Marketplace permite varejista negociar direto com a indústria - WHOW
Eficiência

Marketplace permite varejista negociar direto com a indústria

Modelo de negócio da startup Souk aposta no leilão holandês para diminuir custo do varejo de alimentos

POR João Ortega | 22/09/2021 18h25 Marketplace permite varejista negociar direto com a indústria

A relação entre a indústria de alimentos e o varejo comporta uma série de ineficiências. Ambas as partes precisam dedicar tempo e recursos humanos para negociar o fornecimento. Caso um dos lados não esteja satisfeito com os preços oferecidos, trocar de parceiro requer ainda mais trabalho, já que a negociação volta ao estágio inicial. Isso sem falar no desperdício de dinheiro com produtos próximos ou fora da data de validade, que representa uma perda de R$ 1,4 bilhão ao ano no Brasil, segundo dados da Superintel, empresa de inteligência para o varejo. 

A Souk é uma startup que nasceu com o propósito de diminuir as ineficiências desta relação. Por meio de um marketplace digital, a empresa possibilita que fabricantes de alimentos ofereçam seus produtos a milhares de varejistas em todo o país. Estes, por sua vez, podem negociar os preços destes produtos pelo formato de leilão holandês, em que é estabelecido um valor máximo (por tabela da indústria) e o preço vai caindo até que se encontre um interessado. 

Roberto Angelino, fundador e CEO da Souk, falou com exclusividade para a Whow! sobre o modelo de negócio. “Em resumo, o varejo compra melhor e a indústria vende melhor. Como? Pulverizando. Abre a oferta para 21 mil varejistas simultaneamente, o que no processo físico seria muito difícil pois não tem a mesma escala. A Souk funciona como uma alavancagem do go-to-market”, explica o empreendedor. “A plataforma consegue tirar uma série de ineficiências do caminho e, na medida em que torna a cadeia mais produtiva, parte do benefício vai para indústria e parte vai para o varejo”. 

Quando surgiu em 2018, a Souk buscou atacar um problema específico da relação entre varejo e indústria de alimentos: os produtos próximos à data de validade. Segundo Angelino, as grandes redes varejistas não costumam comprar estes produtos devido à própria logística e estoque, já que pode levar semanas entre o alimento ser adquirido e de fato chegar a gôndola para o consumidor final. Nesse cenário, as indústrias ou tinham de jogar fora o produto, ou vendiam para atacadistas com valores muito abaixo do esperado. 

Por meio do marketplace, essa situação é revertida por conta da pulverização. A indústria oferece um produto próximo da data de validade a milhares de varejistas, entre eles padarias, restaurantes e pequenos comércios, que trabalham com estoque reduzido e alto giro dos alimentos. Para estes estabelecimentos, pagar menos por este produto traz ganhos relevantes no fim do mês. 

“Começou com os produtos de validade curta”, conta o fundador da startup. “Mas a dinâmica do marketplace funcionou tão bem que, hoje, a maioria dos transacionados são regulares. A solução transcendeu a questão da validade crítica para se tornar um canal de distribuição. O principal valor está em capturar todo o dinheiro que era desperdiçado pela ineficiência da operação física”. 

O sucesso do empreendimento, na visão de Roberto Angelino, está bastante atrelado à conveniência que a solução leva principalmente ao pequeno varejo. “O fato de operar 24 horas por dia, 7 dias por semana, também é um diferencial do digital. Hoje, 27% das negociações na plataforma são feitas fora do horário comercial. É uma venda que não aconteceria no formato físico, tradicional”, diz o empreendedor. Ele revela, por exemplo, que há diversos casos de pedidos que são feitos na madrugada. “Imagine uma pizzaria. Muitas vezes, o dono confere o estoque na hora de fechar a loja, e já faz o pedido nesse momento que é conveniente para ele. Você sabe como é o pequeno varejo: em geral, é a mesma pessoa que cuida do caixa, vê o estoque, negocia com os fornecedores e faz as compras”, completa Angelino. 

Em três anos de operação, a Souk atingiu 21 mil varejistas, intermediou a venda de 51 mil toneladas de alimentos em 384 mil pedidos, e movimentou R$ 514 milhões na plataforma. 

Varejo omnichannel

A Souk é uma startup que está inserida no crescente número de soluções digitais para melhorar a eficiência das cadeias de suprimentos. Não significa que o modelo de leilão holandês em um marketplace vai se tornar o padrão do mercado, mas sim que varejo, indústria e o consumidor final terão cada vez mais formatos possíveis. Assim, cada um escolhe o que for mais conveniente e eficiente para si. 

É o que Roberto Angelino define como varejo omnichannel: quanto mais pontos de contato entre varejo e indústria e varejo e consumidor, seja no físico ou no digital, melhor. “Vejo a Souk compondo este ambiente omnichannel. Não acredito em bala de prata, em uma única solução que substitui todo um ecossistema. Nesse ambiente complexo, soluções que vierem para melhorar a produtividade sempre serão bem-vindas”, explica o empreendedor. 

Nesse sentido, estão surgindo no mercado opções que conectam a indústria e os pequenos produtores direto ao consumidor. Vêm aparecendo, também, serviços para fazer supermercado por aplicativo, e os produtos são entregues direto na casa do cliente. Também vale destacar soluções que tornam pessoas comuns em distribuidores de produtos da indústria, como se fosse a “uberização” do varejo. Todas essas novidades estão formando um mercado que é conveniente às diferentes expectativas de consumo e de entrega. 

“É nisso que eu acredito: quanto mais pontos de contato entre o varejo e o consumidor, melhor para quem está comprando e para quem está vendendo”, destaca Angelino. “É uma evolução contínua, e não uma revolução”, finaliza o empreendedor.