Pandemia e Open Banking colocam PMEs na mira das fintechs - WHOW
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Pandemia e Open Banking colocam PMEs na mira das fintechs

Após crescer com produtos e serviços voltados à pessoa física, setor financeiro digital tem no público empreendedor oportunidade para acelerar

POR João Ortega | 30/08/2021 17h55 Pandemia e Open Banking colocam PMEs na mira das fintechs

A digitalização das empresas é um tema que vem sendo debatido à exaustão desde o início da pandemia. Conceitos como e-commerce, marketplace, delivery, integração de sistemas, plataformas de gestão e marketing digital entraram na pauta de boa parte dos empreendedores no Brasil e no mundo. No entanto, há outro assunto relacionado à transformação digital e aos impactos da Covid-19 na sociedade que tem potencial de impulsionar as micro, pequenas e médias empresas no cenário atual: a digitalização financeira. 

Fintechs – startups que desenvolvem soluções financeiras com uso de tecnologia – estão no centro desta tendência. Este ecossistema desafia os bancos tradicionais com produtos feitos sob medida para os empreendedores, experiência sem fricção em aplicativos digitais e taxas mais vantajosas aos clientes. 

Uma pesquisa conduzida no primeiro semestre de 2021 pela consultoria EY revela que uma em cada quatro pequenas empresas já tem algum tipo de relacionamento com fintechs. “As empresas buscam nessas instituições taxas de juros mais baratas e agilidade na liberação do crédito”, afirma Rafael Schur, sócio-líder de Mercado de Serviços Financeiros da EY no Brasil. Segundo o especialista, as PMEs procuram instituições que não apenas ofereçam produtos financeiros, mas que ajudem a fazer a gestão de seus negócios.

Tendência que vem de fora

Há dois anos, já se falava nos EUA sobre um novo movimento do ecossistema de fintechs. Desde o início da década passada, essas empresas haviam crescido com serviços voltados ao consumidor pessoa física. Mas, naquele momento, o setor voltava o foco para o público empreendedor. A Forbes norte-americana destacou, em 2019, essa tendência como “uma segunda onda das fintechs”. 

“É uma progressão natural para as fintechs, agora que barreiras de entrada foram eliminadas. A maior parte da atividade é focada em ajudar as pequenas empresas a administrarem seu fluxo de caixa. Surge grande oportunidade para as fintechs, já que muitos bancos incumbentes são reticentes em emprestar para essas pequenas e, muitas vezes, arriscadas empresas”, afirma a publicação. 

Isso não significa, necessariamente, que as mesmas fintechs que se desenvolveram atendendo no modelo B2C foram as pioneiras para criar soluções B2B. Trata-se de um movimento geral do ecossistema, com o surgimento, nos últimos dois anos principalmente, de diversas ofertas de valor para empresas de todos os tamanhos. 

Ao falar de produtos e serviços financeiros para PMEs nos EUA, a Brex é a fintech mais lembrada – especialmente no Brasil. Isto porque a startup, cujo valor de mercado ultrapassa os US$ 7 bilhões, foi fundada por empreendedores brasileiros. Ela oferece uma série de soluções ao público PJ, desde um cartão de crédito empresarial até uma plataforma de gestão financeira.

Fintechs e PMEs no Brasil

O movimento brasileiro repete o que ocorreu nos EUA. Segundo Bruno Diniz, autor do livro “O fenômeno fintech”, o mercado de soluções financeiras para pessoa física no Brasil se tornou um concorrido campo de batalha, e agora os “neobanks” se voltam ao universo PJ. 

“As empresas sofreram por muito tempo com soluções bancárias caras (especialmente para as pequenas e médias) que não acompanharam a velocidade das evoluções que vimos acontecer com os produtos voltados para indivíduos. Isso abriu uma grande oportunidade que está sendo aproveitada por novos entrantes no mundo todo, e que viraram alvo dos fundos de venture capital (VC)”, analisa o especialista.

