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Opinião: Tecnologias a prova de pandemias

Novas tecnologias como drones e a inteligência artificial podem ajudar, mas também precisamos entender as causas e a origem dos vírus

POR Redação Whow! | 11/09/2020 18h15 Opinião: Tecnologias a prova de pandemias Foto Gerd Altmann: Pixabay

*Por Lucas Prado

Para além das vacinas, que há mais de dois séculos representam a única tecnologia eficaz no combate aos vírus, quais outras podemos utilizar e desenvolver para nos preparar melhor para as próximas pandemias? Afinal, essa guerra, que vem sendo travada entre humanos e vírus, desde os nossos primórdios ancestrais até os dias de hoje, está longe de ser vencida. 

Descobrimos tarde demais que não estávamos prontos para a COVID19 e já perdemos mais de 910mil vidas globalmente. Será se estaremos prontos para a próxima pandemia? Algumas novas tecnologias como drones e a inteligência artificial podem ajudar, mas também precisamos entender as causas e a origem dos vírus para sermos mais eficientes no seu combate. 

Inteligência Artificial

Pode parecer chover no molhado falar de inteligência artificial no combate a futuros vírus, uma vez que um algoritmo da empresa canadense, modelado no com base nos casos de SARS, conseguiu prever a pandemia do atual coronavírus com precisão. Não só isso, no caso da COVID-19, além de enviar um alerta, o BlueDot também foi capaz de identificar corretamente as cidades que estavam altamente conectadas a Wuhan, usando dados de emissão de passagens aéreas para ajudar a antecipar para onde os infectados podem estar viajando.

Uma das coisas mais incríveis que se pode fazer com dados é prever o futuro, ou pelo menos tentar. Aprendemos com cultura analitica que tem sido propagada pelo Big Data nos últimos anos que, o real valor dos dados está em melhorar a capacidade na tomada de decisões dos seres humanos. Talvez esse seja o grande desafio da IA, porque já sabemos que ela será capaz de prever a próxima pandemia com elevada acurácia.

Para além da predição de uma nova pandemia, esta tecnologia pode ser bastante eficaz para o diagnóstico precoce, como é o caso da startup brasileira IVARE Health, que realiza o diagnóstico, triagem ou contra-prova da Covid-19 via imagens de raio-x ou tomografia com assertividade média de 81% e 92%, respectivamente.

A IA também tem grande potencial para ajudar a desenvolver tratamentos, utilizando algoritmos de “generative design”. Essa técnica pode ser usada para pesquisar rapidamente milhões de estruturas biológicas ou moleculares, por exemplo. A SRI International está colaborando com essa ferramenta de IA, que usa deep learning para gerar muitos candidatos a novos medicamentos que os cientistas podem avaliar quanto à eficácia.

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Psitechs

Se por um lado o Big Data pode ser uma excelente arma contra a pandemia, servindo para treinar modelos preditivos de IA, por outro lado, o excesso de informação pode causar efeitos nocivos para a saúde mental, ocasionando o que a OMS tem chamado de “infodemia”. Além do excessivo volume de informações oficiais que temos que processar diariamente, também acabamos esbarrando em fakenews, teorias da conspiração e sensacionalismos. Já existem startups desenvolvendo soluções para o combate às fakenews, mas precisamos aprimorar os métodos de compartilhamento de informações para gerar maior confiança e segurança para a população.

De outro lado surgem as psitechs com o papel de cuidar da saúde mental das pessoas, combatendo males como ansiedade, depressão, síndrome do pânico e outras doenças psicossomáticas que se tornam muito mais frequentes e intensas durante um contexto de pandemia.

Novos meios de pagamento

Por mais inofensivo de possa parecer, o papel moeda, que, por incrível coincidência, também tem sua origem na China, é um potencial veículo de transmissão de vírus e bactérias em geral. No entanto, segue sendo utilizado em larga escala ao redor do mundo para todo tipo de transação comercial. Novos meios de pagamento digitais, como QRcodes e criptomoedas, podem ser uma excelente alternativa para neutralizar o contágio pela livre circulação de dinheiro vivo.

Smart Cities

Outra arma poderosa contra os vírus do futuro podem ser as soluções de smart cities, como sensores, câmeras, redes wi-fi e similares. Um exemplo de solução que ganhou muita repercussão foi o monitoramento do número de casos da COVID19 pelo esgoto, que começou a ser testado na França e Holanda e agora está sendo utilizado em Belo Horizonte. Esta é apenas uma amostra de quantos dados temos circulando em uma cidade e como podemos transformá-los em informações que auxiliem na tomada de decisões.

