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Tecnologia

Startup ganha terreno no setor de segurança pública com reconhecimento facial

Com o aplicativo é possível tirar uma foto de uma pessoa na rua e com essa imagem ver fotos públicas dela nas redes sociais através do reconhecimento facial

POR Raphael Coraccini | 03/02/2020 10h53 Startup ganha terreno no setor de segurança pública com reconhecimento facial Foto (Freepik)

Logo depois da Segunda Guerra Mundial, George Orwell, jornalista e escritor indiano naturalizado inglês, havia alarmado o mundo com sua visão sobre o futuro em sua obra “1984”. Ele previu a capacidade de grandes telas instaladas dentro das casas (as chamadas teletelas) dominarem as pessoas por meio da transmissão de conteúdos alienantes e, principalmente, pela capacidade que elas tinham de observar o espectador.

A literatura distópica de Orwell inventou a ideia do Big Brother, a personalização de um sistema que sempre está presente, e que tudo vê e controla. Ele deu tons sombrios sobre o papel da TV. Mas a capacidade de fornecer conteúdo ao mesmo tempo em que observa o comportamento dos seus usuários só foi exercida quase um século depois da invenção da TV, com a proliferação dos smartphones e da internet.

atualmente novas tecnologias surgem com a promessa de acabar com a insegurança no ambiente público e facilitar o consumo por meio de soluções como o reconhecimento facial, que na China, por exemplo, é utilizado para identificar foragidos da polícia ou pagar uma compra no supermercado.

No Ocidente, a tecnologia chega lentamente e causa polêmicas. Uma startup norte-americana pouco conhecida, chamada Clearview AI, ajuda a combinar fotos de pessoas desconhecidas com suas imagens no mundo virtual.

reconhecimento facial Foto (Shutterstock)

Uso do reconhecimento facial

Com o aplicativo instalado em um smartphone, é possível tirar uma foto de uma pessoa na rua e com essa imagem ver fotos públicas dela nas redes sociais e demais ambientes virtuais.

O sistema da ferramenta acessa os bancos de dados de mais de três bilhões de imagens que a empresa afirma ser do Facebook, YouTube, Venmo, carteira digital de propriedade do Paypal, e milhões de outros sites. Isso tudo acontece por conta da combinação das tecnologias de reconhecimento facial e inteligência artificial.

É como se o algoritmo que identifica rostos no Facebook fosse usado para reconhecer pessoas também fora do mundo virtual. E mais, revelasse por onde esteve, as redes de relacionamento e outras informações pessoais.

Mas o uso não acaba aqui, na mera curiosidade que alguém pode ter por uma pessoa que passou por ela no metrô ou na rua.

O jornal The New York Times afirma que o trabalho da Clearview AI já está sendo usado pelo FBI e vai muito além de qualquer coisa já construída pelo governo dos Estados Unidos ou pelos gigantes do Vale do Silício no que diz respeito às tecnologias de identificação.

A empresa foi fundada em Nova York pelos empresários Ton-That, e Richard Schwartz, que foi assessor de Rudolph W. Giuliani, ex-prefeito de Nova York.

Futuro distópico

As agências policiais que contam com a tecnologia afirmam que já há casos de resolução de furtos em lojas, roubo de identidade, fraude no cartão de crédito e até mesmo assassinato e exploração sexual de crianças via a ferramenta da startup. A Clearview IA resolveu seguir adiante no desenvolvimentoa, algo que outros gigantes da tecnologia preferiram não fazer.

Em 2011, o Google disse que estava atrasando o desenvolvimento da tecnologia de reconhecimento facial porque ela poderia ser usada “de uma maneira muito ruim”. Cidades como a de San Francisco, nos Estados Unidos, proibiram a polícia de usar a tecnologia por meio de mal uso da ferramenta.

Na matéria, o The New York Times alerta sobre a possibilidade de um futuro distópico, com o controle social exercido por meio do reconhecimento biométrico dos cidadãos, a evolução do que Orwell havia imaginado com as “teletelas”. Em sua visita ao Brasil ano passado, o futurólogo Yuval Hariri alertou, durante o programa Roda Viva, da TV Cultura, sobre eventual  uso desse tipo de ferramenta em sociedades totalitaristas.

reconhecimento facial Foto Areous Ahmad (Pexels)

Compatível a outras tecnologias

A tecnologia desenvolvida pela empresa norte-americana possui um código que poder ser combinado às tecnologias de realidade aumentada, ou seja, os usuários poderão utilizar gadgets como óculos de realidade aumentada para combinar o que veem na vida real com as informações geradas pela aplicação, de forma a identificar as pessoas em tempo real.

Perseguição?

Kashmir Hill, repórter do The New York Times autor da matéria sobre a Clearview IA, afirmou que tentou contato por três meses com a equipe da startup, sem retorno. O repórter pediu a policiais que colocassem sua foto no banco de dados do aplicativo. Os policiais relataram depois que receberam ligações da equipe da Clearview IA interessada em saber se os agentes haviam conversado com a mídia. O que mostrou, segundo Hill, que a empresa tem o mesmo poder de monitoração da polícia.

Depois de meses de recusa, o fundador da startup, Ton-That, atendeu à reportagem. Ele afirmou que a tecnologia foi mesmo desenvolvida para ser combinada com um óculos de realidade aumentada, mas que a Clearview IA não tem interesse em lançar essa tecnologia combinada.

O empresário também reconheceu que as informações de Hill foram usadas pela equipe da sua startup para monitorar o comportamento do repórter. Sergundo Ton-That, isso aconteceu porque havia a sinalização de “um possível comportamento anômalo da pesquisa”.

A definição do que era o “comportamento anômalo” que permitiu à Clearview IA observar Hill, foi estipulada pela própria empresa. Em sua bibliografia, Yuval Harari alerta sobre a diferença do totalitarismo do século 20, denunciado por Orwell, para sociedade controladas do século 21. Nesta, o controle social é protagonizado por empresas e não mais por estados superpoderosos.


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