Protagonismo feminino na ciência e no empreendedorismo de inovação - WHOW

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Protagonismo feminino na ciência e no empreendedorismo de inovação

Debate proposto pela Natura trouxe mulheres negras que estão à frente de descobertas científicas e processos de inovação no Brasil

POR Carolina Cozer | 25/11/2020 15h42 imagem Parker Jarnigan: Unsplash imagem Parker Jarnigan: Unsplash

Os espaços de protagonismo feminino e outras minorias sociais, como pessoas negras, por exemplo, são importantes ferramentas de transformação social e de expansão da economia brasileira. A ciência e o empreendedorismo, sobretudo, são locais em que a liderança feminina ainda é rara, mas aos poucos esse ciclo de falta de representatividade tem sido quebrado.

No evento que marcou a inauguração do novo centro de inovação da Natura, na última terça-feira (24), aconteceu um bate-papo com grandes representantes do protagonismo feminino e negro no Brasil, sobre a importância dos espaços de representatividade e a necessidade das mulheres construírem ou tomarem esses espaços para si.

A mediadora do debate foi Andrea Alvares, vice-presidente de Marca, Inovação, Internacionalização e Sustentabilidade da Natura, e as participantes foram Maitê Lourenço, fundadora e CEO da aceleradora BlackRocks e a Dra. Jaqueline Goes, biomédica, pesquisadora e uma das responsáveis pelo sequenciamento genético do novo coronavírus.

Sem diversidade não há inovação

A Dra. Jaqueline Goes recentemente protagonizou um grande feito para a ciência mundial ao liderar a equipe que sequenciou o genoma do coronavírus. A mediadora Andrea Alvares questionou à Dra. sobre a importância de fomentar, então, a cooperação em espaços científicos.

“Em ciência não conseguimos nada sem a colaboração. Cientistas individuais não são capazes de produzir resultados dentro da ciência e inovação”, responde Goes, que teve contato com cientistas de outros países em sua pesquisa, o que possibilitou o acesso a metodologias e tecnologias que ainda não temos no Brasil. “Espero que nos próximos anos possamos ter acesso a essas tecnologias para todos”, diz.

Andrea Alvares tem confiança na importância da inovação aberta, uma vez que a Natura a pratica há 20 anos. “Quanto mais mentes pensando no mesmo propósito, mais rapidamente as soluções surgem ― e surgem melhores”, diz, acrescentando que é um orgulho ter uma mulher brasileira à frente das descobertas científicas da pandemia.

No caso do BlackRocks, aceleradora de startups que foi criada em 2016 por Maitê Lourenço, a estrutura toda foi desenvolvida com foco na população negra, que já está nos espaços de poder, mas até hoje não é evidenciada da forma que merece. “O BlackRocks apenas dá visibilidade e espaço para quem já é potência”, diz, afirmando que mais de de 5 mil pessoas já foram beneficiadas pelos trabalhos da aceleradora. “O mais importante é trazer a população negra como precursora de inovações. Não há inovação sem diversidade, e é preciso pensar nas pessoas negras como inclusas. E o BlackRocks se propõe a construir possibilidades de conexão com os ecossistemas de inovação de modo geral”, afirma a CEO.

Protagonismo feminino Mulheres negras fazem história à frente de descobertas científicas e inovações. Imagem: Jessica Felicio (Unsplash)

Protagonismo feminino negro

“É possível mudar sistemicamente os espaços de liderança para que mulheres entrem, e assim possamos desenvolver tecnologias e inovações melhores para o planeta”, sugere Alvares.

“As áreas que ocupamos não são majoritárias de mulheres, que estão, estatisticamente, muito mais nas funções de base, e não nas lideranças. Participei de grupos de maioria feminina em todos os meus 11 anos de carreira, o que contribuiu muito, mas somente agora, após 4 anos dentro dessa metodologia, que meu trabalho começou a ser reconhecido. Credito isso a ter sido liderada por uma mulher por muito tempo, e aos inúmeros homens e mulheres negros que vieram antes de mim e abriram esse caminho”, comenta a Dra. Goes quando questionada sobre o que a ajudou a seguir em frente em uma área que não é comuns às mulheres.

A cientista reforça que é preciso que a ciência passe a valorizar os saberes que não são ocidentalmente considerados como científicos.

“Há comunidades enormes na Índia e até mesmo aqui no Brasil, que tem saberes que a academia não leva em consideração. Valorizar as culturas e os conhecimentos das comunidades, que são passados de geração em geração, e difundi-los para o lado científico é fundamental, pois a partir deles aprendemos muitas coisas”

Dra. Jaqueline Goes, biomédica e pesquisadora

Levando em consideração que o eixo das startups é muito recente no mundo, e carrega características de grupos que tiveram acesso a mercados estrangeiros, Lourenço vê o próprio papel, de CEO negra, como alguém cuja função é mostrar às outras pessoas que elas também podem se tornar potência.

“Penso muito naquilo que posso representar para os outros, e consigo ter uma visão mais ampla do ecossistema para trazer outras pessoas para esse espaço. Eu me torno uma potência para poder proporcionar essa oportunidade para os outros”

Maitê Lourenço, fundadora e CEO do BlackRocks


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