Softbank avança no Brasil e pode concentrar investimentos em inovação - WHOW

Vendas

Softbank avança no Brasil e pode concentrar investimentos em inovação

Aportes em iFood e Rappi mostram que, se os investidores nacionais não se apressarem, podem ver investimentos em inovação concentrados em um único player

POR Raphael Coraccini | 17/06/2019 17h26

Em abril, a Rappi, startup brasileira que entrega de tudo, ganhou investimento de 1 bilhão de dólares do fundo japonês Softbank, um dos maiores do mundo voltados para inovação. Antes disso, no fim do ano passado, o iFood, concorrente da Rappi, havia recebido 500 milhões de dólares do mesmo investidor. Os olhos do mundo se voltam às iniciativas brasileiras.

Os investidores brasileiros ainda resistem em colocar seu dinheiro no setor de inovação brasileiro. A primeira empresa de tecnologia no ranqueamento das mais valiosas, segundo a B3, é a B2W, que está em 45ª no ranking das mais bem colocadas. A empresa fechou o mês de abril com valor de R$ 17,4 bilhões. Para comparação: a Petrobrás, empresa mais valiosa do País, vale entre 350 bilhões e 400 bilhões de reais.

Antes de 2012, os investimentos em startups brasileiras vinham, principalmente, de investidores-anjo e seed, diz Anderson Thees, cofundador do RedPoint, fundo de Venture Capital especializado em startups. “Nos últimos 3 anos, houve uma explosão de fundos especializados em seed e pré-seed. É legal ver o Softbank vindo de cima pra baixo, catalisando todo o sistema. Ou os investidores se animam a investir ou vão ter que ver um único player dominando o mercado”, alerta Thees.

Segundo o executivo, o RedPoint tem conseguido alavancar os investimentos nas startups com as quais atua também como um catalisador do sistema. A empresa tem como política investir cerca de 50% do dinheiro de início e o restante nas rodadas seguintes. “O dinheiro que a gente coloca atrai, geralmente, 25 vezes o que a gente aportou”. Ele diz ainda que o capital é majoritariamente estrangeiro. “Isso não tem nada a ver com taxa de juro, mas com a visão que esses investidores têm do tamanho e a capacidade do Brasil”, avalia.

Comportamento do investidor

Para Thees, o investidor brasileiro ainda incorre no vício de olhar empresas por faturamento, enquanto, no passado, nos mercados desenvolvidos, a métrica relevante já era mais correta: a margem de lucro. Hoje, o ponto focal nos mercados maduros é o crescimento da empresa. O Uber, por exemplo, não tem balanços muito animadores hoje, mas um crescimento exponencial.

Um ponto positivo das startups brasileiras, segundo Thees, têm sido o respeito ao tempo de maturidade da empresa antes da busca por investimento. “Uma vantagem é a criação de valor antes do IPO, porque as empresas brasileiras se acostumaram a recorrer a isso como salvamento, não como plataforma de lançamento, como deve ser”, mas alerta: “somos um vigésimo do que poderíamos ser. Agora não tem mais desculpa (para não crescer). As grandes empresas entraram no setor e os empreendedores estão encontrando mercado fora do País”, completa.

O especialista em investimentos destaca o desempenho de fintechs brasileiras como Nubank, PagSeguro e Stone. “Os players periféricos estão engajados e o Banco Central brasileiro é um dos mais alinhados com a necessidade de abrir espaço para os novos players. O que está acontecendo no mundo, está acontecendo aqui mais rapidamente. Estamos reduzindo a distância. Ainda não é um ‘está bom!’, é muito mais um ‘até que, enfim…’.

Problemas e oportunidades

Thees destaca que o gargalo brasileiro de infraestrutura abre espaço para que a iniciativa privada aperfeiçoe ou substitua as soluções existentes. São os casos das startups de mobilidade, do Uber à Rappi, passando pelos apps de localização de ônibus, entre outras.

Para o executivo, o Brasil tem ainda um potencial próprio de crescimento do ecossistema de inovação, a concentração de novos mercados. “Aqui, existe a cultura de todo mundo usar a mesma plataforma. A tendência é ter apenas um ou dois players por segmento”, detalha.

Não é só no Brasil que a concentração trouxe resultados. Nos Estados Unidos, a Amazon é o exemplo mais eloquente, tendo sido a empresa que ocupou praticamente o e-commerce sem deixar muito espaço a outras empresas. Hoje, a gigante de Jeff Bezos domina metade das vendas on-line no País e o resultado disso tem sido o desenvolvimento acelerado de soluções em nuvem e da logística de produtos, especialidades da empresa.

Na China, o desenvolvimento do mercado de pagamentos aconteceu todo ao redor de apenas dois players: Alibaba e Tencent.  Com a concentração, conseguiu desenvolver novas soluções em pagamento em um país onde, até os anos 90, imperava o pagamento por dinheiro, com baixíssima adesão aos cartões. A China pulou do pagamento em dinheiro para o digital, o que permitiu desenvolver rapidamente todo o seu comércio.

A Amazon é hoje a empresa de marca mais valiosa no mundo, com valor estimado em 188 bilhões de dólares, segundo a Brand Finance. No último ano, o crescimento foi de 24.6%. Na China, Tencent e Alibaba são as empresas privadas mais valiosas.

“A tendência é ter apenas um ou dois players por segmento”


+INVESTIMENTO

Softbank avança no Brasil e pode concentrar investimentos em inovação
Longe dos centros financeiros, In Loco atrai grandes fundos de investimento
Brasil é celeiro de investimentos para inovação e startups
Brasil: Terra fértil para investimentos sob o olhar de estrangeiros