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Opinião: Os próximos 10 anos dos programas de aceleração

Há pouco mais de 10 anos o volume de startups criadas no Brasil só cresce, em paralelo a isso, temos o crescimento quase exponencial de soluções digitais inovadoras

POR Redação Whow! | 28/04/2021 19h21

Por Luiz Gomes, Diretor da Overdrives – Aceleradora de Startups do Grupo Ser Educacional.

Há pouco mais de 10 anos o volume de startups criadas no Brasil só cresce, em paralelo ao crescimento quase exponencial de soluções digitais inovadoras com algum potencial de escala, surgiram estruturas de suporte com objetivo central de aumentar as chances de sucesso para startups em fase inicial, os programas de aceleração.

Eu tive a oportunidade de ver o surgimento das aceleradoras no Brasil e dos muitos movimentos para tornar esses programas mais fortes e relevantes. Nesses anos, percebemos que esses projetos entraram em uma jornada de autodescoberta, partindo das propostas fundamentais do modelo executado há mais tempo no Vale do Silício e desenvolvendo as adaptações necessárias para o contexto nacional.

Nesse processo de aprendizado, houve um movimento nacional envolvendo empresas e governo para acelerar o máximo de startups possível. O ápice da primeira grande onda de aceleradoras aconteceu entre 2013 e 2017, período que o Programa Federal, Startup Brasil, ajudou a espalhar as aceleradoras pelo país e deu uma força extra para aceleradoras menores terem startups no seu portfólio.

Nesse momento, também surgiu o Programa SEED (startups and entrepreneurship ecosystem development), criado pelo governo estadual mineiro para atrair talentos internacionais para desenvolver o ambiente de desenvolvimento de startups no estado.

Com o fim do Startup Brasil e as mudanças no governo mineiro que “congelaram” o SEED, as aceleradoras passaram por um período de turbulência, que em pouco tempo tirou de campo os programas que criaram dependência do benefício público para ter algum grau de atratividade no meio das startups.

Nesse novo cenário novos projetos surgiram, com mais propostas e modelos de execução, é a partir daqui que começamos a pensar no futuro dos programas de aceleração.

O fator 2020 nas estruturas de aceleração

De 2017 a 2020, aceleradoras surgiram e deixaram de existir, de programas investidos por grandes corporações a empresas que só prestam serviço de aceleração para terceiros, passando por modelos de apoio massivo sem investimento financeiro.

A onda pós Startup Brasil criou “frentes de aceleração” onde o essencial nos projetos da primeira onda se tornaram facultativos na segunda, a exemplo dos investimentos financeiros nas startups.

Fato é que boa parte dessas estruturas tinham na sua essência os processos presenciais que promovem as interações e aumentam potencialmente as chances de sucesso, contudo no início de 2020 tudo foi interrompido, criando um confronto sobre como manter os processos ativos no meio de tantos riscos sanitários e financeiros. Desde os modelos de execução até o cuidado com altos volumes de investimento de risco.

O que serão os próximos 10 anos para as aceleradoras?

O papel dos programas de aceleração seguem sendo os mesmos, fornecer uma jornada de amadurecimento profissional para que as empreendedoras possam fortalecer as bases da startup e se consolidarem nos mercados de atuação. Para isso, identificaremos cada vez mais um fortalecimento das 5 principais bases: 

  • Um método de acompanhamento pautado na evolução das empresas;
  • Mentorias cobrindo diversas áreas de negócio;
  • Rede de empreendedoras abertas à troca de experiência prática;
  • Facilitação nas conexões com o mercado ou próximos investidores;
  • Investimento financeiro para suportar ações mais intensas.

Continuaremos a ver propostas de aceleração sem investimento, sem conversão em sociedade e outras variações sobre esses pilares. De tudo que conheço dentro e fora do Brasil, com uma boa estratégia de retorno sobre o investimento, esses pilares entregam as melhores chances de sucesso para as aceleradoras.

Dessa forma podemos listar alguns movimentos que podem se tornar comuns entre as aceleradoras nacionais e internacionais.

  •  Corporações como investidoras

Cada vez mais o movimento de transformação digital tem despertado o interesse das corporações investirem nas startups, mostrando o crescimento das estruturas de CVC (corporate venture capital).

Nos últimos 3 anos o volume de investimento corporativo em startups só aumenta, especialmente naquelas que estão nas suas etapas iniciais (cerca de 85% do investimento total, segundo relatório da Distrito).

Mesmo com um número crescente ainda há muitas estratégias de investimento descoordenadas, o que diminui as chances de ter retorno sobre o que foi investido e aumenta a frustração nessa conexão.

