PERFIL: Pedro Kauffman, o rabino empreendedor no segmento fitness - WHOW

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PERFIL: Pedro Kauffman, o rabino empreendedor no segmento fitness

Fundador da startup Fit Anywhere revela, em entrevista exclusiva, os principais desafios da jornada empreendedora

POR João Ortega | 02/07/2021 15h13

A indústria de atividade física movimenta, apenas no Brasil, US$ 2,1 bilhões por ano, segundo dados da Exame. Três em cada quatro brasileiros acreditam que personal trainers no ambiente digital podem ajudá-los a atingir objetivos de saúde e bem-estar físico. E, de acordo com análise da CB Insights, o mercado de fitness em casa vai continuar crescendo no mundo inteiro, tornando-se cada vez mais “especializado e personalizado”.

É neste cenário que a Fit Anywhere, startup fundada pelo empreendedor paulistano Pedro Kauffman, vem se destacando. Lançado em 2016, o aplicativo ajuda os usuários a se manterem ativos e saudáveis utilizando ou não equipamentos de academia. O app já foi baixado mais de cem mil vezes, tem sete mil condomínios cadastrados e está disponível para 40 mil colaboradores de empresas parceiras.

Hoje, a Fit Anywhere oferece soluções gratuitas, como uma biblioteca digital de treinos e um sistema que desenvolve rotinas fitness baseadas no equipamento que o usuário tem disponível em seu condomínio. Além disso, a startup tem produtos pagos, como assessoria esportiva virtual e conteúdos mais diferenciados do mercado.

Mas nem sempre foi assim. Antes de ter uma startup bem posicionada no segmento fitness, Pedro Kauffman passou por mil e um desafios da jornada empreendedora. E o paulistano ainda teve que dividir essa trajetória com sua posição de rabino em uma sinagoga do bairro do Bom Retiro.

Em entrevista exclusiva ao WHOW!, o empreendedor revela os detalhes mais importantes de sua jornada. Confira!

Veia empreendedora

“A inspiração para minha veia comercial e empreendedora veio do meu pai, que era um vendedor nato”, conta Pedro Kauffman. Só que todo empreendedor está sujeito ao risco e, no início da década de 2000, o negócio familiar quebrou. Aos 17 anos, Pedro precisou trabalhar como vendedor de telemarketing para pagar a faculdade de Direito em que tinha acabado de ingressar.

Depois de passar por algumas funções em diferentes áreas, como alimentação kosher e mercado financeiro, o paulistano tentou sua primeira incursão no mundo empreendedor. Não deu certo: a ideia era criar um negócio na área de vestimenta íntima feminina, mas os parceiros do empreendimento não se acertaram. O projeto nem chegou a sair do papel.

A segunda tentativa foi no mercado de cartuchos para impressão. Com experiência trabalhando na área, Pedro Kauffman conseguiu fazer o negócio crescer, especialmente com clientes na comunidade judaica. Em 2007, transformou o projeto em uma empresa formal.

“Eu contava com um dinheiro de um investidor, mas, no meio do caminho, parte desse capital não veio”, explica o empreendedor sobre este período. “Somado a isso, eu não soube gerir o fluxo de caixa. Chegou em um ponto em que eu tinha quatro contas no banco: duas na pessoa física e duas na pessoa jurídica, para ficar girando o dinheiro entre elas usando o prazo do cheque especial. Não tinha como dar certo”.

Quando seu primeiro filho nasceu, Pedro optou pela estabilidade. Abandonou o empreendimento e aceitou uma posição de diretor geral em uma ONG, onde ficou durante vários anos. Fortaleceu ações da comunidade judaica e esteve em contato com líderes que pregavam justiça social em todo o mundo.

“É engraçado… Eu desisti da minha empresa quando meu primeiro filho nasceu. Mas, quando minha esposa estava grávida do quarto filho, eu percebi que precisava empreender. Eu senti”, diz o paulistano. Foi em 2015 que ele decidiu buscar uma nova oportunidade para criar seu próprio negócio.

Dilemas da sociedade

Nesse momento, Pedro Kauffman foi apresentado a um empresário do setor de academias – que lhe foi descrito como um segmento em ascensão. Este potencial sócio queria levar soluções digitais da sua rede de academias para os condomínios residenciais que possuíam este tipo de ambiente aos moradores. Pareceu uma boa ideia.

“No meio do caminho, a rede de academias fechou e ele abandonou o projeto. Me vi em um voo solo, sem nem ter iniciado a sociedade, e sem aquele nome forte por trás do negócio”, revela o rabino. No entanto, decidiu continuar estudando no setor e criar uma marca própria. Percebeu que, na época, não existiam muitos aplicativos voltados ao segmento fitness dentro de casa. Daí surgiu a Fit Anywhere.

A ideia era boa e logo surgiu uma pessoa interessada em se tornar sócio. Como ofereceu um aporte financeiro interessante, Pedro logo aceitou a parceria. “Eu não fiz a pesquisa correta sobre o perfil do meu primeiro sócio. Estava desesperado e a verdade é que fui atrás de grana. Só que dinheiro não é tudo. Hoje se fala muito em smart money no mercado, mas há seis anos não era assim. Acreditava-se que uma pessoa com grana e outra com gana seria a dupla ideal. Mas o que faltou foi alinhamento”, relembra o empreendedor.

“Esse primeiro sócio saiu do negócio depois de três meses. Então, chamei dois amigos para tocar a Fit Anywhere comigo”, continua Pedro Kauffman. No momento ele não sabia, mas foi mais um erro que cometeu em relação à sociedade. “Faltou foco, maturidade e alinhamento. Eles queriam desenvolver dois aplicativos ao mesmo tempo, cada um tinha uma ideia sobre a empresa, e não deu certo. Hoje somos grandes amigos novamente, mas naquele momento eu ‘queimei’ aquela amizade”.

