O papel das PMEs na transformação da indústria da moda - WHOW

Eficiência

O papel das PMEs na transformação da indústria da moda

Falta de transparência na indústria da moda prejudica pequenos negócios, que compõem 70% das cadeias de suprimentos das grandes empresas do setor

POR Marcelo Almeida | 01/12/2021 21h55

No Brasil, as micro e pequenas empresas formam a grande a maior parte da cadeia de fornecimento das grandes empresas da moda, representando mais de 70% dos negócios do segmento no país. Neste cenário, a transparência dos processos produtivos e das práticas do setor têm sido cada vez mais questionadas. Algumas organizações de grande porte ainda tentam usar a fiscalização deficiente como vantagem competitiva e acabam prejudicando os pequenos empreendedores em suas cadeias de suprimentos.

Por outro lado, aquelas que decidem ir por outro caminho e são mais transparentes acabam atraindo os consumidores mais conscientes. Um dos principais desafios da indústria, no entanto, é aumentar o número de consumidores conscientes, já que a maioria das pessoas não faz questão de pesquisar quais marcas têm as piores práticas em relação a direitos humanos, direitos trabalhistas e sustentabilidade.

Estes são alguns dos achados  da 4ª edição do Índice de Transparência da Moda no Brasil, lançada nesta terça-feira (30). O estudo, feito pela ONG Fashion Revolution, analisa as práticas das 50 principais redes varejistas do mercado brasileiro.

De acordo com a analista de Competitividade do Sebrae Verônica Couto, os pequenos negócios que atuam na cadeia produtiva do setor são os que mais sofrem com a falta de transparência do setor. “Há mais processos sendo realizados dentro de pequenas empresas do que em qualquer outro elo da cadeia e, mesmo assim, é onde fica a menor fatia do lucro da indústria da moda; onde os trabalhadores têm menos segurança e garantia de recebimento; onde os salários são menores e as condições de trabalho são por vezes menos do que ideal; e onde há menos supervisão de processos que poderiam contribuir para o menor impacto da indústria no meio ambiente”, avalia.

Segundo ela, o Sebrae tem atuado para que os donos de pequenos negócios do setor da moda participem de forma mais qualificada e sustentável dentro da cadeia e atuem dentro da legalidade, favorecendo a formalização e, com isso, proporcionando condições de trabalho e renda mais justas. Ela acredita que as micro e pequenas empresas podem contribuir para uma atuação mais propositiva por parte das médias e grandes empresas.

“Temos iniciativas de pequenos negócios que nascem sustentáveis, com uma preocupação genuína e real dos impactos sociais e ambientais que causam no mundo, colocando seu modelo de negócio à prova do consumidor mais informado e engajado. São empresas que entendem que o negócio sustentável economicamente para um novo mundo que se desenha é também um negócio sustentável que gera impactos positivos no ser humano e no meio ambiente”, comenta a especialista.

No fim das contas, acaba sendo uma espécie de cabo de guerra entre consumidores conscientes e empresas que atuam de forma ética e com transparência, de um lado, contra consumidores que não dão a mínima para a forma como suas roupa são feitas e empresas gananciosas que não se importam se seus fornecedores não têm um bom compasso moral e usam práticas como o trabalho infantil.

O impacto da indústria de moda globalmente

A ONG por trás do estudo, a Fashion Revolution, é direta a respeito do impacto socioambiental da indústria da moda:

“A indústria da moda é também uma das maiores responsáveis por abusos nos direitos humanos ao redor do mundo, afetando os trabalhadores e suas comunidades ao longo das cadeias de valor globais. As dinâmicas de poder desequilibradas entre compradores, seus fornecedores e, por consequência, seus trabalhadores são, muitas vezes, uma ameaça às condições decentes de trabalho, assim como à subsistência e à saúde das pessoas que produzem nossas roupas.

As cadeias de fornecimento da moda são altamente globalizadas, complexas, opacas e carecem de regulamentações. Relações comerciais obscuras e subcontratações são comuns, encobrindo a responsabilização e a prestação de contas em casos de não conformidade, o que pode acontecer com frequência. Essa falta de transparência implica que não podemos identificar facilmente os abusos referentes aos direitos humanos e à degradação ambiental para, assim, adotar ações rápidas e apropriadas em relação a eles. Sem transparência, não é possível proteger as pessoas vulneráveis e o planeta. Portanto, a transparência sustenta a mudança sistêmica.”

Seu objetivo declarado é realizar uma “reforma sistêmica da indústria da moda global”. Por meio da transparência, eles acreditam que as empresas irão assumir cada vez maior responsabilidade pelos danos que provocam, sejam sociais ou ambientais. “O Índice de Transparência da Moda é uma ferramenta que nos auxilia a alcançar essa visão.”

