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Opinião: Por que desenvolver uma gestão psicológica da inovação?

Para alcançar um olhar sistêmico com relação à inovação, deve-se incluir uma gestão psicológica integrada às diversas práticas inovadoras

POR Redação Whow! | 13/10/2020 11h36

*Por Fernanda Furia

O conhecimento que temos sobre inovação é bastante amplo. Temas relacionados aos diferentes tipos, modelos de negócios, estratégias e ferramentas para inovar, cultura inovadora e gestão da inovação são alguns recursos que nos nutrem na hora de atuar. Mesmo assim, apesar de desejarmos a inovação, por que ainda temos tanta dificuldade para inovar?

Existe uma dimensão que permanece na sombra: os “mecanismos psicológicos” de quem inova e o impacto deles nos processos de inovação nas organizações. Para sermos capazes de utilizar toda a gama de ferramentas disponíveis e seguirmos as diferentes etapas de um processo de inovação é necessário termos, antes de tudo, um terreno psicológico fértil para inovar. Isto vai muito além da capacidade de ser criativo e de desenvolver as chamadas soft skills ou competências para o futuro.

A habilidade de inovar é resultado de uma engrenagem psicológica complexa. Seja para desenvolver um novo produto em uma empresa, para implementar uma metodologia inovadora em uma escola, para empreender ou para reinventar a própria carreira. Inovar exige um tipo de funcionamento psíquico específico que demanda muita energia emocional.  

Dor da Inovação

Ao longo da minha experiência profissional e pessoal me deparei com diferentes situações que evidenciaram a dificuldade que muitas pessoas têm para mudar, reaprender e inovar. Tanto no contexto escolar quanto organizacional detectei pensamentos e atitudes de educadores, famílias, alunos, empreendedores e gestores que demonstravam “sofrimento emocional” ao inovar. Muitas vezes esta dor se tornou visível por meio da recusa em abordar o tema da inovação, da preguiça para aprender novas ferramentas, do autoboicote, da dificuldade para implementar etapas de um processo de inovação e da falta de energia para mobilizar pessoas a transformar a cultura da organização.

Esses tipos de comportamentos revelam aspectos psicológicos escondidos que agem como forças contra a capacidade para inovar. Michael Schrage, no artigo Confronting the pain of Innovation (Harvard Business Review, 2012) abordou o tema da “dor da inovação” ao observar que as organizações que levavam a sério a inovação eram cheias de pessoas com um sofrimento genuíno ligado aos processos inovadores.

É verdade que estamos incluindo cada vez mais o componente humano, principalmente através das abordagens da Inovação Centrada em Humanos e da Antropologia da Inovação. Entretanto, este olhar ilumina somente o lado das pessoas que usufruirão os produtos e serviços resultantes destes processos.

Ao compreender os seus hábitos, necessidades e dores podemos criar as soluções certas para os problemas encontrados. Além disso, é certo também que muitas empresas investem em treinamento e gestão dos seus colaboradores a fim de garantir uma mentalidade para diversidade, de recompensar as ideias inovadoras e de desenvolver criatividade e novas habilidades. Ainda que todas estas perspectivas sejam fundamentais, elas representam apenas um lado da moeda. 

Psicologia para inovar

A Psicologia da Inovação propõe um olhar para o outro lado da moeda e analisa a dimensão psicológica das pessoas e equipes que produzem inovação. Cuidar de quem inova é um caminho potente para tornar todo o processo de inovação mais eficiente e emocionalmente saudável.

No livro “Psicologia da Inovação: o que está por trás da capacidade de inovar” (Ed. FIAP) apresento uma visão ampla e aprofundada sobre as raízes do comportamento inovador, a potência do brincar adulto para inovar, a Psicologia da Resistência à Inovação e os complexos mecanismos psicológicos que influenciam a capacidade de inovar em diferentes contextos.

Quando nos lançamos em uma jornada de inovação abraçamos intensas emoções, o desconhecido, o risco, a possibilidade de fracasso, os limites, o caos e a incerteza. Muitas vezes o ato de inovar gera um custo psicológico muito alto e se não considerarmos este aspecto partiremos sem apoio nesta jornada. O desamparo ao inovar ativa dificuldades emocionais vividas previamente na vida, reforçando mecanismos de defesa contra a inovação e acentuando funcionamentos nocivos ao nosso desenvolvimento pessoal. 

Como tornar a experiência de inovar mais leve? Precisamos de combustível emocional e de amparo psicológico para enfrentarmos os percalços da inovação.

“Para alcançar um olhar sistêmico com relação à inovação, devemos incluir uma gestão psicológica integrada às diversas práticas inovadoras dentro das organizações.”

Fernanda Furia, fundadora do Playground da Inovação

Gestão psicológica da inovação 

Gestão Psicológica da Inovação é um programa para cuidar das equipes e lideranças envolvidas no contexto de inovação dentro das organizações. Alinhada com alguns pilares da ISO da Inovação (56.002), a Gestão Psicológica da Inovação é uma iniciativa pioneira desenvolvida pelo Playground da Inovação e tem como objetivo compreender o cenário psicológico das pessoas que inovam. 

Ao considerar as especificidades de cada cultura organizacional, o trabalho de gestão psicológica da inovação utiliza situações reais da empresa para criar, em conjunto com os colaboradores, estratégias para ampliar a capacidade psicológica de inovar nas equipes e lideranças. Desta forma, a gestão psicológica da inovação atua como guardiã da saúde mental de quem inova e como antídoto contra a paralização organizacional para a inovação.

Algumas fases da Gestão Psicológica da Inovação envolvem: 

Descoberta: avaliar a maturidade psicológica para inovar. Acolher a gama de emoções ligadas à experiência de inovar. Adquirir clareza sobre os aspectos psicológicos que estão influenciando a capacidade para inovação. 

Mergulho: mapear os paradoxos e os mecanismos de defesa que emperram a inovação. Identificar possíveis Psicopatologias da Inovação. Aumentar a autonomia psicológica para inovar.

Ação: traçar estratégias para ampliar a agilidade psicológica para inovar. Proporcionar ferramentas para o desenvolvimento das habilidades para inovação. Adaptar ambientes físicos e digitais para acolher os mecanismos psicológicos inerentes à inovação.

*Fernanda Furia é fundadora do Playground da Inovação, autora e professora da FIAP neste tema.


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