Semana de quatro dias: nova tendência no mercado de trabalho? - WHOW

Eficiência

Semana de quatro dias: nova tendência no mercado de trabalho?

Kickstarter é a mais recente empresa a anunciar a semana reduzida; no Brasil, Zee.dog é o principal exemplo da prática

POR João Ortega | 08/10/2021 14h25

A pandemia acelerou uma série de transformações no mercado de trabalho. A rápida e massiva adoção do home-office, em muitos casos feita sem preparo prévio das equipes, fez com que profissionais precisassem se adaptar ao novo regime de uma hora para outra. Um estudo global realizado na Universidade de Harvard constatou que a jornada média de trabalho aumentou em 48 minutos por dia. 

Em contraponto a este cenário, algumas empresas aderiram a semanas reduzidas de trabalho. É o caso da Zee.dog, startup de e-commerce para o mercado pet, que anunciou em março de 2020 o fim do expediente às quartas-feiras. Todos os colaboradores da empresa passaram a ter uma folga a mais na semana, regime que continua sendo adotado, mesmo após a aquisição da startup pela Petz. Ao portal G1, uma gerente da empresa afirmou, em julho deste ano, que houve ganho de produtividade e as pessoas aprenderam a ser mais objetivas nas reuniões. 

Vale ressaltar que a folga às quartas-feiras não é um padrão na tendência da semana reduzida. Pode ser às sextas, às segundas ou deixar essa decisão para cada equipe interna, por exemplo. 

Mais recentemente, quem anunciou que vai testar a semana de quatro dias foi a Kickstarter, plataforma de financiamento coletivo com sede nos EUA. A empresa afirma que começará os testes a partir de 2022, motivada pela pressão na vida pessoal e profissional do colaborador que cresceu durante a pandemia. 

Embora ambos os casos estejam inseridos neste contexto, bem antes da Covid-19 surgir já foram realizados diversos testes com semanas mais curtas de trabalho. Na Nova Zelândia, a Unilever é uma das empresas a adotar o modelo. Aliás, o país é um dos mais avançados neste sentido, muito por conta de um estudo realizado em 2018 em parceria entre uma universidade local e a agência Perpetual Garden, que tinha, na época, 240 funcionários. 

O experimento, que durou dois meses, constatou que houve redução de 7% no nível de estresse da equipe, e mais de 40% de aumento de funcionários que afirmavam ter um bom equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Ao mesmo tempo, o nível de desempenho da empresa aumentou em todas as equipes. 

A Microsoft é outra empresa a testar o modelo de quatro dias na semana útil. O experimento ocorreu no escritório do Japão, em 2019. Os resultados apontam para aumento de 40% na produtividade e 92% dos empregados se mostraram satisfeitos com a mudança. 

Isso não significa, porém, que se trata de um sucesso inequívoco. A própria Microsoft não chegou a manter o modelo no Japão, tampouco o experimentou em outros escritórios. Houve casos de startups nos EUA que adotaram a semana mais curta, mas retornaram ao modelo tradicional em momentos de crise, até como uma forma de evitar demissões. 

Trata-se, portanto, de uma tendência de mercado que está, aos poucos, gerando impacto no mercado de trabalho e que caminha lado a lado com a maior preocupação com a saúde mental dos profissionais. A expectativa é que, nos próximos anos, por conta de casos como o da Kickstarter, da Unilever e da Zee.Dog, exista mais subsídio para entender as reais vantagens e desvantagens do modelo. 

No Brasil, parece que as lideranças ainda não estão nada convencidas. Um estudo da consultoria Robert Half mostrou que, entre diversos países consultados, o nosso é o que menos empresários apostam na redução da semana para quatro dias (28% dos respondentes). Por outro lado, é o país em que mais respondentes cita a jornada de trabalho flexível (65%) como umas solução para problemas de saúde mental, como o burnout. 

Charlotte Lockhart é CEO da organização global 4 Day Week e publicou um artigo para a Harvard Business Review apontando passos essenciais para que empresas comecem a adotar semanas de quatro dias de trabalho. Veja quais são eles:

  1. Mudança de mindset: a força de trabalho das empresas que adotarem este modelo precisam focar em entregas, e não em horas trabalhadas. Além disso, líderes precisam entender que se trata de uma novidade no mercado de trabalho e, portanto, é envolta em incertezas. Os resultados que virão com a transformação do modelo são imprevisíveis.

  2. Definir objetivos e métricas: antes de adotar a semana de trabalho reduzida, é preciso entender os motivos pelos quais esta mudança está sendo realizada. E, após identificar os objetivos, tornar concreta a forma de mensurar os resultados.

  3. Planejar a comunicação: uma transição tão relevante irá causar estranhamento entre funcionários, fornecedores, clientes e possíveis acionistas. É preciso comunicar de forma clara os motivos pelos quais essa mudança está sendo feita e, mais importante, explicar como serão realizados os processos dali à frente, por exemplo, no dia em que a empresa estiver de folga.

  4. Comece com um piloto: a transformação não precisa acontecer ao mesmo tempo para toda a empresa. É interessante começar com uma determinada área, ou com uma seleção de profissionais de cada área. Assim, é possível testar os primeiros resultados e entender os ajustes que devem ser feitos antes de escalar a semana reduzida para os demais.

  5. Ao escalar, continue analisando: o processo de análise e afinamento do modelo de trabalho deve ser contínuo e repetitivo. Não existe um momento em que a empresa encontrará um modelo perfeito. As melhorias incrementais na semana de trabalho tendem a tornar as equipes mais produtivas e mais felizes, mesmo trabalhando menos horas.