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Mediação do Banco Central na batalha entre bancos e fintechs

Para Ricardo Anhesini, sócio-líder de Serviços Financeiros da KPMG no Brasil, a regulação da inovação no sistema financeiro brasileiro é das mais evoluídas do mundo

POR Raphael Coraccini | 15/08/2019 07h42 Mediação do Banco Central na batalha entre bancos e fintechs

O Brasil já tem por volta de 500 startups focadas em soluções financeiras. Mais do que crescimento quantitativo, o segmento de startups financeiras no Brasil tem como atratividade os novos modelos de negócios que estão chamando a atenção de grandes corporações, entre elas seus maiores concorrentes: os bancos, que investem em parcerias com essas fintechs para resolver questões que demorariam mais tempo para resolver dentro de casa.

Para Ricardo Anhesini, sócio-líder de Serviços Financeiros da KPMG, “o Brasil vive o melhor momento para o desenvolvimento de fintechs de toda a sua história”. Entre os motivos que levam o País a vislumbrar uma participação de destaque no cenário mundial no segmento de inovação para o sistema financeiro estão a regulação adequada do Banco Central, consumidores interessados em novas soluções e tecnologia suficiente para competir com outros players globais.

Desta forma, o estudo “Fintech 100”, da KPMG, coloca três brasileiras entre as fintechs mais inovadoras do mundo: Nubank, Guiabolso e Geru.

“Destaque para a emergência de neobanks e o crescimento acelerado de serviços bancários digitais globais”, aponta Anhesini.

“Ainda que o mercado seja altamente competitivo, a busca por usabilidade e a diminuição de atritos na cadeia, tão importantes para a experiência do consumidor, estarão cada vez mais aliadas às novas tecnologias, como inteligência artificial, big data e blockchain”, avalia o especialista.

Confira a entrevista com Ricardo Anhesini:

WHOW! – COMO VOCÊ VÊ A REGULAÇÃO DO ECOSSISTEMA DE INOVAÇÃO NO SISTEMA FINANCEIRO BRASILEIRO?
RICARDO ANHESINI – Pesquisa global apontou que a regulação brasileira do sistema financeiro é a quarta mais inovadora, que mais propicia inovação. A pesquisa é do Banco de Compensações Internacionais (BIS), baseado num levantamento da IOSCO (Organização Internacional de Valores Mobiliários, em tradução livre). Foram analisadas startups do sistema financeiro e insurance techs.Esse resultado não vem por acaso. O Banco Central tomou a dianteira no processo de inovação do sistema financeiro pelas iniciativas que têm produzido de três a quatro anos para cá e vem construindo um processo de regulação bastante propício à inovação.

Antes, falava-se muito em modelos de inovação no segmento financeiro de países como Singapura e Austrália, que criaram estruturas governamentais para inovar dentro de um sistema regulatório. Era uma espécie de caixa de areia, na qual se permitia uma atuação autônoma, com espaço para cometer erros sem gerar risco sistêmico. As iniciativas que obtinham êxito eram expandidas para o sistema.

W! – HOJE, QUAIS PROBLEMAS O BRASIL ENCONTRA PARA INOVAR?
RA – Os problemas que limitam o ecossistema brasileiro não têm a ver com a regulação. No Brasil, se você falha como empreendedor, está fadado a não ser bem-sucedido em nada porque vai estar com o nome sujo, impossibilitado de fazer outros empreendimentos. Na Califórnia, Inglaterra e Austrália funciona o modelo fail as strategy (falha como estratégia), que permite ao empreendedor tentar novamente.

W! – O SISTEMA BANCÁRIO NACIONAL É DOS MAIS DESENVOLVIDOS DO MUNDO. AS FINTECHS SEGUEM ESSE MESMO CAMINHO?
RA – Acho que sim. As fintechs já estão inseridas nesse contexto, de um sistema financeiro desenvolvido. É preciso lembrar que a inovação tem três motivações principais: segurança; custo e inclusão. As fintechs atuam promovendo inclusão, segurança e melhorando os custos, aumentando a base de clientes e barateando processos. A inovação não acontece porque a gente é obrigado, mas porque está associada a benefícios. E as fintechs têm feito isso. 

“As fintechs atuam promovendo inclusão, segurança e melhorando os custos, aumentando a base de clientes e barateando processos”

W! – COMO O BANCO CENTRAL PODE MELHORAR O AMBIENTE DE NEGÓCIOS PARA QUE AS FINTECHS CONSIGAM AMADURECER?
RA – A missão do Banco Central é promover a inclusão financeira, a competição e a igualdade. E o papel da fintech é muito interessante no Brasil, em especial, porque aqui há uma visão de que há pouca competição; a concentração é grande. A implementação das fintechs abre a possibilidade para novas soluções para o sistema.

W! – EM QUAIS SEGMENTOS AS FINTECHS BRASILEIRAS TÊM-SE DESTACADO?
RA – Ainda não existe um padrão de segmentação definido. As fintechs estão em evolução e são seres vivos criando formas diferentes de fazer negócio. Os modelos mais desenvolvidos estão relacionados ao crédito ao consumidor e às plataformas de investimentos, as quais, inclusive, têm todas as características para ser a regulamentação do open banking, e vão seguir evoluindo. Além desses serviços, que são alternativos aos oferecidos pelos bancos nacionais, elas têm-se destacado também em cash management – recebimentos e pagamentos; segurança – com biometria e reconhecimento facial; além de serviços de backoffice e conciliação.

W! – COMO A NOVA MODALIDADE, DE SOCIEDADE DE CRÉDITO DIRETO, PODE AJUDAR A DESCENTRALIZAR O SISTEMA BANCÁRIO?
RA – A Sociedade de Crédito Direto não nasce dentro do sistema financeiro, mas ela, sim, deu origem aos bancos. Ela é a primeira forma de banking que a humanidade conheceu, que é a transação de crédito direto, responsável por criar os bancos. É uma volta às bases que estamos experimentando com as novas tecnologias. Uma aposta que vale a pena, mas ainda em formação.

No resto do mundo, ela funcionou como uma aposta. Minha opinião é que a Sociedade de Crédito Direto tem uma característica importante: ela não traz risco sistêmico porque não capta poupança para distribuir a tomadores. As fintechs que atuam nessa modalidade têm funding próprio. O conceito é bastante interessante, motiva o pier-to-pier, só que ainda não está suficientemente testado, ainda não está submetido ao ambiente de estresse para provar que é economicamente viável. Ela vai ser um grande exercício para construir um novo tipo de serviço de crédito que será feito no futuro por meio de open banking.


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