O papel das fintechs na saúde do sistema financeiro do Brasil - WHOW
Eficiência

O papel das fintechs na saúde do sistema financeiro do Brasil

Elas chegaram e trouxeram uma nova dinâmica ao mercado. Surgem, na maioria das vezes, para resolver uma dor do consumidor

POR Eric Visintainer | 12/11/2020 15h13

O surgimento das fintechs trouxe uma nova dinâmica para o mercado das finanças. A partir dessa afirmação, Jacques Meir, diretor-executivo de Conhecimento do Grupo Padrão, estimulou os participantes do painel do Whow! Festival de Inovação que abordou o papel dessas startups a falarem sobre suas visões desse setor.

Papel das fintechs

Nathan Yoles, vice-presidente da WEEL, startup com fundador brasileiro, mas que atua de Israel, vê o papel das fintechs em dois níveis:  “O primeiro é “front end”. “Dado o cenário do sistema financeiro brasileiro, o papel destas startups é observar as melhorias e formas inovadoras de ofertar cada um dos serviços financeiros, de modo que empresas e pessoas tenham acesso a serviços mais rápidos, mais baratos e com uma experiência mais adequada ao que a população espera – ao contrário do que sempre foi feito, que é uma experiência empurrada, não desejada.” 

O segundo nível, na perspectiva de Nathan, envolve como fazer isso acontecer, e aí o papel destas empresas é ir de encontro a todos os recursos oferecidos no ecossistema, como funding nacional, internacional, novas tecnologias, Pix e tantas outras inovações, e utilizar todas essas ferramentas para agregar valor ao usuário final, seja uma pessoa ou empresa. 

“Enxergo que o acesso ao crédito é um nicho que ainda tem muita transformação digital para passar”, afirma.

Wellington Alves dos Santos, CEO da Trigg, diz que o sistema financeiro brasileiro é robusto e admirado fora do país, mas existem espaços que os grandes bancos deixam. “O papel das fintechs é trazer maior inovação e acesso a crédito a todos os brasileiros”, destaca. “A velocidade das fintechs para analisar dados e compreender nichos específicos para oferta de crédito é um papel fundamental, porque, do meu ponto de vista, o Brasil tem carência de crédito.” 

As startups no setor financeiro estão crescendo bastante, segundo de Wellington, porque têm a capacidade de entender melhor o comportamento do cliente e, dessa forma, conseguem atendê-lo melhor. “Muitas das mais de 700 fintechs existentes hoje no país nasceram a partir de um incômodo trazido pelo sistema bancário”, diz.

Alexandre Álvares, head de Consumer Accounts da Neon, explica que a startup nasceu assim, a partir de uma dor do mercado. “Nascemos com o propósito de dar aos usuários o controle da vida financeira deles. Boa parte das iniciativas visam isso, dar mais autonomia, liberdade e eficiência ao consumidor. Foco no usuário o tempo todo. Foco no cliente de maneira genuína”, diz.

Rafael Valente, head de Novos Negócios de produtos digitais na Getnet, corrobora a afirmação de Alexandre: “As fintechs vieram para dar poder de escolha ao consumidor.” 

E na visão de Bruno Diniz, cofundador da Spiralem, o ambiente financeiro brasileiro evoluiu. “Temos uma história a ser contada. Em 2010, houve quebra do monopólio do mercado de adquirente no Brasil. Getnet foi precursora nisso. O ambiente regulatório brasileiro foi se sofisticando e houve aberturas, como crédito digital e crowdfunding. E agora estamos em um movimento importante, com Pix e open banking, que vai ampliar as possibilidades e empoderar o cliente em relação aos seus dados financeiros e a possibilidade de compartilhá-los. Isso vai impulsionar crédito mais barato, e injetar mais competição no mercado”, afirma. 

Segundo o cofundador da Spiralem, é um movimento de progressão: “Ao olhar o contexto latino-americano, estamos bem posicionados.”

Como se cria uma fintech

Outra provocação de Jacques aos participantes foi em relação a como se tira uma ideia do papel. “Entendemos que as fintechs são criadas a partir da necessidade do cliente. Mas uma coisa é identificar essa necessidade. Como partir para a execução?”, questiona. 

Bruno diz que um dos pontos é mesmo em relação às dores do mercado. “Sentir na pele. Esse foi o deflagrador para muitas fintechs”, diz. Ele fala também sobre o background dos empreendedores envolvidos, que leva a identificar oportunidades, assim como a identificação do cenário, de tudo o que está acontecendo em termos de ambiente regulatório. “Quando a gente fala de inovação, muita coisa evoluiu, inclusive em questão de funding, tem fundos de venture capital locais, temos ambiente interessante para quem tem expertise acumulada e vontade de arregaçar as mangas, porque não é um caminho fácil.”

O CEO da Trigg enfatiza que realmente não é fácil criar uma fintech. “Tem que ter bons profissionais, e o mercado brasileiro está cheio de profissionais com criatividade e muito bons”, afirma. “Selecionar um time com essa energia, que queira fazer a diferença e deixar um legado.” Para ele, quando a empresa começa a captar os feedbacks positivos dos clientes, isso dá uma motivação enorme. “Estando próximo do cliente, pegando feedback e melhorando o produto sempre, tem linha plena de sucesso”, aponta. 

Os atuais desafios do setor

E o head de Novos Negócios de produtos digitais na Getnet ressalta a inclusão tecnológica como ponto de dificuldade. “O grande desafio está na questão tecnológica, a inclusão bancária é consequência da inclusão tecnológica”, afirma.

Segundo ele, o movimento da Caixa, que criou recentemente o aplicativo Caixa Tem, fez esse movimento andar, ainda que de maneira mais forçada. Para usar o auxílio emergencial do governo na pandemia, as pessoas tiveram que baixar o aplicativo do banco estatal e, portanto, ter um smartphone. “O ponto central é a inclusão tecnológica, que vai trazer mais inovação e mais segurança, tirando a cédula, a circulação de dinheiro”, diz. 

O head de Consumer Accounts da Neon complementa incluindo nessa equação a questão da confiança. “Quando a gente fala de contas digitais, tem dois passos: criar a confiança de deixar o dinheiro, que para o consumidor pode ser escasso, em uma instituição e ainda deixá-lo em uma instituição que não tem um prédio físico”, explica. “O auxílio emergencial acelerou esse ganho de confiança. A população percebeu o ganho que ela pode ter.” 


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