Longe dos centros financeiros, In Loco atrai grandes fundos de investimento - WHOW
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Longe dos centros financeiros, In Loco atrai grandes fundos de investimento

Em entrevista ao Whow!, André Ferraz, CEO da In Loco, conta como a startup chamou a atenção de investidores, mesmo longe dos centros financeiros

POR Raphael Coraccini | 16/08/2019 08h52 Longe dos centros financeiros, In Loco atrai grandes fundos de investimento Imagem: Shutterstock In Loco investimentos

A proximidade de André Ferraz, CEO e cofundador da In Loco, com segurança da informação e geolocalização surgiu quando ele tinha apenas 10 anos, ao participar de um projeto sobre cyber segurança. Ali, o empreendedor pernambucano descobriu como hackear e ficou preocupado com a facilidade de ter em suas mãos informações de todos os tipos de pessoas próximas ou que ele nunca tinha visto.

Seu pai, professor de computação, também o colocou diante do mundo da tecnologia e do empreendedorismo. Aos 18 anos, Ferraz criou a In Loco com outros sócios. “Meu pai me apresentou um artigo científico do cientista Mark Weiser, do laboratório de inovação da Xerox. Nesse artigo, ele descrevia o futuro da computação como um cenário em que a nossa vida seria totalmente conectada à internet, que haveria computadores em todos os lugares, com um nível de automação tão grande que seria difícil perceber que boa parte da nossa vida estaria sendo decidida por um computador”, revela.

Ferraz abandonou o curso de Ciência da Computação para empreender e tentar ajudar a resolver uma das questões mais fundamentais do futuro da tecnologia, a segurança da informação. “Fiquei obcecado pela questão da automação porque, se por um lado, essa automação iria trazer um benefício gigantesco para a nossa vida, do outro, havia uma fragilidade muito grande relacionada à facilidade de vazar ou manipular informação. E se o problema da segurança e privacidade não for resolvido, a gente vai chegar a essa era da super automação correndo o risco de ser controlado por qualquer pessoa e de perder a nossa liberdade de maneira completa”, alerta Ferraz.

Com 10 anos, André Ferraz descobriu que hackear poderia ser mais fácil do que se imaginava Com 18, criou, com outros sócios, a In Loco, especializada em segurança da informação e geolocalização

Até emplacar seu primeiro produto no mercado, a startup de Recife operou três anos sem ver um real (ou dólar) dos investidores. Segundo Ferraz, o drama da startup se resumia a explicar para investidores como deveriam apostar em um negócio sem antecedentes, baseado em uma tecnologia em desenvolvimento e em uma posição geográfica ainda pouco representativa no mercado nacional de tecnologia, o estado de Pernambuco.

Em 2013 a In Loco captou pouco menos de US$ 1 milhão com a Naspers, que voltou a investir na empresa quatro anos depois, com uma aplicação de quase US$ 5 milhões. A história mudou drasticamente em 2014, quando a empresa lançou um produto para varejistas que permitia direcionar publicidade para consumidores que haviam comprado do concorrente. A partir daí, a startup deixou de operar no vermelho e tem dobrado seu faturamento ano a ano.

Neste ano, a startup chamou a atenção do Unbox, um dos maiores fundos de investimento brasileiro, e do Valor Capital, hospedado na bolsa de Nova York, conseguindo US$ 20 milhões para financiar, entre outras coisas, a internacionalização da sua ideia.

Leia na íntegra a entrevista com André Ferraz, CEO da In Loco, para saber como ele venceu a desconfiança do mercado sobre o futuro de uma empresa fundada longe dos centros financeiros por um jovem de 18 anos que queria domesticar o caos da internet e o uso descontrolado dos dados dos consumidores:

W! – Quais dificuldades a In Loco enfrentou ou ainda enfrenta para atrair investidores?

ANDRÉ FERRAZ – O primeiro ponto está relacionado aos produtos que estamos criando, que são novidades, sem nenhum benchmarking. Outra questão é que os resultados são esperados para o longo prazo é algo que tem como objetivo resolver problemas de mercados dos quais a gente ainda não tem muita informação, como o de Internet das Coisas. A nossa tese é que a gente vá resolver os problemas de privacidade e segurança na IoT ao mudar a relação da interação entre consumidor e dispositivo conectado. O que eu quero dizer com mudar a relação? Hoje, em todo sistema que a gente usa, tem que declarar a identidade real, dar uma informação que prove quem somos, só que quando vamos para IoT, toda essa comunicação está sendo feita por máquinas. Elas não precisam saber quem a gente é, não precisa do nosso nome, e-mail ou CPF, o que elas precisam é saber o nosso comportamento e preferências para nos responder de maneira personalizada. No longo prazo, a gente pretende que essa base de dados comportamentais, seja a mais sigilosa possível.

