Recrutamento às cegas e o aumento em diversidade nas empresas - WHOW
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Recrutamento às cegas e o aumento em diversidade nas empresas

As empresas ocultam o gênero, idade e nome da faculdade do currículo na tentativa de eliminar os vieses inconscientes para promover a diversidade

POR Adriana Fonseca | 10/10/2019 12h50 Recrutamento às cegas e o aumento em diversidade nas empresas Foto Tirachard Kumtanom (Pexels)

Contratar sem viés inconsciente é uma das maneiras mais rápidas de aumentar a diversidade em uma empresa. O desafio é como tirar este tipo de viés da equação, aquele que faz, por exemplo, um gestor homem escolher um candidato homem para ocupar a vaga simplesmente porque sente uma afinidade e talvez uma confiança maior em alguém do mesmo sexo – não de forma consciente, mas inconsciente. 

Para tirar o viés inconsciente do processo de seleção, algumas empresas passaram a adotar o recrutamento às cegas. Nesse tipo de processo, para escolher novos profissionais, oculta-se a identidade pessoal que está no currículo e, assim, o recrutador não sabe a idade do candidato e nem se é mulher ou homem.

Recrutamento às cegas

Em algumas companhias, o recrutamento às cegas vai além e oculta também o nome da instituição de ensino onde o candidato fez a faculdade. Isso porque muitas empresas, até então, escolhiam seus futuros funcionários a partir de um leque restrito de universidades, consideradas as melhores – só que essa prática não contribui com a diversidade.

Um estudo feito pelo National Bureau of Economic Research, dos Estados Unidos, constatou que pessoas com “sobrenomes de brancos” precisam mandar cerca de 10 currículos para receber uma ligação de volta. Aqueles com sobrenomes afro-americanos precisam mandar 15 para conseguir a mesma ligação.

“A diferença de 50% nas taxas de retorno de chamada é estatisticamente muito significativa”, comentam os autores do estudo, Marianne Bertrand e Sendhil Mullainathan. “Indica que um nome de branco gera mais retornos de chamada do que oito anos de experiência.”

A raça, acrescentam os autores, também afeta a recompensa de ter um currículo melhor, pois brancos com currículos de qualidade superior receberam 30% mais retornos de chamada do que brancos com currículos de qualidade inferior. “Mas o impacto positivo de um currículo melhor para aqueles com nomes afro-americanos foi muito menor.”

diversidade FotoMimi Thian (Unsplash)

Diversidade nas empresas

A atenção à diversidade dentro das empresas tem uma razão clara. Pesquisas mostram que uma força de trabalho diversa impacta positivamente no lucro das organizações. Um estudo da consultoria McKinsey realizado com mais de mil empresas em 12 países, demonstrou que ter mulheres em cargos de chefia aumenta em 21% a probabilidade de uma empresa ter performance financeira acima da média. Em outro levantamento, a McKinsey apontou que empresas plurais lucram 33% mais do que empresas homogêneas. 

No Brasil, a Jobecam, plataforma de empregos que busca otimizar os processos de recrutamento e seleção, vem ajudando as empresas nesse tema com uma solução desenvolvida no começo deste ano: a entrevista às cegas online. Por meio da ferramenta de vídeo e uso de algoritmos inteligentes, a funcionalidade faz com que o candidato se destaque para o recrutador por meio de suas competências, sem a possibilidade de vieses inconscientes ou discriminação no meio do caminho.  

Na entrevista às cegas, as informações do candidato e os vídeos gravados na plataforma ficam ocultos para as empresas, que só têm acesso à imagem e ao áudio com as respostas alterados (para impedir a identificação). O recrutador tem acesso ao material completo somente aprove o candidato para a próxima fase do processo.

“Além de tornar os processos mais assertivos, a nossa missão é valorizar as diferenças e dar oportunidades reais para as pessoas serem vistas além de um currículo no pedaço de papel”

Cammila Yochabell, fundadora e CEO da Jobecam

diversidade Foto (Pexels)

A startup, que auxilia na maior diversidade nas empresas, foi acelerada pelo programa global da Oracle, onde surgiu a ideia da nova ferramenta. A HRtech brasileira, aliás, foi escolhida  para realizar a primeira etapa do programa de estágio Generation Oracle 2019. Com a solução da Jobecam, a gigante de tecnologia realizou a triagem de candidatos de toda a América Latina.

De acordo com o gerente de parcerias com startups, Lucas Queiroz Nobeschi, a ferramenta atendeu o objetivo do projeto trazendo perfis diversos, mais plurais e que se encaixassem nos valores da empresa.

“O uso da plataforma Jobecam nos ajudou a selecionar candidatos que representam nossos princípios: viver para excelência, ser uma pessoa apaixonada, comporta-se como dono, ter espírito de startup e encarar a verdade e ser obcecado pelos clientes – sem levar em conta suas características físicas ou background de formação, e sim levando em conta suas reais experiências e propósitos em que acredita”, comentou o executivo.

A seleção contou com 18 mil inscritos e, entre esses, cinco mil utilizaram a solução da Jobecam para entrevistas às cegas e responderam questões de um minuto por meio de quatro vídeos. Feito isso, o algoritmo da startup, que usa inteligência artificial, fez um ranking com os melhores candidatos para a multinacional.

Em uma fase posterior, os recrutadores da Oracle assistiram às entrevistas dos profissionais mais bem ranqueados pelo algoritmo sem conseguir identificar gênero, raça ou idade. As identidades dos candidatos só foram reveladas na etapa final do processo e, ao todo, 74 candidatos foram selecionados, incluindo profissionais de países como Brasil, México, Peru, Chile, Costa Rica, Argentina, Colômbia e Porto Rico.

“Se nos processos que participei tivesse sido avaliada por entrevistas às cegas, ter uma formação em uma área tão específica, ser mulher ou mesmo nordestina não teriam sido pontos julgados, como sei que muitas vezes foram”

Cammila Yochabell, fundadora e CEO da Jobecame e natural de Mossoró, no Rio Grande do Norte


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