De fato, os fundos de capital de risco estão despejando investimentos nas fintechs com soluções voltadas a PMEs. Para citar alguns exemplos nacionais: a BizCapital, fintech de crédito para PMEs, recebeu R$ 85 milhões em duas rodadas no ano passado; a Linker, que oferece uma conta digital PJ para 30 mil clientes, levantou investimento de R$ 12 milhões em 2020; mas quem mais se destacou foi a Cora, que recebeu um aporte superior a R$ 600 milhões neste ano. 

Igor Senra, sócio-fundador da Cora, falou com exclusividade à Whow!. Segundo o empreendedor, o sucesso de fintechs como o Nubank entre o público de pessoas físicas deu o respaldo para o ecossistema se aventurar no universo PJ. “Entendemos que, cedo ou tarde, a mesma demanda iria chegar para a pessoa jurídica. Afinal, os motivadores existem: empreendedores estão cansados de serem extorquidos pelos bancos tradicionais, que cobram muito e entregam pouco. Muitos deles já tiveram experiências com contas digitais na pessoa física e passaram a exigir uma experiência semelhante em suas empresas”, diz.

Tanto as empresas quanto os indivíduos prezam por taxas menores e experiência de uso sem fricção. Mas isso não significa que as dores de ambos os tipos de cliente sejam as mesmas. “As demandas da pessoa física e da pessoa jurídica são diferentes, e a nossa conta digital é muito diferente de uma conta para PF. Por exemplo, um dos principais diferenciais da Cora é uma ferramenta de projeção de caixa. Ou seja, baseado no histórico do cliente de gastos e recebimentos, já informamos quanto ele deverá ter no caixa para a próxima semana ou para o próximo mês. Não é uma conta genérica”, explica Igor Senra. 

“A principal dor de cliente que identificamos é o fardo que a parte financeira do negócio tem para o empreendedor. Isso ficou muito evidente nas nossas pesquisas. O propósito da Cora é liberar o dono e a dona do pequeno negócio para que eles consigam fazer diferença na sociedade”, completa o fundador da startup. 

Do lado das PMEs, há a mesma impressão, de acordo com Cibele Pestillo, consultora de negócios do Sebrae especialista em serviços financeiros. “As fintechs, quando chegam ao mercado, já vêm com a mentalidade de atuar na dor do cliente. Portanto, elas trazem mais do que os serviços financeiros digitais: elas trazem junto ferramentas de controle financeiro. E os bancos tradicionais já estão aderindo a essa mudança”, revela em entrevista exclusiva à Whow!. 

A especialista destaca, inclusive, que a falta de organização financeira é a maior dor do mercado das pequenas empresas. Isto porque quando não há um gerenciamento efetivo do fluxo de caixa, por exemplo, os empreendedores recorrem a empréstimos e se endividam, quando muitas vezes este crédito não seria necessário. 

Depois de desafiar o mercado tradicional de investimentos, a XP se alinha à tendência da “nova onda das fintechs” e aponta a mira para a “classe C empreendedora”, conforme destaca matéria da Bloomberg. A empresa tem hoje 3,2 milhões de clientes pessoa física e outras 40 mil pessoas jurídicas na plataforma de investimentos, mas pretende oferecer ao PJ uma gama de serviços que vão desde maquininha de cartão até um marketplace de seguros de saúde.

Em entrevista exclusiva à Whow!, Daniel Jimenez, head de PMEs da XP, afirma que a alta taxa de desbancarização das pequenas empresas cria uma série de oportunidades para as fintechs.  “Há uma assimetria muito grande entre o serviço prestado pelas instituições financeiras e a necessidade dos empreendedores, que ficam muito focados no dia a dia de seus negócios. As incumbentes exercem taxas e cobram spreads altíssimos devido a essa assimetria. É preciso acolher esse segmento, entender as nuances e necessidades específicas dos pequenos empreendedores, e atendê-los bem e tratá-los de uma forma justa”, destaca o executivo.