Índice de Transparência da Moda

O Índice de Transparência da Moda Brasil revisa a divulgação pública das marcas com base em indicadores em cinco áreas:

1. Políticas e compromissos
2. Governança
3. Rastreabilidade
4. Conhecer, comunicar e resolver
5. Tópicos em destaque, que neste ano são:  Trabalho decente, cobrindo combate ao trabalho escravo contemporâneo, respostas à Covid-19, salários justos para viver, sindicalização e negociação coletiva e práticas de compra. Igualdade de gênero e racial. Fornecimento e materiais sustentáveis. Hiperconsumo, resíduos e circularidade. Água e químicos. Clima e biodiversidade

Em 2020, o relatório contou com 39 empresas, com uma pontuação média de 21%. Neste ano de 2021, o número de empresas subiu para 50, mas a pontuação média caiu para 18%.

Algumas marcas se destacam diante de uma pontuação média tão baixa:

  • C&A  –  70%
  • Malwee  –  66%
  • Renner  –  57%
  • Youcom  –   57%
  • Adidas  –  53%

Sendo o ponto mais sensível a relação entre as grandes marcas e os fornecedores, é desanimador que menos da metade das marcas (40%) divulga dados sobre seus fornecedores de nível 1 (instalações de corte, costura, acabamento, montagem, produto acabado, embalagem).

Já no extremo oposto estão as marcas que não pontuaram nada, nem um ponto dentre os 100 possíveis:

  • Besni – 0%
  • Brooksfiel – 0%
  • Caedu – 0%
  • Carmen Steffens – 0%
  • Cia. Marítima – 0%
  • Colcci – 0%
  • Di Santinni – 0%
  • Fórum – 0%
  • Kyly – 0%
  • Leader – 0%
  • Lojas Avenida – 0%
  • Lojas Pompéia – 0%
  • Marisol – 0%
  • Moleca – 0%
  • Nike – 0%
  • Sawary – 0%
  • TNG – 0%

Informações que não saem do armário

Segundo o estudo, grandes marcas e varejistas divulgam publicamente mais informações sobre suas políticas e compromissos sobre direitos humanos e questões ambientais (30%), e significativamente menos quando se trata de processos, resultados e impactos de suas ações.

Entre os exemplos dessa baixa divulgação estão os procedimentos de devida diligência e avaliações de fornecedores (15%), informações sobre governança corporativa (20%) e publicação de listas detalhadas de fornecedores (21%).

Em relação aos tópicos relacionados a combate ao trabalho escravo contemporâneo, respostas à Covid-19, pagamento de salário justo para viver, práticas de compra, sindicalização, igualdade de gênero e racial, materiais sustentáveis, hiperconsumo, resíduos, circularidade, água, químicos, desmatamento, regeneração, emissões de carbono e uso de energia, a média fica ainda mais baixa (12%).

Pouquíssimas marcas divulgam dados sobre como os trabalhadores de suas cadeias de fornecimento foram afetados pela pandemia.

Apenas duas (4%) empresas relataram pagamentos de salários atrasados e contratos suspensos, mas nenhuma publicou dados sobre demissões.

Discurso X Prática

Os dados do relatório costumam apontar uma certa dissociação cognitiva proposital discurso e prática.

Por exemplo, 10% das marcas divulgam que têm o compromisso de garantir um salário capaz de cobrir os custos de vida básicos dos trabalhadores de sua cadeia de fornecimento.

Nenhuma, porém, publica o número de trabalhadores que realmente recebe um salário desse tipo.

Quase um ano e meio depois da #BlackoutTuesday nas redes sociais, vemos que pouca coisa mudou. Nossa pesquisa indica que 24% das marcas analisadas publicam suas ações com foco na promoção de igualdade racial entre seus funcionários, um leve crescimento comparado a 2020 (18%).

Desigualdade racial

Apenas três marcas (6%) divulgam informações sobre programas de desenvolvimento de carreira voltados para a redução de desigualdade entre raças e promoção de oportunidades de crescimento para funcionários negros.

Neste ano, 12% das empresas publicam a divisão por cor ou raça de seus funcionários, um aumento de dois pontos percentuais em relação a 2020. Assim como no ano passado, nenhuma marca publica as diferenças salariais de seu quadro de funcionários sob a perspectiva racial.

Nenhuma marca, tampouco, divulga as diferenças salariais e distribuição por cargo, sob a perspectiva racial, nas instalações dos seus fornecedores.