Opinião: “Empreender é celebrar e ressignificar derrotas” - WHOW

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Opinião: “Empreender é celebrar e ressignificar derrotas”

É fazer algo pelas razões certas. É liderar através do exemplo e da gentileza. É celebrar a diversidade, admirar quem te ajuda

POR Redação Whow! | 20/05/2021 09h46

Caetano Altafin, CEO da GoApp.pet 

Empreender é se apaixonar. Incondicionalmente. Todos os dias. E lá se vão 20 anos que mais parecem sete vidas.

Tenho uma trajetória pouco usual, que oscilou de estudos em Harvard e trabalho corporativo em Nova Iorque, a empreendimentos em 4 continentes e 44 dias cruzando o Atlântico norte a remo. A cada etapa concluída, chegadas, partidas e a necessidade de uma reinvenção que se faz necessária de tempos em tempos, num contexto de impermanência, muito estudo e velocidade.

Aos 11 anos, entrei numa escolinha de futebol em Botafogo, bairro da zona sul carioca. Logo, nasceria a oportunidade de ganhar uns trocados como gandula. Aos 13, já atuava como árbitro e assistente em jogos de outras categorias. Aos 14, ajudava o querido treinador Dionísio Tremura na organização de campeonatos amadores (inclusive como líder da “Dragões do Guri”, torcida organizada do nosso clube local). Fogos, bandeiras e baterias e lá estavam minhas primeiras lições sobre gestão de suprimentos. 

Aos 15 anos, saí da casa dos meus pais para tentar a sorte nas categorias de base do Cruzeiro Esporte Clube. Com a mesma lesão no joelho que o Ronaldo Fenômeno e 2% do seu talento, aos 16 voltaria ao Rio para uma cirurgia complicada no joelho. Tudo o que pude fazer por dois anos de recuperação eram “firulas” e “embaixadinhas”. Mal sabia que essas “firulas” e “embaixadinhas” me preparariam para o desafio por vir.

Aos 17, fui com minha namorada à época assistir o filme “Náufrago”, com Tom Hanks (aquele da bola ‘Wilson’). Fiquei encantado. Minha cabeça voou longe com ideias e reflexões. Logo tive a ideia de fazer uma viagem caminhando pelo sul da Bahia. Minha então namorada ficou indignada com meu plano e nosso relacionamento foi para o espaço. Quando fiz 18 anos, me presenteei com algumas centenas de quilômetros e semanas de caminhada solitário por praias no sul da Bahia.

Ainda da Bahia, liguei para meu melhor amigo, irmão da vida, que havia conhecido através do futebol, Rafael Cordeiro Azevedo, que me falou que eu tinha que retornar ao Rio para conhecer um empreendedor europeu que buscava alguém que falasse bem inglês e fosse craque justamente nas tais “firulas” e “embaixadinhas” que treinei incessantemente após minha aposentadoria precoce do futebol. Não pestanejei. Abri mão do emprego de ajudante de pescador que tinha acabado de conseguir em Caraíva e lá fui eu de volta para o Rio.

Entre conversas sobre IRA, U2, Guinness e, claro, “firulas” e “embaixadinhas” em pleno calçadão de Copacabana, convenci o Ronnie Carroll (um empreendedor astuto com olhos e espírito de águia) a me levar para a Irlanda. Aos 18, então, voaria de avião pela primeira vez, como o mais jovem de 25 treinadores brasileiros que participaram do Samba Soccer Summer Camp (lembro do meu pai orgulhoso e emocionado com a notícia). Mergulhei tanto naquele universo que em um mês me sentia irlandês. Esse seria um dos significados do futebol que até então não havia dado certo em minha vida. Investimentos (e nosso esforço) têm seu tempo de retorno. E assim consegui viajar pela Europa, tocando pandeiro, fazendo “firulas” e “embaixadinhas” e ganhando um trocado para passear.

