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O que ser CEO nômade me ensinou sobre cultura empresarial

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Por Simone Cyrineu, CEO e fundadora da empresa de vídeos corporativos thanks for sharing

A pandemia, a partir do prisma das coisas boas que vieram com ela, colocou muita gente para refletir suas escolhas e seus hábitos. Eu fui uma delas. 

Nós aqui na thanks for sharing, que por questões outras e até um pouco de sorte mesmo, iniciamos o ano de 2020 já no modelo de operação 100% remoto, deixando assim de ter escritório físico. Alguns móveis do escritório acabaram por ocupar um cômodo no meu apartamento, o que automaticamente transformou ali em um novo escritório. 

E eis que a pandemia tomou forma, e todos aqueles metros e paredes na rua Lisboa, em São Paulo, passaram a ser a única testemunha ininterrupta do meu viver. Até que pouco tempo depois, eu que sou atraída e inspirada pelo movimento, estava a questionar meu estilo de vida e as principais razões que me deixavam ali, morando há mais de 16 anos na terra da garoa. 

Olhando ao passado, para as lembranças, foi fácil encontrar essas respostas, mas a questão principal era se estar ali, continuaria sendo minha escolha, minha decisão. Era sobre como seria daqui pra frente e não como foi até aqui. E assim caiu minha ficha de que era chegada a hora de ser possível explorar e descobrir novos modos de viver. 

Essa ficha caiu com minha pessoa deitada na rede da sala. Falando assim até soa certa plenitude, mas o que estava por trás desse balanço era um sentimento nunca antes vivido, de que as coisas estavam difíceis ao extremo, de que a luz da saída de emergência não havia acendido e absolutamente ninguém sabia para onde ir.

E eu, assim como a esmagadora maioria dos pequenos e médios negócios, ali no meu balanço da rede, tomei consciência de que falir era uma realidade muito próxima para a minha empresa, quase que iminente. Já vínhamos de uma recente crise financeira, agora agravada pelo contexto pandêmico global. 

Se não havia mais escritório físico, se pouco tempo mais, nem mesmo empresa iria existir, afinal logo pensei: por que raios eu sigo morando aqui? Como vai ser minha vida? Como vou fazer com os boletos todos? O que eu quero fazer daqui pra frente? Pronto. Chip nomadismo instalado com sucesso. Eu precisava ver e sentir o que havia fora da bolha.

E lá fui eu, me aventurar em um mundo isolado, de ruas vazias e corações apreensivos. Acontece que não sou virginiana por muito pouco, e organização, rotina e processos são fatores que fazem parte da minha forma de viver o mundo.

Ao longo desse processo, diante de todas as mudanças que eu lidava diariamente, meu principal questionamento era: qual a rotina que eu consigo levar apenas comigo? Que eu não dependa de nenhum espaço físico, demande pouco recurso móvel, que caiba na bagagem e que ainda assim eu consiga manter o meu estilo de vida? Ou seja, manter minha própria rotina com as coisas que de fato me interessam e me fazem bem. Manter corpo e mente sãos. 

Não é uma resposta tão simples assim, e é aqui que a reflexão sobre cultura começa. Com o cenário apocalíptico ao redor, eu tinha um grande desafio: como levar a minha empresa comigo? E como estar presente para os que aqui trabalham? E, mais do que isso, eu tinha um único foco principal: como recuperar, reorganizar e fazer meu negócio sobreviver à pandemia? 

A resposta estava na minha rotina, que, no fim, não dependia exatamente de nenhum local físico em que eu pudesse estar. Dependia única e exclusivamente do meu tempo de qualidade voltado para que a empresa – leia aqui, pessoas dedicadas ao negócio – pudesse se recuperar e crescer. 

Tendo que lidar e aprender com minhas descobertas nômades, tive, na mesma proporção, que reinventar minha gestão. Como integrar ao time pessoas que eu nunca vi antes? Como criar uma convivência social sem parecer um vídeo dancinha do tik tok? Como acolher?

Recentemente, mesmo após tudo o que vivemos em 2020, ainda me espanta a história de uma amiga que foi contratada em uma multinacional do mercado criativo e eu, que estava hospedada em sua casa, vi o péssimo e inexistente onboarding por que ela passou. Para resumir a história: RH jogava para líderes, que devolvia para o RH, que chamava TI. No fim, a pessoa que seria seu par de trabalho a chamou via Instagram para se falarem.

Não houve absolutamente nenhuma agenda bloqueada para recebê-la, apresentar, falar, conhecer. Alguns dias depois, lá estava ela com seu job urgente a ser realizado. Agora a pergunta é: onde quero chegar com isso tudo?

Que a cultura de uma empresa é feita de pessoas e se consolida na rotina do dia a dia. Uma rotina só é estabelecida a partir de coisas que importam para ti, que estão alinhadas com o que você acredita e quer reverberar no mundo. Isso em que você acredita podemos dar o nome de valores, que são intrínsecos à nossa existência, dificilmente mudam ao longo da vida em sua essência. E onde estão esses valores? Nas pessoas. E que pessoas ditam a rotina de uma empresa? A liderança. 

Meu ponto aqui é que, em um futuro muito breve, as empresas mais valiosas não serão necessariamente as que possuem a melhor tecnologia, ou solução disruptiva em seu mercado ou ainda a que recebeu mais investimento, mas sim as empresas que terão sua cultura tão forte como uma identidade própria. E a força e potência que isso tem ainda é incalculável para o contexto que nos espera logo ali na frente no que diz respeito às relações de trabalho.

Não é à toa que em sua constituição uma empresa recebe a expressão de “pessoa jurídica”. No fim do dia, tudo é sobre isso: pessoas. 

Se estamos falando de pessoas e cultura feita de rotina baseada em valores dessas pessoas, qual o papel de fato do meu escritório físico? O que um escritório hi-tech, colorido ou cheio de jogos vai agregar, refletir ou influenciar na minha cultura?

Entenda, não quero aqui tirar o valor de uma troca presencial: nada nunca vai substituir uma presença física, um olho no olho. Mas a cultura do seu negócio não pode estar baseada em tijolos e mesas, não pode ser pautada nas coisas, mas sim nas pessoas. É sobre ser a cultura. 

E quando você simplesmente é, quando founders, liderança e times simplesmente são os valores em que acreditam juntos, vivenciam isso juntos, não é necessariamente o espaço físico que vai reforçar ou ensinar isso. A cultura está no “como” você, sua empresa e seus times fazem as coisas, no que acreditam juntos e que no fim é refletido no “o que” vocês fazem. Não é forçando um estilo de trabalho presencial ou remoto, apenas por tradição ou tendência, que os agentes de construção da cultura estarão alinhados com o que sua empresa ou seu time precisam.

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