W! – E como essa proposta de mudar a relação dos consumidores com os gadgets impactou os investidores?

AF – Era muito difícil explicar para investidores a tese de atacar a prática comum na internet de fornecer dados pessoais, agravado pelo fato de que estávamos falando sobre um tão pouco conhecido. Os investidores ouviram por muito tempo a história de que a internet naturalmente acabaria com a privacidade das pessoas e tudo bem, seria uma coisa aceita.

Os acontecimentos que atingiram as grandes empresas de tecnologia no ano passado ajudaram muito a mudar essa percepção das pessoas. Alo ficou provado pela primeira vez que era possível verificar o vazamento de dados dessas grandes empresas. A discussão sobre a privacidade ganhou repercussão gigantesca com grandes players trazendo a pauta para a mesa, como a Apple, que faz um trabalho muito forte de comunicação em relação à importância da privacidade dos dados.

As pessoas estão comprando esse discurso que a gente possui há mais de 5 anos e que era visto como loucura. Hoje, os investidores aceitam conversar sobre segurança da informação e já veem como possível a salvação da privacidade na internet.

US$ 1 milhão 

Naspers

US$ 5 milhões

Naspers

US$ 20 milhões

Unbox / Valor Capital

W! – Como os investidores têm encarado as exigências relacionadas à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD)?

AF – Os investidores olham para a nossa empresa e vê a quantidade de dados com que a gente trabalha. Eles sabem que precisam mesmo ficar preocupados e estão cada vez mais preocupados. Na última rodada de investimentos, a gente passou por dois processos de diligência relacionados à LGPD, com três escritórios diferentes realizando a auditoria. Foi a etapa mais onerosa do processo de investimento.

W! – A In Loco tem feito algum trabalho para adaptação à Lei?

AF – Essa preparação é algo que sempre fez parte da nossa essência. A gente começou com a intenção de resolver a questão da segurança e privacidade da Internet das Coisas e para poder fazer isso a gente teve que tomar decisões estratégicas que já eram relacionadas à proteção de dados.

Por exemplo, uma das decisões lá atrás era que a plataforma nunca iria ingerir nenhum dado de identificação civil dos usuários. A gente nunca vai receber um CPF, um e-mail ou nome do usuário. Com essa decisão, ficou muito mais fácil se adaptar a uma nova lei, a gente já não tem um monte de informação que nos colocaria em uma situação mais delicada. E como a gente está começando um processo de expansão internacional, a gente está se adaptando à GDPR (versão europeia da lei de proteção de dados). Não temos que fazer nenhuma mudança brusca. É só uma adequação, e não uma revolução.

W! – Como a In Loco conseguiu atrair a atenção do investidor brasileiro?

AF – Temos atuado com foco em duas macrotendências. Uma delas relacionada ao varejo físico e usa a geolocalização para entender a jornada do consumidor, da mesma forma que os cooks conseguem identificar a navegação do consumidor na internet. Apesar de o varejo físico não crescer tanto em transações quanto o e-commerce, ainda representa uma fatia muito grande do mercado. A partir dessa inteligência, influenciamos o tráfego dentro da loja.

A segunda macrotendência é no segmento financeiro, onde a tecnologia de geolocalização tem sido usada para reduzir a fricção no processo de abertura de contas e pagamentos. A gente vê várias empresas do segmento financeiro atacando o wallet mobile, nos próximos anos vamos passar por uma transformação semelhante ao que a China passou lá atrás, deixando de usar dinheiro de papel e cartão para usar o digital. Outro ganho com a geolocalização é a substituição de documentos como comprovante de residência na abertura de contas em um banco digital. A tecnologia de geolocalização faz esse reconhecimento de maneira muito mais simples. Outra facilidade está relacionada à confirmação de pagamentos na loja física, que proporciona uma redução de fraudes por meio da confirmação adicional e também permite ao varejista mandar um cupom de desconto dentro do ponto de venda.

Essa preparação é algo que sempre fez parte da nossa essência. A gente começou com a intenção de resolver a questão da segurança e privacidade da Internet das Coisas e para poder fazer isso a gente teve que tomar decisões estratégicas que já eram relacionadas à proteção de dados.

Por exemplo, uma das decisões lá atrás era que a plataforma nunca iria ingerir nenhum dado de identificação civil dos usuários. A gente nunca vai receber um CPF, um e-mail ou nome do usuário. Com essa decisão, ficou muito mais fácil se adaptar a uma nova lei, a gente já não tem um monte de informação que nos colocaria em uma situação mais delicada. E como a gente está começando um processo de expansão internacional, a gente está se adaptando à GDPR (versão europeia da lei de proteção de dados). Não temos que fazer nenhuma mudança brusca. É só uma adequação, e não uma revolução.