  •  Aceleradoras cada vez mais especializadas

Esse movimento das corporações tem implicado um aumento de aceleradoras especializadas e lideradas por quem tem conhecimento e vivência no ecossistema de startups;

Assim os programas de aceleração estão se tornando a ferramenta base para criar um portfólio de startups investidas com maior clareza sobre as condições de investimento, o que esperar de crescimento e como ter um bom relacionamento com esses provedores de soluções digitais.

Dessa forma os programas de aceleração poderão gerar diversos tipos de saída, haverá a oportunidade de ser acelerado ou ser adquirido pelas corporações, de tê-las como clientes chave ou de tê-las para facilitar a conexão com futuros investimentos.

As corporações são, em geral, pequenos ecossistemas com atuações em diversas áreas de negócio (além do core business), o que aumenta a capacidade de, através delas, criar boas oportunidades de negócio para as aceleradas.

  • Maior responsabilidade sobre as bases dos negócios

“Sua startup precisa crescer tantas vezes em seis meses!”

Durante muito tempo esse discurso era comum nas aceleradoras, usado como justificativa o conceito por trás do nome. Mas até que ponto uma startup em fase inicial pode “enfiar o pé no acelerador” para crescer o mais rápido possível?

Startups são como prédios modernos em processo de contínuo crescimento, toda empreendedora, quando entra em processos de aceleração, espera construir “novos pavimentos” na maior velocidade possível, refletindo o sucesso do empreendimento. Contudo, o papel das aceleradoras é olhar para a fundação e estruturas de suporte, para então avaliar se há solidez para um crescimento real, mesmo que não tão acelerado assim.

Mais que velocidade, as aceleradoras entregarão maturidade empreendedora, exigindo das suas aceleradas um posicionamento profissional com a empresa, desde pensar modelos de negócio sustentáveis até a formalização das relações de modo que o negócio não se torne um “castelo de cartas”, bonito e extremamente frágil. 

  •  Adaptação perene para o remoto

Sim, os escritórios compartilhados são fundamentais para trocas constantes, mas a forma que entendemos e utilizamos esses ambientes não precisa ser a mesma. Em algum tempo o remoto deixará seu status de fortemente recomendado para o de estrategicamente interessante.

As mudanças bruscas exigidas em 2020 impulsionaram adaptações rápidas, com os escritórios fechados e o cuidado com os investimentos de risco, as aceleradoras testaram muitos caminhos de interação  remota com as startups. Algumas conseguiram transformar essas adaptação em novas metodologias, onde o remoto era a nova premissa de trabalho.

Uma das grandes dificuldades operacionais para as startups aceleradas era a logística da mudança para a cidade da aceleradora, muitas vezes se afastando dos seus early adopters.

Quando o remoto se torna realidade, os programas têm maior capilaridade de acesso às startups que se encaixam nas suas teses e as empreendedoras entendem que podem ser beneficiadas com o suporte desses programas sem a necessidade do deslocamento físico, o que dá mais segurança para o time entregar resultados relevantes.

O que aprendemos na Overdrives?

Assim como outros programas, nós da Overdrives paramos por alguns meses para repensar nossas estratégias, métodos, ferramentas, interações e cultura de trabalho junto às startups. Ainda mais tendo uma grande corporação como fundadora e investidora. Nesses meses aprendemos que:

  • A qualidade do programa não está diretamente relacionado com a presença física, mas com a forma que as startups se sentem suportadas por nossos processos de acompanhamento;
  • Nossa metodologia é orgânica e está em constante evolução, independente do que está consolidado na literatura, a vivência é o grande vetor para estabelecer o método ideal;
  • O remoto nos deu maior capilaridade de acesso e, mesmo tendo Recife como base física, conseguimos ter 65% das aceleradas de 2020 para cá de outras cidades (e países);
  • Fortalecemos nossa visão e suporte às diversidades, desde nosso time de mentoras(es) até o perfil das pessoas que lideram suas startups;
  • Aumento da nossa rede de parceiros co-investidores que, em meio às dúvidas sobre o investimento de risco, viram na Overdrives um player para dividir esse risco;
  • Foco em desenvolver as pessoas empreendedoras, trazendo provocações sobre as estruturas de negócio e colocando no mercado startups com real capacidade de crescimento.

O futuro das aceleradoras não está definido, mas os movimentos atuais apontam para novas ondas que além de suportar o desenvolvimento de startups vão impulsionar o surgimento de mais produtos digitais.