Aos 19, já era o principal gestor do Samba Soccer. Aprendi com o Ronnie que ser dono, ser líder, é dar exemplo, faça chuva ou faça sol (no caso da Irlanda, faça chuva ou faça chuva). Descarregávamos caixas, distribuíamos folhetos e colocávamos a trilha sonora do Austin Powells para, entre “firulas” e “embaixadinhas”, atrair mais crianças para os acampamentos. Viajei 4 meses por todas as cidades da Irlanda promovendo o Samba Soccer (dois dos quais acompanhado do saudosíssimo Coutinho, campeão da Copa de 1962). Lembro de um convite que o Ronnie fez para eu realizar trabalhos extras em Dublin nos finais de semana. Logo, eu seria o único funcionário de escritório aos sábados e domingos em função de uma produtividade insana à base de Coca Colas e Mars Bars. Com muita dedicação, fizemos o maior acampamento de verão do mundo com 32 mil crianças. Naqueles tempos e ainda aos 19 anos, geria um staff de 1500 pessoas e tinha dois celulares que nunca paravam de tocar. Acabei sendo recebido pela Presidente da Irlanda, Ms. Mary McLesse, em função de um projeto que fiz para adaptar o esporte para crianças com necessidades especiais. Naquele 11 de junho de 2002, decidi retornar ao meu país para estudar e fazer um projeto similar ao que havia realizado na Irlanda para nossas crianças. Finalmente consegui agradecer pela minha lesão no joelho aos 16.

Novos Desafios e Amadurecimento

Após três meses de muito estudo e dedicação, consegui passar em 7º lugar na UFRJ. Lembro como chorei quando consegui uma bolsa de estudos no curso preparatório do PH. Eram tempos difíceis pra minha família. Minha mãe (com duas graduações e sendo uma redatora técnica brilhante) dividia seu tempo revisando textos na central de estágios da PUC-Rio e vendendo sanduiches numa barraquinha na Praça do Metrô de Botafogo. O Brasil é muito duro com nossa gente.

No mesmo ano e com meu inseparável amigo e irmão Rafael Cordeiro Azevedo e de seus pais que também se tornariam os meus, criamos o Projeto Futefeliz e a ONG Crescendo Feliz.

Após um ano realizando projetos sociais e superando burocracias (afinal, nada como empreender no Brasil, não é mesmo?), decidi trocar a faculdade de administração pelo curso de Direito. Precisava aprender a navegar melhor num mar de leis e regulamentos que tanto oneram empreendedores. Mantive meu trabalho na Irlanda (e posteriormente na África do Sul) nos verões de ambos os hemisférios, o que me ajudou financeiramente a contribuir com minha família e a realizar inúmeros sonhos. 

Aos 23, meu amigo e irmão ficaria doente (diagnosticado com câncer ósseo – Osteossarcoma). Em seu último aniversário, ele pediu livros para doação  – sonhávamos criar uma biblioteca comunitária no município de Mesquita. Ele faleceu aos 24 anos e, após sua partida, transformaríamos a ONG Crescendo Feliz no Instituto Um Pé de Biblioteca, que, nos anos seguintes, criaria dezenas de bibliotecas comunitárias em todo Brasil. A primeira do projeto, inclusive, com o nome do Rafa. Assim como havia sido com o futebol, através das “firulas”, “embaixadinhas” e do trabalho voltado para crianças com necessidades especiais na Irlanda, empreender significaria renascer; ressignificar uma perda e dar propósito e continuidade à nossa existência. Até hoje, o Rafael permanece comigo. Todos os dias.

Milhares de horas de estudo e trabalho em madrugadas intermináveis trariam bolsas de estudo e a chance de estudar fora na Universidade da California, em Yale e na sonhada Harvard. Acabei me tornando personagem de um documentário lindo, Romance de Formação, que conta a história de dedicação por trás de programas acadêmicos competitivos. Também acabei ajudando na criação de uma biblioteca comunitária através da organização de um concerto de música clássica em pleno inverno em Cambridge. Mesmo focado em estudos de governança e mercado, era parte do programa de direitos para crianças de Harvard. Como meu amigo e irmão Rafael havia ensinado, tudo na vida é oportunidade de irmos além e fazermos algo significativo sobre o que realmente importa.

As notas altas do Mestrado me ajudaram a conseguir um emprego incrível entre Nova Iorque e São Paulo, preparando outros empreendedores e negócios para ir a mercado. Sabia que esse trabalho me traria aprendizado e me tornaria uma pessoa e um empreendedor melhor. Por anos, fazia essencialmente duas coisas: trabalhava nunca menos que 60 horas semanais no escritório e remava todo tempo que me sobrava. Na raia olímpica da USP, conheci os mestres Acácio e João Paulo Nascimento, do Remo Bandeirante. Conheci também o Amyr Klink. E cada um deles seria essencial no desafio que estava por vir. 