Pandemia como um divisor de águas

Apesar de a tendência de aproximação entre fintechs e PMEs existir desde antes do ano passado, a pandemia da Covid-19 foi um claro catalisador deste movimento. Em primeiro lugar, por conta do número de empresas abertas no período: segundo o Sebrae, foram 626 mil novos CNPJ só em 2020. Em segundo, por causa das dificuldades financeiras para se adaptar no início da crise: de acordo com pesquisa da XP, 40% das empresas tinham caixa suficiente para suportar no máximo 30 dias de portas fechadas. Em terceiro, devido ao déficit de crédito para PMEs, que, a nível global, é de US$ 5,2 trilhões todo ano e, segundo o Banco Mundial, ficou ainda maior a partir do ano passado. 

Entre as empresas que tiveram que encerrar as portas em 2020, 34% afirmam que ter acesso a crédito teria evitado o fechamento. De acordo com o Sebrae, quanto menor o porte da empresa, mais difícil obter crédito para manter o capital de giro e conseguir superar obstáculos como os causados pela pandemia de covid-19. Mais de 40% dos entrevistados citaram como causa do encerramento da empresa a pandemia. Para 22%, a falta de capital de giro foi primordial para o fechamento do negócio.

No entanto, ao longo dos últimos 18 meses, o cenário vem mudando. Cada vez mais, negócios informais vão para a formalidade e, assim, podem acessar produtos financeiros. Cibele Pestillo revela que, desde o ano passado, o número de capacitações realizadas pelo Sebrae para pequenos empreendedores bate recordes atrás de recordes. Com isso, este público está se tornando mais digital e, portanto, aderindo à “onda das fintechs”. 

 “As empresas podem até ter começado por necessidade, sem gestão. Mas, com a busca por capacitação, há acesso a conhecimento e, portanto, melhor administração dos negócios”,  explica a consultora. “Está mais fácil obter crédito desde que a micro ou pequena empresa tenha acesso à tecnologia”. Uma pesquisa divulgada pelo Sebrae e FGV revela que, no mês de maio de 2021, 52% dos MEIs conseguiram crédito, assim como 26% das MPEs (micro e pequenas empresas). As porcentagens apresentam um salto quando comparadas a um ano antes, quando 16% dos MEIs  e 6% dos MPES  angariaram empréstimos.

Open Banking: fator decisivo para PMEs

Espera-se que a abertura do setor financeiro por meio do Open Banking tenha impacto positivo tanto para as instituições financeiras quanto aos consumidores. Mas, segundo Lee Li, especialista em fintechs, serão as PMEs as mais beneficiadas por esta novidade do mercado. 

“Isso não ocorre necessariamente porque as estruturas de Open Banking oferecem novas funcionalidades específicas que serão úteis para pequenas e médias empresas. Em vez disso, é um reflexo do fato de que as PMEs têm sido historicamente mal atendidas por bancos tradicionais”, destaca a autora em artigo publicado no TechCrunch. “Como o Open Banking exige que os bancos disponibilizem dados valiosos por meio de APIs, haverá uma revolução na forma como as pequenas e médias empresas são financiadas. Nesta nova dinâmica, os dados, e não o capital no caixa da empresa, são o fator mais importante para acessar serviços financeiros”. 

Em outras palavras, o Open Banking permite que um cliente PJ que acabou de abrir uma conta digital em uma fintech tenha todo seu histórico bancário de outras instituições disponível nesta nova plataforma. Assim, há mais segurança na hora de oferecer crédito e definir as taxas que serão cobradas sobre ele. 

“Open Banking é uma parte chave da nossa trajetória com PMEs”, explica Daniel Jimenez. O executivo da XP afirma que o movimento vai gerar maior transparência ao cliente, que poderá comparar taxas e benefícios dos produtos e serviços oferecidos por diferentes instituições. “Segundo nossas pesquisas, os clientes PMEs estão mais dispostos a compartilhar os dados via Open Banking, se comparados a empresas com maior faturamento e também quando comparados às PFs, porque assim podem ter acesso aos melhores preços, melhores produtos, melhores experiências e menor fricção”, revela.