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Opinião: O que muda na gestão financeira em empresas tradicionais e startups?

Startups precisam dar autonomia às suas equipes, o que faz com que alguns gastos comumente escapem do orçamento — o que não é um problema

POR Redação Whow! | 20/10/2020 17h01 Opinião: O que muda na gestão financeira em empresas tradicionais e startups? Imagem: Pexels

*Por Walter Cavalcante

Startups e empresas tradicionais, sejam elas pequenas, médias ou grandes, têm dilemas muito diferentes em relação à gestão financeira. Enquanto as primeiras precisam tomar decisões considerando a incerteza e a pressão por crescimento, inerentes a esse estágio do negócio, as companhias tradicionais buscam previsibilidade e lucratividade.

Pela definição da ABStartups: “Startups são empresas em fase inicial que desenvolvem produtos ou serviços inovadores, com potencial de rápido de crescimento.” Ou seja, é um modelo de organização que reúne características específicas, duas delas com impacto muito grande nas finanças.

Gestão financeira nas startups

A primeira é a incerteza. É comum dizer que uma startup está “buscando o negócio”, isto é, está testando a hipótese — ou várias — de que um determinado produto ou serviço pode ser entregue de uma nova e mais eficiente maneira ao mercado, geralmente por meio do uso intensivo de tecnologia. 

A segunda característica é o crescimento acelerado. Paul Graham, fundador da lendária aceleradora Y Combinator, cravou que “uma startup é uma empresa projetada para crescer rapidamente”. A incerteza e a pressão por crescimento, portanto, levam a decisões financeiras muito diversas daquelas tomadas por negócios tradicionais.

Um dos aspectos que melhor exemplifica essa diferença é a relação da startup com a rentabilidade no curto prazo. Ela segue lógica oposta a que encontramos em negócios tradicionais, que dependem de gerar lucros e caixa para se manterem operando. Esse tipo de empresa começa suas atividades em um mercado já conhecido, com produtos e serviços testados. Já startups têm como foco inicial na busca pelo Product Market Fit, que é o oferecimento de um novo produto que satisfaça uma necessidade de mercado, quase sempre ao custo da lucratividade.

O valor de uma startup não está em sua capacidade de gerar lucros no curto prazo, mas sim em sua habilidade de crescer de forma acelerada e com baixos custos marginais. No caso do Facebook, por exemplo, o custo marginal é quase nulo, uma vez que o gasto incremental gerado por um novo usuário é baixíssimo, enquanto a receita potencial a partir da base de usuários é imensa. Dessa maneira, uma startup bem sucedida pode se dar ao luxo de passar longos períodos gerando prejuízos e queimando caixa, enquanto volta todos os seus esforços para o crescimento e, a partir dele, para a rentabilidade.

Fontes de financiamento

Na gestão financeira das companhias tradicionais, o custeio é feito a partir de diferentes métodos, como por atividades (ABC) ou absorção, pois o produto já é conhecido. Para uma empresa que ainda busca a melhor maneira de oferecer um novo produto ao mercado esse tipo de gestão financeira “apertada” é contraproducente. Em uma startup, diversas hipóteses serão testadas para aprimorar o produto, reduzir o custo marginal e garantir seu crescimento. Aqui, a regra não é a eficiência, mas uma gestão financeira feita com base na disponibilidade de capital. 

A gestão de caixa e as fontes de financiamento disponíveis para startups também são muito diferentes daquelas usadas por empresas tradicionais. Startups dificilmente têm endividamento elevado por conta da falta de previsibilidade de caixa, o que torna muito arriscado crescer usando dívidas e empréstimos, como fazem muitos negócios tradicionais. Além disso, elas normalmente são financiadas pelos sócios fundadores ou por investidores de capital de risco (Anjos, VCs ou outros), isto é, se financiam por meio da venda de participação societária.

Por fim, mas não menos importante, em empresas tradicionais é comum dizer que custos são como unhas e devem ser cortados todos os dias. Nesses negócios não existe espaço para ‘gastos criativos’, ou aqueles focados em testar hipóteses. Considerando isso, é comum que empresas determinem processos longos e burocráticos para as suas áreas de compras, com várias alçadas de aprovação, limitações de orçamento e muitas cotações.

Startups não têm tempo para isso e precisam dar autonomia às suas equipes, o que faz com que alguns gastos comumente escapem do orçamento — o que não é um problema, desde que eles aproximem a empresa do Product Market Fit ou acelerem seu crescimento.

Estas empresas precisam de uma gestão financeira afiada, focada em prover insights contínuos sobre o negócio, garantir recursos para que as hipóteses sejam testadas e financiar o crescimento. O foco deve estar em evitar ao máximo a burocracia, ter processos financeiros escaláveis e automatizados, e um time capaz de fazer o negócio crescer e evoluir rapidamente junto com a empresa.

*Walter Cavalcante é CEO e fundador da Sinapse Finance, startup de gestão financeira compartilhada para PMEs.


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