CRISPR

A tecnologia de edição de DNA, conhecida como “tesoura genética”, já foi usada durante a atual pandemia para criar testes muito mais rápidos no diagnóstico da COVID19, mas ela pode ir muito além disso. O termo CRISPR (Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats) apareceu pela primeira vez em 2001, em um paper de Francisco Mojica e Ruud Jansen, mas a primeira observação foi feita em 1987 por Yoshizumi Ishino, da Universidade de Osaka. A pesquisadora Blake Wiedenheft define o CRISPR como “um cartão de vacina genética nas células”. Resumindo, é o “ctrl+c/ctrl+v” da genética.

O hackeamento biológico pode ter aplicações que vão desde a cura de doenças à armazenamento de dados. A CRISPR está sendo estudada como alternativa para fibrose cística, esclerose múltipla e diversas outras doenças genéticas como também para remover retrovírus e genes que causam rejeição de órgãos transplantados. 

Vale ressaltar as implicações éticas do uso dessa tecnologia, que levaram a pesquisadora Jennifer Doudna e um grupo de pesquisadores a pedirem uma pausa em testes de CRISPR com embriões, por questões de segurança dados os riscos sociais decorrentes do seu uso irresponsável. O próximo coronavírus que se cuide!

Nanotecnologia

tecnologias Foto Pete Linforth: Pixabay

Como dizia a raposa ao Pequeno Príncipe, no célebre livro de Antoine de Saint-Exupérye: “O essencial é invisível aos olhos”. Este universo que fica aproximadamente entre 1 e 100 nanômetros, ou 1 a 100 bilionésimos de metro, tem sido muito explorado pela indústria de cosméticos e figura como uma das maiores promessas em termos de tecnologia. Muitos economistas preveem que a nanotecnologia será o próximo ponto de virada econômico globalmente, despontando como uma das principais tendências de patentes na Europa.

A nanotecnologia pode ser aplicada em um amplo espectro de atividades que vai da geração de fontes de energia à armas militares, podendo desempenhar um grande papel nas próximas décadas. Uma das aplicações é justamente no campo da nanomedicina. A ciência médica fez grandes avanços na compreensão da estrutura e das funções dos organismos vivos até o nível genético. Especialistas esperam que, no futuro, com esta tecnologia, poderão ser realizadas cirurgias diretamente no interior das células, curando diferentes tipos de doenças complexas no corpo humano. Dá até para imaginar um exército de nanorobôs combatendo o coronavírus.

Drones

Durante essa pandemia pudemos ver drones sendo utilizados para medir temperatura corporal, orientar a população e até para a distribuição de suprimentos médicos. Eles também podem ser utilizados para a desinfecção de ambientes públicos, seja através da pulverização de hipoclorito de sódio ou do uso de radiação ultravioleta (UV).  Apesar de se mostraram uma tecnologia promissora, ainda é muito cara para o uso em larga escala e tem muito a ser aprimorada no quesito de autonomia de voo para poder alcançar comunidades isoladas como os povos indígenas, por exemplo.

Foodtechs

Por fim, cabe lembrar que apesar das polêmicas sobre o marco zero do coronavírus ter sido o mercado de vivos em Wuhan, na China, não resta dúvida que o consumo de animais como cobras, morcegos e pangolins, representa um grave problema de saúde pública, o que levou o governo chinês impor restrições ao consumo e à criação de animais silvestres em resposta ao surto do novo coronavírus no país. Neste sentido, a indústria de foodtechs pode ter muito a contribuir, seja com a impressão 3D de alimentos ou com a sintetização de proteína animal em laboratório.

Com todo este arsenal de tecnologia antipandemia, certamente estaremos melhor preparados para o próximo vírus altamente contagioso que vier a surgir. Mas se quisermos realmente evitar novas pandemias, precisamos aprender a confiar mais nos dados, na ciência e repensar nossos padrões alimentares e culturais. 

Ambientalistas alertam que o derretimento da camada de gelo no ártico conhecida como permafrost é o lugar perfeito para as bactérias e vírus se manterem incubados por um longo período de tempo, talvez até um milhão de anos. O derretimento das geleiras pode abrir a caixa de pandora de doenças totalmente desconhecidas pela espécie humana. Infelizmente ainda não temos nenhuma tecnologia capaz de produzir permafrost em escala.

E não basta termos todas tecnologias antipandemia, se não aprendermos a cuidar uns dos outros e cuidarmos do nosso planeta. A tecnologia é nossa aliada, mas nós somos os responsáveis pelo futuro da humanidade.

*Lucas Prado é cientista de dados, embaixador de Inovações Cívicas da Open Knowledge Brasil e cofundador da Meritocracity.


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