O que o YouTube está fazendo para combater a desinformação? - WHOW
Tecnologia

O que o YouTube está fazendo para combater a desinformação?

Como separar o que é entretenimento, educação, informação do que é ofensivo e preconceituoso. Com a palavra, Neal Mohan, Chief Product Officer da plataforma

POR Jacques Meir | 03/07/2020 17h39

Neal Mohan é responsável global por produtos de marca e a experiência do usuário em todas as plataformas de dispositivos. Ele cuida das aplicações mobile, YouTube Kids e Música e também pelo serviço de assinatura da plataforma, o YouTube Red. Na última semana, Neal, que é Chief Product Officer da plataforma, teve a oportunidade de explicar as medidas e ações práticas que a plataforma de vídeos vem adotando para reduzir os danos da “infodemia” ou conteúdos que maliciosamente e de forma deliberada e predeterminada espalham desinformação e se escondem por trás da liberdade de expressão para atacar agrupamentos sociais ou difundir campanhas com teor de ódio, violência, ultraje e preconceito.

O executivo falou abertamente sobre a visão do Youtube e sua orientação para equilibrar liberdade de expressão, criação e civilidade durante a última edição do Collision, evento da Web Summit, que promove e organiza os maiores eventos de tecnologia e inovação do mundo atualmente. Dylan Byers, repórter sênior da NBC fez vários questionamentos procurando trazer reflexões mais densas para esse assunto sensível.

Neal comentou que o YouTube tem sim princípios gerais e diretrizes para orientar a comunidade contra a glorificação da violência, aplicados de modo universal, independentemente de quem é protagonista de um vídeo. Além disso, existe toda uma estrutura de exceção que permite que o conteúdo esteja disponível mesmo quando foi denunciado, para que seja possível compreender todo o contexto das mensagens em questão. Isso quer dizer que o YouTube “anonimiza” os autores para evitar o viés subjetivo na avaliação de um vídeo potencialmente danoso, da mesma forma que procura não atentar contra a audiência desse mesmo vídeo.

Obviamente, nem toda pessoa que publica vídeos que parecem ser lesivos é, de fato, alguém que mereça ser julgado ou malvisto. É sabido que a promoção da violência é feita e publicada por pessoas que voam abaixo do radar. Nesse sentido, como é possível estabelecer uma governança clara que permita contextualizar os vídeos publicados com a verificação de fatos de forma isenta, com eventuais etiquetas de aviso e alerta e a necessidade de não baixar a “mão pesada” da censura, ainda mais diante do fato de que grande parte do conteúdo presente na plataforma é de origens, culturas e valores diferentes?

Um mundo de culturas diferentes

“Sim, essa é uma questão que nos preocupa desde a fundação do YouTube. Este ambiente foi criado para ser um lugar onde pessoas de todo o mundo podem compartilhar suas opiniões, seus pensamentos, sua criatividade, uma ampla diversidade e de opiniões e visões de mundo”, observa Neal. Essa variedade de inflexões e ideias existe e é parte intrínseca do YouTube, mas isso não significa que ali é um ambiente onde vale tudo. “Tudo, desde o conteúdo adulto até a garantia de que as crianças estão protegidas a maneira como condenamos a glorificação da violência, nossos princípios são vigorosos para equilibrar uma plataforma aberta com a diversidade de vozes e um conjunto das diretrizes da comunidade claras sobre a transparência”, continua. Os valores e diretrizes da plataforma foram estipulados para mostrar objetivamente qual o tipo de conteúdo elegível para permanecer na plataforma em contraponto ao conteúdo que deve ser removido por violar essas diretrizes da comunidade.

Como Chief Product Officer, Neal defende que abordagem em relação ao conteúdo deve ser muito holística, tendo em vista que vídeos fortemente inadequados que permanecem ativos representa uma fração muito, muito pequena de todos os vídeos que estão na plataforma, considerando os bilhões de filmes publicados e os bilhões de pessoas que compõem a audiência. E é importante também notar que a decisão não pode se reduzir somente a esse conteúdo ultrajante, por mais danos que ele possa causar. Há outros princípios em jogo, especialmente a gigantesca quantidade de conteúdo, filmes, vídeos úteis que estão disponíveis. Basta ver o número de acessos e procuras para assuntos como a pandemia, notícias médicas, psicológicas, políticas, educacionais e muito mais.

O endosso da autoridade

Ainda assim, é importante que canais de conteúdo e redes sociais garantam que as informações que os usuários estão obtendo sejam provenientes de fontes autorizadas. Segundo Dylan Byers, há dúvidas se esta noção de apontar “autoridades” em determinados assuntos é definida pelo YouTube. Normalmente, a plataforma se baseia na avaliação de terceiros, dos usuários em todo o mundo que representam populações variadas que acabam “validando o conteúdo”. Portanto, esse histórico de credibilidade é que acaba “autorizando e validando” publicações em tópicos específicos.

