores com a queda histórica da Selic. Bom lembrar que é muito importante o investidor entender que esses produtos apresentam risco superior frente aos produtos mais tradicionais atrelados ao CDI. Isso é essencial para se montar uma carteira balanceada”, esclarece Marta.

investimentos startup Unsplash

O cenário de queda recorde nos juros favorece, principalmente, as startups em estágio inicial, que encontram um cenário mais positivo para a tomada de crédito.  “Em paralelo, a redução da taxa básica tem enorme impacto na melhora da atividade econômica como um todo. Empresas passam a investir mais, gerando empregos e oportunidades. Com isso, o mercado potencial de clientes — empresas e consumidores — também tem mais recursos para consumir os produtos e serviços das startups”, explica.

“O investidor brasileiro mostra um amadurecimento crescente (…) O aumento de investidores-anjo, fundos de venture capital e corporações trabalhando com startups foi significativo nos últimos meses”

Marta Pinheiro, sócia e head da área de Business Development & Innovation da XP Investimentos

No mundo, a entrada de empresas da economia tradicional no mercado de capitais tem desacelerado, enquanto as startups avançam na bolsa. Segundo a Intelligize, no primeiro semestre deste ano, foram 13 IPOs de unicórnios, o mais importante deles da Uber, empresa avaliada em mais de 80 bilhões de dólares e que capitou cerca de 10% deste valor na abertura de capital. No ano passado, foram 20 unicórnios abrindo capital em bolsa, crescimento de 54% em relação a 2017.

“A alocação em startups de venture capital é um investimento de longo prazo. O investidor estrangeiro já entende bem isso, e se atenta também a outras variáveis que estão por trás da perspectiva de crescimento, e não só a velocidade em si”, diz Marta. “O investidor brasileiro mostra um amadurecimento crescente com essa classe de ativo. O aumento de investidores-anjo, fundos de venture capital e corporações trabalhando com startups foi significativo nos últimos meses”, completa.

Investimentos seed e venture capital

invest startup 2 Shutterstock

Em 2018, o Brasil recebeu mais de 5 bilhões de reais de fundos de venture capital, um crescimento de 51% em relação a 2017, segundo a Lavca (Associação Latino-americana de Private Equity e Venture Capital). Para a executiva, o aumento dos investimentos no Brasil acompanha o amadurecimento do setor de inovação, em especial, dos empreendedores, “que estão cada vez mais qualificados. O Brasil é um país enorme e complexo, e vem oferecendo espaço e oportunidades para novas startups”, explica.

Boa parte desse capital é aportado em setores de risco, com alto nível de complexidade ou ainda com uma competição feroz, como os casos dos setores financeiro – com Nubank, Creditas e C6, por exemplo – e de mobilidade urbana  -onde atuam Grow, iFood e Loggi. As duas últimas, receberam parte de um aporte de 5 bilhões de dólares do Softbank para a América Latina.

Um levantamento do Centro de Inteligência Padrão-CIP e da 100 Open Startups aponta que, num universo de mais de 4 mil startups, 67% já receberam investimento externo e, entre essas, 19% foram beneficiadas por investimento-anjo. Seed e venture capital somam oito por cento do total dos investimentos, com aporte médio de R$ 1 milhão via seed e R$ 6 milhões via VC.

Origem Média
Investimento-anjo R$         499.144,07
Seed R$     1.040.869,19
Venture R$     6.112.466,67
Corporate R$         769.912,22
Grant R$         754.774,16
Debt R$         691.088,24
Outros R$         571.196,25

Fonte: plataforma da 100 Open Startups com mais de 4700 startups nacionaisAnderson Thees, cofundador do fundo de investimento da RedPoint destaca ainda a explosão de fundos no Brasil nos últimos três anos, pouco antes do início da redução das taxas de juros. “Nos últimos três anos, houve uma explosão de fundos especializados em seed e pré-seed. É legal ver o Softbank vindo de cima pra baixo, catalisando muito o sistema. Esse investidor brasileiro ou se anima a investir ou verá um único player dominar o mercado”, alerta.

Para Thees, apesar da queda vertiginosa da taxa de juros, o drive dos investimentos não é a política do Banco Central, mas o potencial criativo brasileiro. “O que colocamos (em aporte de capital em startups) atraímos 25 vezes mais. Predominantemente, capital internacional. Isso não tem nada a ver com taxa de juro, mas com a visão de que o Brasil tem tamanho e pode decolar”, afirma.

“É legal ver o Softbank vindo de cima pra baixo, catalisando muito o sistema. Esse investidor brasileiro ou se anima a investir ou verá um único player dominar o mercado”

Anderson Thees, cofundador do fundo de investimento da RedPoint

O executivo diz que os grandes investidores brasileiros têm dificuldades em olhar para o ponto certo ao tentar identificar um bom investimento em inovação. “Os maiores players olham faturamento, não olham lucratividade ou margem como os americanos lá atrás faziam, e nem em crescimento, como se vê em mercados maduros, hoje”, diz o executivo.

Para a sócia da XP Investimentos, não há uma competição entre capital brasileiro e estrangeiro. Ela enxerga o capital estrangeiro como estímulo ao nacional. “O investidor estrangeiro não traz apenas o dinheiro, mas conhecimento, mentoria e uma rede de networking muito importante para impulsionar as startups brasileiras. No fim, todo mundo ganha com essa relação. Basta observar que a maioria das startups brasileiras de sucesso têm investidores nacionais e estrangeiros”, explica.

Bola de aço

Sergio Risola, diretor do CIETEC (Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia), da USP, aponta que outra questão que afasta o capital das startups são as amarras que atrelam o investidor a iniciativas que não decolam. Em um setor de alto risco, como de inovação, esse atrelamento acaba funcionando como uma bola de aço presa ao investidor, que encontra dificuldades para tentar novos aportes.

“Quando a startup busca investimento no mercado privado, hoje, é difícil esse investidor se interessar porque ele passa a responder por todos os problemas da startup, inclusive daqueles que estão lá desde que a empresa nasceu”, explica Risola.

O CIETEC trabalha com mais de 100 startups em sua incubadora. Os investidores que fazem aportes nas empresas locais recebem, em média, equity de 10% a 30%, mas assumem riscos fiscais, tributários e trabalhistas anteriores ao aporte. “Em outros lugares do mundo, isso já foi resolvido. A gente mostrou que o modelo maravilhoso é o do Reino Unido”, avalia Risola.

bola de aco edit

O diretor do CIETEC faz parte de um comitê especializado no desenvolvimento do ecossistema brasileiro de inovação que está trabalhando junto a autoridades para desburocratizar o acesso ao capital. “Estamos colocando na mão do time do Senado um projeto semelhante a esse do Reino Unido e levaremos conteúdos e cases para as comissões. Temos que liberar o investidor do momento anterior ao que ele aporta recursos. Isso é uma coisa que parece simples, mas trava muito o processo de capitação”, detalha.

Além de limitar a responsabilidade do investidor, o projeto procura abrir o mercado de compras públicas a startups, reduzindo as limitações que impedem que novas empresas e negócios ainda não escalados participem de licitações. Esses impedimentos cancelam, até agora, qualquer participação de startups em fornecimento de produtos e serviços ao setor público.


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