Bons líderes são ouvintes empáticos, mas sabem encerrar reuniões

Pesquisadora mostra como líderes que não conseguem estabelecer limites em conversas (pessoais ou profissionais) no ambiente de trabalho tendem a sofrer com estresse e falta de produtividade

por em 22 de novembro de 2021

Conversas sobre temas que vão além do de assuntos de trabalho são comuns em empresas, podendo ser consideradas até mesmo saudáveis se realizadas de forma moderada.

O problema é aquele colega que não se dá conta de que, muitas vezes, você está atarefado e não pode gastar tanto tempo ouvindo todas as suas reclamações sobre a vida, um relato detalhado de tudo que você fez no final de semana, etc.

Ocorre que muitas pessoas, inclusive em cargos de liderança nas empresas, possuem um alto nível de sensibilidade, sendo chamados pela especialista Melody Wilding de sensitive strivers, o que pode ser traduzido como os "vencedores sensíveis". Wilding é coach de executivos e autora do livro "Trust Yourself: Stop Overthinking and Channel Your Emotions for Success at Work" ("Confie em si mesmo: Pare de Pensar Demais e Canalize Suas Emoções para o Sucesso no Trabalho", em tradução livre para o português).

As pessoas desse grupo, segundo Wilding, tendem a ser bem sucedidas e processarem o mundo ao redor de forma mais profunda, estando mais atentas aos sentimentos alheios, por exemplo, do que a pessoa média. Esse tipo de personalidade, no ambiente de trabalho, representa uma faca de dois gumes: estudos apontam que essas pessoas, embora sejam beneficiadas com uma maior capacidade de explorar diferentes ângulos e nuances, ao mesmo tempo são mais suscetíveis a sofrer com estresse.

Além disso, a capacidade de entender dinâmicas emocionais e ser empático com as necessidades alheias são características que podem tornar essa pessoa um líder carismático. Podem também, por outro lado, levá-la a evitar conflitos e tentar agradar as pessoas todo o tempo, o que acaba gerando mais estresse.

Muitas pessoas, sobretudo os vencedores sensíveis, têm uma grande dificuldade em traçar limites com colegas inconvenientes porque temem que irão ofendê-las ou mesmo destruir o seu relacionamento com elas.

E isso pode ocorrer tanto para cima ou para baixo na hierarquia, já que profissionais não querem ofender superiores para não correr o risco de sofrerem represálias e líderes, como no caso dos sensíveis, não querem ofender os funcionários com medo de passar uma imagem muito fria e pragmática.

Para Wilding, no entanto, achar que você está sendo generoso e paciente ao escutar por longos períodos essa pessoa é um engano: por dentro, você está deixando criar um ressentimento que é tóxico para seu bem estar emocional e produtividade.

Segundo ela, embora as pessoas falem além da conta por uma série de motivos, (como egocentrismo, ansiedade e desorganização), no ambiente de trabalho há uma responsabilidade consigo e com o resto do time, sendo necessário traçar limites para que você possa ouvir a pessoa por um tempo reduzido e ser capaz de realizar seus afazeres sem que sejam comprometidos.

Em artigo publicado na Harvard Business Review, Wilding elenca cinco passos para evitar que você continue sendo "alugado" por outros profissionais:

1- Antecipe-se a eles e trace limites - Após um tempo no seu ambiente de trabalho, você já é capaz de identificar quem são os "falantes potenciais". Dessa forma, é possível antecipar a suas interações e se preparar para elas. Uma forma de fazer isso, segundo Wilding, é determinar logo no início da conversa que você tem apenas 5 ou 10 minutos para conversar porque precisa fazer algo. Isso fará com o interlocutor, no mínimo, resuma um pouco a sua história/confissão/reclamação/etc. É importante, porém, que você não esqueça dos limites traçados e após o tempo determinado já se prepare para terminar a conversa. Isso porque, quando você não impõe esse tipo de limite na prática, a pessoa fica com a impressão de que não tem problema desrespeitar seus pedidos ou levá-los a sério, já que não existem consequências.

2- Caminhe para uma resolução - Caso você tenha concordado em se reunir com a pessoa por determinado período de tempo, como por exemplo uma hora, quando estiver chegando perto do final vale a pena sugerir que você gostaria de encerrar a discussão em breve, com frases como "após toda essa conversa, acho que é melhor você lidar com X e eu com Y, o que você acha?"

3- Não tenha medo de interromper seu interlocutor - Muitas pessoas consideram difícil fazer isso em determinados contextos, mas isso não é motivo para nunca fazer interrupções ou objeções. Ao usar frases como "antes de seguirmos em frente, posso dizer uma coisa?" e "posso só falar algo sobre esse assunto rapidamente?" é uma forma de evitar que conversas ou reuniões virem um monólogo e sua voz acabe não sendo ouvida.

4- Expresse o seu ponto de vista e suas necessidades - Fica mais fácil expressar suas necessidades usando a primeira pessoa com frases como "Eu tenho um deadline e não posso falar agora" e "Eu sei que no passado eu pude te ajudar com isso, mas agora está meio complicado, tenho algumas outras prioridades".  Embora possam soar um pouco frias, é impossível mostrar empatia, apoio e consideração o tempo todo para todas as pessoas que te abordam e seu tempo, no fim das contas, é finito. Cabe ao seu ouvinte entender que não se trata de algo pessoal, apenas que em um ambiente profissional existem outras prioridades.

5- Direcione conversas para quando você estiver menos atarefado - Caso alguém busque um feedback ou conselhos seus para determinada situação e você esteja no meio de algo importante, basta mostrar-se aberto para o papo, ao mesmo tempo em que busca um outro horário para a conversa, com frases como "eu adoraria falar mais sobre isso, que tal se a gente tomar um café às 15h e eu esclareço tudo que você precisa saber?"

Ao traçar esse tipo de limite, embora possa ser difícil no início, acaba se tornando um exercício de autoconfiança, segundo Wilding, já que toda vez que você traça esses limites você mostra que seus desejos, preferências e energia são tão importantes e devem ser prezados tanto como o de qualquer outro profissional.

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