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Opinião: Acessibilidade na prática, uma questão de consciência

Matrix é um filme de 1999 que me marcou muito, não somente pelos incríveis efeitos especiais, mas principalmente pela reflexão que a história me propiciou. Naquela época, os lançamentos demoravam para chegar ao país – ou pelo menos, a minha ansiedade dava essa percepção.    Se não me falha a memória, assisti ao filme logo […]

POR Redação Whow! | 27/04/2021 17h56

Matrix é um filme de 1999 que me marcou muito, não somente pelos incríveis efeitos especiais, mas principalmente pela reflexão que a história me propiciou. Naquela época, os lançamentos demoravam para chegar ao país – ou pelo menos, a minha ansiedade dava essa percepção. 

Se não me falha a memória, assisti ao filme logo que chegou aos cinemas nacionais em 2000, quando tinha 16 anos. Na ocasião, meu cunhado, um amigo e eu descobrimos que o único local que tinha uma sessão no dia e horário em que podíamos era em Alphaville, bastante fora de mão para a gente.

E lá fomos nós! Apesar de não me lembrar muito bem dos detalhes do dia em si, o filme ainda é muito presente para mim. 

Na história, Neo está procurando o que é a Matrix. Com o desenrolar da trama, em um determinado momento ele encontra Morpheus, um homem bastante misterioso que lhe dá duas opções: tomar a pílula azul ou a vermelha

A primeira faria com que ele esquecesse o que aconteceu e permanecesse na ignorância. Já a segunda o libertaria da ignorância e o conduziria ao mundo real.

Penso com frequência nessa escolha, em vários momentos de bifurcações da vida. Um belo dia, mais ou menos um ano depois da estréia do filme, sofri um acidente de carro que me deixou paraplégico e, de repente, realizar atividades rotineiras passou a requerer um verdadeiro planejamento estratégico

Visitar um amigo, comprar um pãozinho na padaria ou fazer qualquer atividade que antes eu realizava normalmente, tudo isso ficou bem mais complicado.

A situação me causou muita estranheza no primeiro momento, afinal eu nunca tinha me imaginado em uma cadeira de rodas. Mais adiante fui tomado por uma profunda sensação de impotência. É terrível não conseguir fazer o que se deseja. 

Naquela época e nos anos seguintes, eu estava em franca reabilitação e, ao passo em que retomava a minha autonomia, eu comecei a entender a minha nova condição.

Fiz faculdade, pós graduação, trabalhei em diversas empresas, nacionais e multinacionais, empreendi e tive incontáveis experiências. Passei por perrengues dignos de filmes de Hollywood. Conheci muita gente, com muitas histórias diferentes. E assim pude perceber que a falta de acessibilidade incomodava não só a mim, como a muitas outras pessoas também.

Ao entender que o assunto afligia uma quantidade muito grande de pessoas, aquela sensação de impotência se transformou em uma vontade alucinante de fazer alguma coisa para mudar esse cenário. Comecei a ver que se o mundo fosse mais acessível, muita gente seria mais feliz. Eureka? De certa forma esse entendimento mudou minha vida.

Foi então que em 2016 lancei com um grupo de amigos o Guiaderodas, uma empresa de tecnologia que tem como objetivo proporcionar uma vida mais autônoma e inclusiva para todos. Como fazemos isso? Sensibilizando as pessoas, aprimorando as práticas de acessibilidade dentro das empresas, dando exemplo de que ser acessível é bom para todos, inclusive para os negócios.

A maior sensibilização se dá pelo aplicativo, uma plataforma colaborativa em que qualquer voluntário, com ou sem deficiência, pode compartilhar suas percepções a respeito da acessibilidade física dos locais visitados em apenas 30 segundos. 

Resultado: pessoas com deficiência têm mais confiança ao sair de casa, voluntários digitais podem fazer o bem gastando pouco tempo, estabelecimentos acessíveis ganham mais competitividade em relação aos outros.

Nas empresas e edificações, trabalhamos para aprimorar e enaltecer as melhores práticas de acessibilidade e inclusão. Transformar o discurso em ação faz as empresas conquistarem a Certificação Guiaderodas, símbolo do comprometimento para o aprimoramento contínuo. 

É muito gratificante ver que o nosso trabalho já atingiu centenas de empresas e milhares de pessoas espalhadas por diferentes países. Nos empenhamos para daqui há alguns anos, as crianças do futuro ao ouvirem histórias da época em que o mundo não era acessível para todos considerem isso um absurdo.  

Hoje, há quase 20 anos daquele acidente de carro, consigo perceber com nitidez que a sociedade de maneira geral está mais sensível a esse e a outros temas que afligem a humanidade. O caminho ainda é longo, mas os avanços são incontestáveis.

Antes eu achava que havia tomado a pílula vermelha do Matrix por falta de alternativa, porque o que me restava era encarar o mundo real e sair da ignorância. Hoje entendo que de alguma forma, talvez por intuição, eu a escolhi. 

Essa escolha, por mais desafiadora e dura que seja, me faz aprender muito, me dá a chance de poder contribuir de alguma forma e me dá o imenso prazer de conhecer muita gente boa que tem feito a diferença por aí, para que o mundo seja um lugar melhor para se viver. Seguimos trabalhando e aprendendo.

Ao perceber que o assunto afligia uma grande quantidade de pessoas, aquela sensação de impotência se transformou em uma vontade alucinante de fazer algo para mudar esse cenário.

*Bruno Mahfuz, Fundador do Guiaderodas