W! – Como a In Loco conseguiu atrair a atenção do investidor brasileiro?

AF – Temos atuado com foco em duas macrotendências. Uma delas relacionada ao varejo físico e usa a geolocalização para entender a jornada do consumidor, da mesma forma que os cooks conseguem identificar a navegação do consumidor na internet. Apesar de o varejo físico não crescer tanto em transações quanto o e-commerce, ainda representa uma fatia muito grande do mercado. A partir dessa inteligência, influenciamos o tráfego dentro da loja.

A segunda macrotendência é no segmento financeiro, onde a tecnologia de geolocalização tem sido usada para reduzir a fricção no processo de abertura de contas e pagamentos. A gente vê várias empresas do segmento financeiro atacando o wallet mobile, nos próximos anos vamos passar por uma transformação semelhante ao que a China passou lá atrás, deixando de usar dinheiro de papel e cartão para usar o digital. Outro ganho com a geolocalização é a substituição de documentos como comprovante de residência na abertura de contas em um banco digital. A tecnologia de geolocalização faz esse reconhecimento de maneira muito mais simples. Outra facilidade está relacionada à confirmação de pagamentos na loja física, que proporciona uma redução de fraudes por meio da confirmação adicional e também permite ao varejista mandar um cupom de desconto dentro do ponto de venda.

W! – As empresas e os investidores brasileiros estão perdendo o medo de apostar em inovação?

AF – Acredito que sim. No nosso caso em particular, um dos fundos que participou dessa rodada, o Unbox, tem como principais investidores a família do Magazine Luiza, que é o grande símbolo no mercado brasileiro de um varejista que resolveu apostar em inovação e está dando muito certo. Eles estão numa nova fase de não só investir no próprio negócio, mas em inovações relacionadas ao segmento. Os investidores estão apostando mais em inovação e menos nas cópias, que era um padrão anterior. Só o tempo vai dizer se a nova aposta vai dar certo, mas tenho convicção que vai.

W! – A In Loco nasceu dentro do Porto Digital, ecossistema de inovação em Recife. Como o ecossistema contribuiu para catapultar a startup?

AF – O setor público contribui de certa forma porque aqui no Recife tem um benefício fiscal para empresas de tecnologia que trabalham no território do Porto Digital. Isso contribuiu para melhorar nosso fluxo de caixa, mas é um benefício ao qual todas as empresas têm acesso, não houve uma intervenção direta no desenvolvimento da In Loco, em especial. No Porto Digital, a gente tem um benefício fiscal no ISS (Imposto Sobre Serviços) que reduz esse imposto de 5% para 2% do faturamento, algo que é praticado também em Alphaville para atrair empresas. Como a gente já estava aqui, a gente já nasceu com esse benefício.

W! – Como foi para a In Loco nascer fora da rota tradicional de circulação dos investimentos, que está concentrada no Sudeste?

AF – Foi bem difícil. A gente começou na faculdade e para receber o primeiro investimento demorou 3 anos. Foram 3 anos trabalhando de graça, sem perspectiva de obter clientes e investimentos porque o negócio era de longo prazo. Além disso, tinha a distância geográfica para os grandes centros financeiros, até a própria dificuldade de ganhar credibilidade. Imagina você investidor recebendo uma pessoa de 18 anos dizendo que vai resolver o problema da segurança na internet.

Levou bastante tempo até o primeiro investimento. E mais algum tempo para o segundo. Isso porque a gente tinha um trabalho de desenvolver ainda muita tecnologia para então desenvolver produtos e novos modelos de negócio. Depois de ter essa tecnologia pronta isso gerou uma ansiedade grande nos investidores, que pensaram, a gente está só consumindo capital e não existe nenhum cliente. Foi bem complicado o começo e ainda bem que quando a gente trouxe o primeiro produto, ele ganhou tração muito rápido e passou a tornar a empresa lucrativa em pouco tempo, mas foi bastante desafiador.

W! – Quando foi esse momento de ganho de tração que tirou a empresa do vermelho?

AF – Começou no final de 2014, quando conseguimos emplacar o primeiro produto que ganhou tração. Esse produto surgiu por meio de uma pergunta de um varejista: como usar essa tecnologia para fazer publicidade aos consumidores que estão comprando dos meus concorrentes? Esse questionamento nos pareceu muito promissor e resolvemos usar nossa tecnologia de geolocalização para isso. Um mês depois, a empresa já estava lucrativa e nos seis meses seguintes faturou mais de R$ 1 milhão. Antes, não havia nenhum histórico de faturamento. A partir de então, o faturamento foi dobrando ano a ano. Hoje, a gente tem que negar clientes porque não consegue atender toda a demanda que chega.


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