Em 2014, deixei meu trabalho corporativo para criar a MinD, um negócio de varejo e design, e estruturar nossa cadeia logística e tecnologia na Ásia. Também queria estudar na London Business School para me tornar um empreendedor melhor. E, não menos importante, num time de oito pessoas, queria remar o Atlântico norte para ajudar numa pesquisa desenvolvida pelos pesquisadores do Instituto Nacional de Traumato Ortopedia, o INTO, da cura do Osteossarcoma, justamente a doença que havia levado o Rafa.

Propósito

Aos 10 anos, havia lido o livro “Cem dias entre o céu e o mar” do Amyr. E sempre sonhei remar um oceano. Entre tantas coisas, o Amyr ensina que o maior (e mais comum) fracasso era não partir. Amyr também comentava como era complexo fazer uma expedição perigosa e com recursos extremamente escassos com outras pessoas. No meu caso, a prática revelaria que uma travessia oceânica a remo com desconhecidos seria um verdadeiro Big Brother à milésima potência e sem chance de eliminação às 3as.

Assim, comprei uma passagem somente de ida para a Europa e, das Ilhas Canárias, remei mais de 5300 quilômetros de volta às Américas (Barbados). Toda experiência com suprimentos e logística que havia tido em outros carnavais viria a ser útil, embora em nada contribuísse para lidar com os dias de tempestade, as madrugadas de chuva, frio e ondas colossais e os mais de 20 quilos perdidos durante a travessia.

Dos aprendizados no mar, os mais importantes para a jornada empreendedora são ter resiliência e perseverar, ser motivado pelo propósito certo para não desanimar no meio do caminho e valorizar a trajetória e as pessoas que te acompanham. Somos agraciados por sermos parte de um planeta espetacular. A vida é menos sobre “o que” se faz e muito mais  sobre “com quem” se realiza. Estarmos aqui já é um presente. 

Já em 2018, vendi a MinD para o Grupo Uni.co, recentemente adquirido pelas Americanas e, com o dinheiro da venda, resolvi me juntar à Marcela Grèzes, uma empreendedora fantástica apaixonada por animais, e criar meu negócio atual, uma pet shop online, a GoApp.pet. Cresci rodeado por animais adotados em apartamentos pequenos. E a Marcela já resgatou gato em situação de risco até na África do Sul. Nossa missão desdobraria da nossa paixão em comum: facilitar a vida de outros tutores de animais e dar qualidade de vida para todos animais.

Criamos uma arquitetura tecnológica que, através das informações e necessidades dos usuários sobre seus animais de estimação, geramos uma jornada digital inédita para nossos clientes. Na prática, atuamos como (i) um canal digital de vendas para pet shops, fornecedores e distribuidores e (ii) um canal de big data no setor pet para a indústria. Fomos selecionados entre +1000 startups para sermos acelerados na Áustria em 2019.

Hoje somos a maior rede de pet shops do Brasil e a única pet shop online com entrega grátis no mesmo dia (e atendimento espetacular) em +120 cidades sem termos sequer um saco de ração em estoque. Todos os dias aprendo com cada membro do nosso time. E todos aprendemos a ajudar melhor nossos clientes. O mar ensina que a harmonia entre os remadores e o ambiente é muito mais importante do que ordens e hierarquias. 

Empreender é celebrar e ressignificar derrotas. É fazer algo pelas razões certas. É liderar através do exemplo e da gentileza. É celebrar a diversidade, admirar quem te ajuda e aprender com quem te acompanha na realização da sua visão. É contribuir – sempre.

Acredito que em nosso país qualquer transformação social perene depende de refletirmos a beleza do empreendedorismo num ambiente muito mais amigável à inovação e ao suporte ao empreendedor.

Para que, entre “firulas” e “embaixadinhas”, muitas outras histórias incríveis sejam vividas.

Que assim seja.

*Caetano Altafin é CEO e co-fundador da GoApp.pet, startup no setor de pet tech. Possui mais de 15 anos de experiência como empreendedor e gestor em organizações e projetos em quatro continentes em diversos setores (venture capital, varejo, consultoria e prestação de serviços), bem como em organizações sem fins lucrativos.