Para além do hambúrguer vegano: novas formas de se alimentar - WHOW
Consumo

Para além do hambúrguer vegano: novas formas de se alimentar

Além de oferecer alternativas inovadoras, é papel das empresas comunicar os benefícios dos produtos que substituem a proteína animal

POR Adriana Fonseca | 11/11/2020 16h30

O veganismo e o vegetarianismo são termos conhecidos atualmente e que vêm ganhando espaço na vida do brasileiro. Até grandes indústrias, como a BRF, já oferecem linhas de produtos como alternativa ao consumo de proteína animal. É o caso da Veg&Tal, da Sadia, marca da BRF, que tem hambúrguer, bacon e nuggets à base de vegetais.

“É nosso papel trazer o produto especial e começar a ter a dinâmica mental de baratear esse produto para que ele chegue a todo mundo que quer substituir os produtos de origem animal”, afirma Demetrio Teodorov, executivo de inovação da BRF.

“Não existe transformação sem alternativas”

Se hoje se fala na disseminação de alimentos sem proteína animal, até pouco tempo atrás a história era outra.

Em 2001, quando Mariana Falcão, sócia-fundadora da Mr. Veggy, parou de comer carne, a família dela nem sabia que tipo de alimento oferecer nas refeições. Foi aí que ela descobriu a soja e, alguns anos depois, em 2004, ela criou a Mr. Veggy, que oferece para o consumidor uma gama de alternativas práticas e saborosas ao consumidor sem ingredientes de origem animal. “Não existe transformação sem alternativas”, afirma. “Se você vai a uma padaria e não tem um leite vegetal, você vai acabar consumindo o que tem porque está com fome.”

Comunicação com o consumidor

“Hoje em dia o estranho é chegar a um restaurante e não ter opção vegana”, pontua a nutricionista Simone Bach, fundadora da Cozinha Bach. 

Ainda que o conceito de alimentos alternativos à proteína animal esteja em evidência, falta informação ao consumidor.

Teodorov, da BRF, acredita que a comunicação e a troca de informação têm o poder de começar a democratizar esse tipo de produto. “Então, primeiro é comunicar a questão nutricional de maneira aberta”, afirma. “A gente ainda fala muito sobre ser um produto inovador, mas o que tem dentro da embalagem, qual seu valor nutricional? Acho que ainda falta criar campanhas explicativas e, ao mesmo tempo, entender o direcional da cultura, o comportamento do consumidor. Será que a pessoa que vai substituir a carne quer substituir por algo que imite carne ou ela quer um hambúrguer com gosto de feijão, de fibra de caju? A gente vai regulando o mercado. Tudo é muito novo.”

Para o executivo, a indústria tem que ter o cuidado, quando coloca um novo produto no mercado, de como faz a comunicação. “A gente tem responsabilidade de colocar produto de boa qualidade no mercado e aculturar o consumidor, além de entender novas tecnologias”, afirma. “Será que não dá para variar a proteína, com pensamento mais estratégico, fazendo mais testes sensoriais? Colocar o cliente no centro e escutar em todas as etapas, não só quando o produto está pronto.”

Pesquisas e inovações

Teodorov diz que é papel da indústria entender as novas tecnologias para tornar esse prato trivial. Por novas tecnologias, ele se refere às pesquisas e inovações que permitem oferecer diferentes fontes de proteína ao consumidor, e não só a tradicional soja. 

Nesse sentido, ele afirma que a BRF escuta muito o cliente no desenvolvimento do produto, levando em conta o olhar do vegetariano, do vegano e do flextariano – que é aquele consumidor que não quer comer carne às segundas-feiras, por exemplo. “O  olhar da BRF é trazer um produto que olhe para a necessidade do consumidor”, afirma. 

Mariana, da Mr. Veggie, diz que a empresa surgiu com foco no nicho de pessoas que já estava buscando substituir a carne e, nesse caso, a comunicação é mais fácil. “Quando a pessoa já está com a mente aberta e buscando alternativas ela fica entusiasmada quando você chega com um portfólio de dez produtos”, diz. 

De qualquer forma, Mariana comenta que a entrada da grande indústria nesse segmento ajuda no processo de conscientização do consumidor. “É um movimento benéfico para o planeta esse investimento da grande indústria”, afirma.

Frutas e legumes fora do padrão

A Fruta Imperfeita, de Roberto Matsuda, CEO e fundador da empresa, tem, desde o início, esse foco de conscientização do consumidor. O que a Fruta Imperfeita faz é levar ao consumidor frutas e legumes fora do padrão usual de consumo. “É um movimento de combate ao desperdício de alimentos, de conscientizar o consumidor sobre a padronização que existe para frutas e legumes”, afirma.

Há cinco anos nesse mercado, Matsuda diz que tem visto crescer a busca por alimentos mais saudáveis e também o conhecimento sobre a origem desses alimentos. “Existe uma preocupação de quem está por trás do alimento consumido, assim como de peças de vestuário e outros itens. Esse movimento de conscientização é o mais gritante, e a saudabilidade vem junto com essa informação.” 

O empreendedor comenta que frutas e legumes ainda são caros porque as pessoas continuam consumindo alimentos que não são da época e não aproveitam o alimento por inteiro. “Muita gente compra e deixar estragar. Isso deixa o alimento mais caro”, diz.

O preço dos alimentos

O preço dos alimentos saudáveis e veganos ainda é um tema que gera discussão. 

“Acessibilidade é algo que as pessoas comentam muito”, diz Simone. “Existe um conceito de que a alimentação vegana ou vegetariana é mais cara. Mas eu comparo em consultório uma almôndega feita com carne e uma feita com lentilha, e a mais acessível é a de lentilha. Com essa comparação a gente consegue fazer o paciente fazer a transição aos poucos.” 

Roberta Suplicy, sócia da Urban Remedy, que vende sucos frescos e nutritivos, diz que o preço é, de fato, uma questão, um questionamento dos consumidores. Ela diz que uma garrafinha de suco leva um quilo de verduras frescas e custa R$ 20. “As pessoas pagam R$ 40 em um prato de macarrão com tomate e não questionam”, diz, exemplificando de como tudo pode ser relativizado. 

“O que a gente come é uma das decisões mais importantes da vida de uma pessoa e muita gente sai de casa sem saber o que vai comer. A proposta da Urban Remedy é facilitar essa decisão do que comer.” 

Roberta vê que as pessoas olha calorias, mas não se atentam à saudabilidade do produto, ao que oferece a maior quantidade de nutrientes. “A caloria de uma coxinha não é igual a de grão de bico ou macadâmia, por exemplo. Todos os produtos da nossa marca tem baixo índice glicêmico.”

Ela complementa dizendo que as pessoas têm a falsa informação de que precisam comer carne para obter proteína e precisam beber leite para obter cálcio. “Precisamos desmisitificar isso”, diz.

Roberta pontua que, hoje, mais de 60% das áreas plantadas são para alimentar os animais. “Então, será para o bem do planeta e de todo mundo se as pessoas diminuírem um ou dois dias no consumo de proteína animal e ampliarem a alimentação à base de plantas”, diz. “Quanto mais verduras e frutas você conseguir colocar na alimentação, melhor para você e para o planeta.”


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