De peso de papel a ameaça aos bancos: conheça a história da SumUp - WHOW

Eficiência

De peso de papel a ameaça aos bancos: conheça a história da SumUp

No meio de uma das maiores crises econômicas e da guerra das maquininhas, fintech europeia avança sobre mercado dominado pelos bancos

POR Raphael Coraccini | 18/07/2019 16h50

“Eu tive que dizer para todos os clientes, a sua máquina da SumUp virou um peso de papel, não vale mais nada”. Conta o fundador da unidade brasileira da SumUp e líder de Crescimento da operação global, Igor Marchesini, sobre o primeiro rompimento de uma empresa de cartão de crédito com a fintech que trouxe ao Brasil. “Eu não conseguia nem que a gerente de último nível da empresa me atendesse”.

Depois de resolver o problema que parecia insolúvel, outro obstáculo de peso: “na semana seguinte, resolveram cortar a linha de financiamento do parcelado (sem juros) e a gente estava de novo com aquela sensação de que o mundo ia acabar”. Mas Marchesini ouviu o conselho do seu parceiro de faculdade, Gabriel Braga, fundador do QuintoAndar. “Ele me disse: respire e lembre-se da última vez, você sobreviveu. Você não consegue ver agora como vai sobreviver, mas respira, levanta, e amanhã você vai conseguir achar uma solução”, detalha o executivo. A unidade brasileira da SumUp não só sobreviveu como é hoje umas das mais exitosas operações da fintech europeia, que cresceu mais de 14.000% em 3 anos.O empreendedor brasileiro conheceu o fundador da SumUp europeia quando estudou nos Estados Unidos, na Universidade de Stanford. Ele conta que, no começo da operação de uma startup, sobreviver é quase que uma questão de fé. “Quando as coisas dão errado, você dá uma volta no parque e decide que amanhã pensa nisso, caso contrário, você enlouquece. E cada novo problema que surge é maior que o anterior, mas a sua casca fica mais grossa. Passei por tanta coisa e não vai ser essa agora que vai me matar. Isso acontece mais nos primeiros anos da empresa, depois, a incidência é menor”, detalha o executivo.

Quando trouxe a SumUp para o Brasil, Marchesini sabia que ia entrar em rota de colisão com os bancos. O empreendedor viu que era possível fazer negócios no Brasil de maneira correta, mesmo nadando com os tubarões. “Quando a gente começou, o 0800 caía no meu celular. Assim que fechamos a primeira parceria, já não tínhamos mais capacidade de crescimento porque nossa capacidade em atender à demanda latente não era suficiente”, relata Marchesini.

A SumUp surgiu na Europa para atender micro e pequenos empreendedores. No Brasil,  avançou ao atender a onda de empreendedores por necessidade, que cresceu por conta do desemprego 

A SumUp chegou ao Brasil entre 2013 e 2014, quando a economia brasileira começava a derreter. Mais um desafio que a SumUp teria que enfrentar. “Para quem nasceu na crise, a crise não existe. Eu nem sei o que significa operar uma empresa como uma economia em bom estado. Mas isso é o legal quando você tem uma startup e tem que usar tecnologia para ganhar mercado num momento tão difícil: qualquer coisa que melhore é lucro. A gente se acostumou com esse Brasil tão difícil”, diz o executivo, que destaca ainda que essa dificuldade permanente criou o que considera o diferencial de mercado da SumUp: a eficiência. “O produto foi desenhado para que o cliente não precise ligar para cá. E para que isso aconteça, tem muita tecnologia envolvida”, completa.

sumup maquininha fundo branco edit eventoA crise econômica acabou por reduzir bruscamente a quantidade de transações, um problema que pode ser fatal para uma adquirente em ascensão que depende do aumento do volume de transações para manter seu crescimento. Por outro lado, houve o crescimento da atividade informal e mais empreendedorismo por necessidade, que acabou por expandir o número de micro e pequenos empresários, segmento que a SumUp nasceu para atender.

Para aproveitar esse aumento da sua base de possíveis clientes, a startup precisou ser cirúrgica. “Quando você atende uma pequena empresa, que processa até R$ 500 por mês, é preciso tornar o atendimento o mais automatizado possível. Mesmo que eu tenha uma margem maior de lucro, de 2 a 3%, isso vai significar apenas R$ 15 por mês. Se o empreendedor ligar aqui duas vezes por mês, eu já tenho prejuízo”, revela. “Na prática, eu ofereço um custo muito menor e uma experiência melhor porque tenho um sistema que identifica mais de 30 erros possíveis de maneira automatizada. Essa é a mágica”, afirma o executivo.

Recebeu o equivalente a R$ 1,5 bilhão em investimentos de grandes empresas e fundos em julho

Receita anual global de 200 milhões de euros

Nascida em 2012, chegou ao Brasil em 2014

14.368% de crescimento em 3 anos (2013 e 2016)

14 escritórios pelo mundo em 32 países

Entre os 1.000 funcionários, 51% são mulheres

Além das maquininhas para micro e pequenos empreendedores, a SumUp apostou na linha de crédito de antecipação de recebíveis, mais uma vez, comprando briga com os gigantes. O mercado de antecipação de recebíveis funcionou durante muito tempo com poucos players e margens pequenas de lucro. “Não tem nada parecido no mundo. A partir do momento que as fintechs chegaram, o mercado foi sacudido e os grandes tentaram se mexer. Se vai dar certo, eu não sei, mas tudo que a gente faz num dia, no outro, tem três copiando”, afirma o executivo.

Segundo Marchesini, a guerra das maquininhas, deflagrada depois de GetNet e Rede anunciarem D+0 para pagar o lojista em compras a prazo, afetando dramaticamente a linha de antecipação de recebíveis, não é o apocalipse para as fintechs que tem boa parte de sua operação sobre esse tipo de serviço.

Para o fundador da SumUp, a competição com os grandes bancos, donos das adquirentes tradicionais, é saudável para o mercado. “A gente está num mundo onde se ganha o jogo com tecnologia. O recurso escasso hoje não é propriedade intelectual, dinheiro ou distribuição, mas talento engajado que consiga criar tecnologia disruptiva. O grande banco pode ter 500 mil vezes o meu orçamento, mesmo assim, eu vou conseguir ficar cinco passos à frente dele”, provoca o empresário.Igor Marchesini, fundador da SumUpO fundador da SumUp no Brasil destaca ainda que o mercado de adquirência é diferente da maioria dos outros mercados e usa como exemplo o varejo de viagens. “Quando você olha para o mercado de passagens aéreas, onde toda passagem é vendida por meio do site de comparação de preço, os novos entrantes são derrubados porque os grandes conseguem baixar os preços e segurar o prejuízo porque têm muito dinheiro. Assim, o player tradicional consegue matar o concorrente no dia seguinte. No nosso mercado, o produto é mais sofisticado e a tecnologia faz com que os entrantes tenham uma vantagem grande”, avalia.

Para Marchesini, o grande adversário das fintechs brasileiras são os gigantes internacionais da tecnologia e as startups que ainda não nasceram. “Não estou muito preocupado com os bancos. Estou mais preocupado com a molecada nova que está pensando na próxima leva de disrupção, de como vai ser o pagamento sem celular e sem maquininha. E, eventualmente, preocupado com os grandes players, como Amazon e Facebook”, assume o executivo.


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