Opinião: "Já acabou mamãe?" O retrato da maternidade em tempos de pandemia - WHOW

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Opinião: “Já acabou mamãe?” O retrato da maternidade em tempos de pandemia

São mais de 12 milhões de mães solo no país, que não têm apoio financeiro e/ou emocional na criação dos filhos

POR Redação Whow! | 06/05/2021 18h03

Por Dani Junco*, fundadora e CEO da B2Mamy

Se vocês esperavam um texto fofo sobre o Dia das Mães, sinto que não temos muito que comemorar. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 8.5 milhões de mulheres ficaram fora do mercado de trabalho no terceiro trimestre de 2020, em comparação com o mesmo período de 2019, a grande maioria mães. E o maior motivo apontado foi a economia invisível do cuidado das crianças sem creche e escola.

Roupa de ginástica, coque, colo e link é o que nos resta. Hoje na última reunião do dia, me vi uma hora pensando: “Meu Deus, como que eu não surtei?” Minutos depois, pensando de novo, sim eu surtei várias vezes. Umas mais silenciosas no “Tó o celular e me esquece, menino” outras mais intensas, um surto daqueles de bater a porta na cara do mundo. 

Eu vejo o Lucas, meu único filho, ainda não alfabetizado e especialista em Minecraft e em colocar mais R$10,00 no pote da terapia. Todo dia vou dormir pensando na logística insana de quem cuida ao contrário de quem pode focar e ver sua carreira decolar, simplesmente porque a divisão foi sempre assim.  A luta aqui é pelo crescimento sustentável enquanto se cria o próximo cidadão do mundo. Sou extremamente privilegiada, mas quero que tentem sentir o desafio de metade dos brasileiros que têm renda menor que um salário mínimo.

Pequenos desequilíbrios acompanhados de choros curtos têm sempre a frase pesarosa que agora inunda os calls intermináveis: “Desculpe, eu não tive com quem deixar”. Vejam só, temos que pedir desculpas pelas empresas terem entrado em nossa casa.

Nesse contexto, é importante trazer alguns números importantes: 

Segundo o IBGE, quase metade dos lares brasileiros são sustentados por mulheres, um salto de 45% a partir de 2018. Mais de 5 milhões de brasileiros não têm o nome do pai na certidão de nascimento, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), e são mais de 12 milhões de mães solo no país, que não têm apoio financeiro e/ou emocional na criação dos filhos.

Em várias cidades brasileiras, quase 70% das crianças de zero a três anos não têm acesso à creche. O que as classes sociais mais abastadas estão sofrendo na pandemia com as escolas particulares fechadas, quem depende de creche já vive há anos.  A ONU Mulheres calcula que em 2021 haverá 435 milhões de pessoas do sexo feminino pobres, 11% a mais se não tivesse acontecido a pandemia.  

No que diz respeito a empresas, apenas 2,2% do investimento em Venture Capital é para empreendedoras mulheres, de acordo com o “Female Founders Report 2021”, estudo conduzido pela B2Mamy, Distrito e Endeavor.

Os destaques acima só reforçam o quanto o quanto eu posso ser mais potente, esperta, criativa! Uma profissional muito melhor do que antes, afinal a tendência é sempre evoluirmos! Somos um exército, as mães são metade da população do mundo e também são mães da outra metade, mesmo assim, somos tiradas do jogo o tempo todo, o famoso Maternity Penalty.

E o que temos a ver com isso? Quem mandou fazer filho?

Primeiramente, uma pesquisa da Nielsen revela que o faturamento de R$50 bilhões  no segmento infantil, deixaria de ser injetado na economia. E vale destacar que aqui não estão somados o turismo, entretenimento e outras áreas correlatas que atendem a 20% da população.

Outro dado tão relevante quanto o citado acima é de um levantamento da Fiocruz no qual uma a cada quatro mulheres sofre de depressão pós parto, e isso caracteriza um problema de saúde pública. Problema esse catalisado por empresas e líderes que desrespeitam as mulheres ou simplesmente as tiram do jogo, penalizadas por fazerem a única coisa que faz o mundo girar.

Por fim, e não menos importante, trago a reflexão para aqueles que acham que não tem nada a ver com isso: mesmo não sendo mãe, todos somos filhos e dentro desta questão eu nem preciso continuar e explicar o que isso significa.

Tá, e como podemos mudar isso?

1) Se pergunte o que você pode fazer para que essa dinâmica dê certo dentro do seu micro mundo. Se esforce, pois só, boa vontade não basta. O que muda é a boa vontade ativa, que significa investir tempo e dinheiro. O que pode, por exemplo, mudar nas políticas para pais e mães na sua empresa?

2) Participe e colabore com movimentos que estão mudando a forma de pensar de quem ainda realmente acredita que olhar só para si é certeza de abundância.

3) Se você tem mais força e poder, abra espaços, monte palcos, dê voz. Contrate, indique, inclua.

Quando eu escuto meu filho clamar: “Já acabou mamãe? Meu coração sabe que a única resposta possível é: “Não filho, ainda nem comecei”!

* Dani Junco é mãe do Lucas, fundadora e CEO da B2Mamy,  primeira empresa que capacita e conecta mães ao ecossistema de inovação e tecnologia para que elas sejam líderes e livres economicamente. Especialista em Marketing com foco em Branding, ela transformou sua dificuldade – voltar ao mercado de trabalho após ter se tornado mãe – em solução para outras mulheres com filhos que desejam empreender. Através de capacitação, Dani Junco acredita que as mulheres possam equilibrar seus papéis nas suas carreiras e na administração da família, se tornando líderes em seus trabalhos e livres economicamente. Em três anos a B2Mamy já capacitou e conectou mais de 10 mil mulheres por meio dos meetups, EAD e programas de capacitação. A aceleradora conquistou o apoio institucional do Google e Facebook, e ainda, movimentou a economia: foram R$ 6 milhões entre o faturamento das empresas aceleradas e da aceleradora.