O empreendedor chegou a ter mais um sócio, que ofereceu capital e uma estrutura de TI, mas também acabou abandonando o barco. “Só dinheiro não dá certo. Só estrutura não dá certo. É preciso ter um sócio alinhado com seu propósito”, afirma.

“A Fit Anywhere começou a crescer mesmo com esses problemas de sociedade. Eu acabei entrando no ‘vale da morte’ das startups sem um sócio, sem estrutura e com um aplicativo cheio de problemas. Tive que pegar empréstimos, contratar um novo desenvolvedor, repensar a solução do zero”, conta o rabino.

Hoje, Pedro olha para trás e vê seu primeiro acerto em relação à sociedade da Fit Anywhere já em 2019, quando recebeu um aporte de um investidor da área de academias cuja expertise foi essencial para o negócio. Depois, recebeu mais um investimento, desta vez de um empresário do setor de condomínios residenciais, que também tinha um fit claro com a solução.

À procura do modelo de negócio perfeito

Em um primeiro momento, ainda em 2016, o produto da Fit Anywhere era um totem digital para academias de condomínio. O aparelho se conectava com o app no smartphone do usuário e permitia reservar horário em equipamentos no local, entre outras funcionalidades. A ideia era cobrar um valor único pelo totem, com uma pequena taxa anual de manutenção. Só que os síndicos não pareciam muito interessados.

O empreendedor decidiu abandonar o totem e focar a solução no app do celular, utilizando georreferenciamento para identificar se o usuário estava, de fato, naquela academia em que ele reservou equipamento ou programou treinos personalizados de acordo com o maquinário disponível. O condomínio pagaria uma assinatura mensal após testar o serviço durante alguns meses.

“Com esse modelo de assinatura mensal B2B do aplicativo e uma parceria com uma grande administradora de condomínios, entramos na pandemia com 300 condomínios cadastrados no Brasil”, revela Pedro Kauffman. “Naquele momento de início da pandemia, eu vi que tinha uma ferramenta muito poderosa que poderia ajudar as pessoas com o home fitness. Colocamos treinos e videoaulas que não precisavam de equipamentos e abrimos o app de graça para todas as pessoas. Foi uma transformação muito rápida. Não sabia, ainda, como iria ganhar dinheiro: foi um ano inteiro sem cobrar nada, mas crescendo de forma acelerada”.

Com a gratuidade, o número de condomínios cadastrados foi de 300 para 2 mil. “Percebi que tinha gente burlando o app, cadastrando condomínios sem academia ou até cadastrando condomínios que não existiam para ter acesso ao conteúdo. O que eu fiz foi abrir o modelo para o B2C, em que o usuário poderia usar o aplicativo gratuito mesmo se ele morar em uma casa sem nenhum equipamento”, diz o empreendedor.

A solução de monetização veio com um modelo freemium, usado até hoje. Produtos especiais com maior valor agregado são comercializados por meio de uma moeda digital criada no próprio aplicativo. Empresas interessadas podem dar moedas aos colaboradores e assim promover o bem-estar físico em seus times.

Religiosidade e empreendedorismo

“Se quisesse ser rabino o tempo todo, continuava na ONG. Mas eu queria ser empresário”, diz Pedro Kauffman, que por anos rejeitou a alcunha de “rabino empreendedor”. Ele acreditava que as duas personas não combinavam.

“Depois de algum tempo tentando separar as coisas, assumi o nome de rabino empreendedor. Essa união me fez bem e sinto que levo coisas boas para as pessoas à minha volta”, revela. O empreendedor, no momento mais difícil de sua jornada, chegou a montar um escritório dentro da sinagoga para encontrar forças e seguir acreditando no negócio que estava desenvolvendo.

“A religiosidade me guia o tempo inteiro na Fit Anywhere. Sei que o fato de ser rabino, a barba no rosto e a quipá que uso na cabeça trazem uma responsabilidade de representar a comunidade. Isso me gera cobrança e me faz bem”, diz o rabino. “Comecei a ver recentemente que as pessoas admiram a minha relação com a religiosidade nos negócios. A maneira como eu me coloco no lugar do colaborador quando estou falando com ele, por exemplo”.

Para terminar a conversa, Pedro Kauffman cita um dos ensinamentos judaicos para o mundo do empreendedorismo: “A primeira pergunta feita a uma pessoa quando ela sair desse mundo e ir para o mundo vindouro não é se ela rezou muito. É: ‘Você foi honesto nos seus negócios?’. É o seu nome, é a sua reputação que se deixa nos  negócios. Tenho a missão de ser um empreendedor que fala de justiça social e de caminhos corretos nos negócios”.

E você, empreendedor, com isso?

A história de Pedro Kauffman pode ser uma inspiração para qualquer empreendedor em início de jornada, ou também àquela pessoa que deseja começar o seu próprio negócio. Entre as principais lições dos erros e acertos do rabino, vale o destaque para:

– O apoio da comunidade judaica foi essencial para o crescimento de sua carreira empreendedora. Portanto, utilize de suas comunidades locais, seja de vizinhos, de um clube ou de adeptos de um hobby, para fazer seu negócio prosperar.

– Sociedade é um dos aspectos mais complicados do empreendedorismo. Escolher o sócio certo é sempre um desafio, então separamos algumas dicas para te ajudar nessa jornada.

– A capacidade de pivotar o modelo de negócio é essencial para o empreendedor. O importante é ter em mente o problema a ser resolvido e não ficar preso a uma solução específica que pode não estar dando resultado.