Mas Neal enfatiza que os usuários podem realmente acessar esses conteúdos que tenham aval e endosso. Ele cita como exemplo a procura por vídeos sobre o novo coronavírus. “É imediato ver toda uma nova oferta de vídeos sobre COVID-19 em execução, apresentando conteúdos de fontes oficiais, muitas vezes da autoridade nacional de saúde de um país, por exemplo, o CDC aqui nos EUA, e podemos trabalhar com 85 autoridades de saúde em todo o mundo para garantir que o conteúdo exibido ao usuário, especialmente no caso de uma pandemia seja o mais atual possível”, explica.

De certo modo, mesmo com esse cuidado, há sempre a possibilidade de um usuário acessar um vídeo com informações potencialmente limítrofes e inadvertidamente compartilhar, desinformação prejudicial. Nesses casos, o YouTube se esforça para garantir que as visualizações sejam reduzidas e estimular os usuários a obter informações de alta qualidade quando estiverem procurando ou consumindo esse tipo de conteúdo. É possível verificar o painel de informações relacionadas a COVID-19, que rodava abaixo dos vídeos em torno do vírus Coronavirus, lendo o feed da página inicial também associado a um conjunto de vídeos médicos, que registraram cerca de 100 bilhões de visualizações.

Globalmente, são carregadas cerca de 500 horas de conteúdo no YouTube, a cada minuto de cada dia, o que representa um desafio exponencial em termos de monitoramento, para estabelecer de maneira clara quais são as linhas que devem ser ultrapassadas, as zonas de cinza entre o preto e branco, o que é verdade e o que não é. Existem lições que poderiam ser aplicadas na política da plataforma em todas as questões de desinformação daqui para frente?

Questões sensíveis

YouTube Foto ilustrativa (Pexels)

Na visão do executivo do YouTube, todo o processo de curadoria da plataforma, nos últimos dois, três anos, a partir das diretrizes da comunidade ajustadas a um contexto global, registra atualizações constantes. As políticas de ódio ou políticas de assédio procuram mostrar claramente o que é desinformação, o que tem sido útil em termos de proporcionar agilidade para destacar onde existem informações errôneas relacionadas a questões sensíveis.

A pandemia mostrou a rapidez com que a desinformação pode ser criada em torno de qualquer assunto, por exemplo, como a absurda ideia do Coronavírus ter sido associado ao 5g. E, portanto, a plataforma precisa saber reagir com agilidade, porque novos tipos de informações erradas continuam aparecendo. O resultado é a eliminação de milhares de vídeos periodicamente. Este é o escopo da responsabilidade de Neal Mohan e de sua equipe, além de trabalhar continuamente com parceiros, governos, órgãos reguladores para explicar em detalhes como a plataforma funciona para cidadãos de todo o mundo de modo construtivo. No entender de Neal, quanto mais houver entendimento de ambos os lados, mais viável é criar soluções que funcionem sociedades de todo o mundo. Independentemente disso, Neal afirma que há um consenso sobre real valor que o YouTube oferece, não apenas em termos de informações, mas também em termos de conectividade e comunidade.

“Como podemos garantir que construímos o conjunto certo de ferramentas e produtos para que nossos criadores possam fazer o seu melhor? Mobilizar o público em torno de sua criatividade e em torno de suas ideias?”, indaga Neal Mohan. “O YouTube oferece uma maneira incrível de ganhar a vida e gerar receita com criatividade e, do lado do usuário, ele permite que os usuários podem se conectar com todos os criadores que amam. E esse é realmente o nosso objetivo, a nossa missão”, conclui o executivo.

É indiscutível que o YouTube é hoje uma das mais relevantes plataformas culturais e entretenimento do mundo. Ele mudou a forma pela qual centenas de milhões de pessoas consomem conteúdo, trouxe novos formatos de comunicação e permitiu o surgimento de um imenso número de influenciadores que detém legiões de fãs no mundo todo, em múltiplas culturas. Seja um vídeo sob demanda, uma transmissão ao vivo, as famosas lives, novos formatos e histórias, que são formas mais curtas de conexão entre criadores e usuários , são meios poderosos de interação entre pessoas, que aprendem, educam, informam, cantam, dialogam, dançam e muito, muito mais.

O fato é que os aspectos positivos do YouTube, sua incrível capacidade de construir conexões e uma vida mais sustentável e saudável precisa ser preservada. Encontrar formas de regular conteúdos ofensivos e de ódio é essencial para que a experiência da plataforma permaneça virtuosa. Por mais que Neal Mohan e sua equipe estejam dedicados a monitorar e a alertar as diferentes comunidades sobre os riscos do conteúdo ultrajante, ainda há muito aprendizado pela frente para eliminar as zonas de sombra entre censura e liberdade de expressão e criação.


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