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Eficiência

Lições da China para o Brasil inovar

A gente pode e deve aprender com os melhores, e foi a China que tomou a dianteira em inovação – e não deve ser destituída desse posto tão cedo

POR Redação Whow! | 04/02/2020 09h00 Foto Li Yang (Unsplash) Foto Li Yang (Unsplash)

*Por Cristiano Barbieri

Vou ser bem sincero: não voltei chocado da China. Todos os relatos que tenho lido nos últimos anos me prepararam bem para o altíssimo grau de inovação com o qual o estrangeiro se depara ao chegar ao gigante asiático. No entanto, depois de uma semana visitando grandes empresas e startups, consigo afirmar que encontrei por lá um cenário surpreendente, tanto do ponto de vista dos negócios quanto de sociedade, onde o investimento pesado em tecnologia mostra-se capaz de lançar produtos e serviços revolucionários em grande escala.

Ao desembarcar em Xangai, centro financeiro chinês, me deparei com uma cidade high-tech, limpa e apinhada de arranha-céus modernos, que poderiam facilmente fazer inveja a Nova York. Mas, para mim, nada superou estes três insights: 1) a influência sem paralelos dos superapps, que me mostraram o quanto conveniência e rapidez mudam a rotina de toda uma população; 2) a implementação realmente bem-sucedida do blockchain; e 3) como a China está muitos passos à nossa frente no uso de tecnologia – e como se aproximar deles é um grande (e ótimo) desafio para o Brasil.

Vou explicar melhor.

China Foto Yura (Unsplash)

Evolução nos meios de pagamento

Anos atrás, era a China que estava atrás. O país registrava quase todas as operações financeiras apenas com dinheiro em espécie. Eram milhares de lojas e restaurantes sem dispositivos para cartões magnéticos. Foi aí que o sistema local encontrou uma oportunidade e “pulou” uma fase, a das maquininhas de cartão, unindo o aplicativo para troca de mensagens mais popular do país, o WeChat, a um sistema de pagamentos por QR Code, e, voilá, agora todo chinês é capaz de pagar suas compras no débito pelo celular simplesmente apontando o dispositivo para um QR Code, e sem precisar tocar em um cartão físico.

Para chegar até aí o caminho percorrido nem foi tão longo. Foi somente em 2011 que a China lançou o WeChat – e é importante lembrar aqui que o acesso a apps mundialmente populares como WhatsApp, Facebook e Twitter é bloqueado no país. Em pouquíssimo tempo, o aplicativo, desenvolvido pela Tencent, era o mais usado pela população local. Estima-se que hoje mais de 1 bilhão de pessoas usem o app em todo o mundo – número, claro, impulsionado pelos usuários chineses. E ganhou um forte concorrente: o Alipay, que faz parte do superapp do conglomerado Alibaba.

A jogada de mestre, tanto do WeChat quanto do Alibaba, foi unir múltiplas funções em um mesmo lugar: você paga seu café pela manhã, chama um táxi para o trabalho, pede comida na hora do almoço, faz reserva para uma viagem no fim de semana, armazena e envia documentos e, mais recentemente, realiza pequenos empréstimos financeiros em um ou dois toques, num único aplicativo.

China Foto Zhang Kaiyv (Unsplash)

Modelos de negócio de uma superseguradora

Na minha área, a de seguros, tive a oportunidade de conhecer a gigante Ping An. A seguradora tem 1,8 milhão de funcionários, sendo que 1,4 milhão deles são corretores — para efeito de comparação, a SulAmérica conta, atualmente, com 5 mil colaboradores e mais de 36 mil corretores parceiros.

A Ping An ganhou muito corpo com o crescimento da classe média chinesa, que vem comprando cada vez mais veículos. Só no ano passado, 30 milhões de carros passaram a circular no país. Imagine o potencial de novos seguros anuais que isso representa.

Mais uma vez, comparo com números nossos: aqui no Brasil, em 2018, registrou-se um crescimento de 14,6% na comercialização de veículos, com 2,7 milhões de novos emplacamentos. Ou seja, a China vendeu dez vezes mais carros do que o nosso país no mesmo período.

E o espaço para esse mercado crescer ainda é grande. Enquanto os Estados Unidos têm uma proporção de 1,2 habitante por veículo e o Brasil, 4,8, a China tem 6,5.

Surfando como poucas na onda do aquecimento do mercado de automóveis da China, a Ping An diversificou seu negócio e, hoje, além de vender seguros, tem um portal para compra e venda de carros e até mesmo uma marca de cosméticos. A empresa também vem monitorando escolas locais, com objetivo de identificar talentos, treiná-los e trazê-los para trabalhar, um dia, na companhia.

A superseguradora também saiu na frente ao identificar as deficiências do sistema público de saúde chinês. Embora o “SUS” deles funcione razoavelmente bem nas cidades mais ricas, há uma grande oportunidade a ser explorada na iniciativa privada.

Observando isso, a Ping An abriu sua própria empresa de saúde, e no dia que visitei a estrutura, notei que o sistema deles reunia 5.000 médicos online, conectados à rede, à espera de pacientes para consultas à distância. É a telemedicina levada a um outro nível. Essa modalidade de atendimento, aliás, tem angariado muitos investimentos na China, principalmente entre as startups que se dedicam a desenvolver ferramentas e sistemas que tornem a experiência com a medicina na tela a melhor possível.

China Foto (Pexels)

Lições da China para o Brasil inovar

Por fim, não tenho dúvidas de que o grande segredo das empresas chinesas bem-sucedidas é investir alto em tecnologia própria. No tour que fiz na Alibaba, que controla a conhecida AliExpress, passei por um estande que mostra a linha do tempo da empresa. Me chamou a atenção a virada da companhia, que começou a lucrar mais quando desenvolveu seus próprios sistemas, com tecnologia e mão de obra local, e pôde parar de pagar royalties de utilização para grandes empresas norte-americanas de tecnologia.

Não foi sem razão, portanto, que a China assumiu a dianteira dos países com maior número de patentes, ultrapassando os Estados Unidos.

Para ser pioneiro em tecnologia é preciso investir tanto em mão de obra qualificada quanto em produção própria, diagnóstico, aliás, que o próprio governo brasileiro chegou a fazer em 2018, com a edição do relatório “Indicadores Nacionais de Ciência, Tecnologia e Inovação.

O documento mostra, entre outros pontos, os caminhos que nosso país deve percorrer para melhorar seu desempenho em tecnologia e inovação: além de registrar mais patentes e dedicar-se à produção científica, o próprio Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) reconheceu que o Brasil deveria investir mais em recursos humanos, na melhoria de nossos índices socioeconômicos e em publicações científicas, ou seja, na lição de casa feita pela China anos atrás.

A gente pode e deve aprender com os melhores, e foi a China que tomou a dianteira em inovação – e não deve ser destituída desse posto tão cedo. Que a gente seja capaz de pegar uma carona e absorver pelo menos um pouco daquilo que eles fazem de melhor: inventar, melhorar, apostar na criação de tecnologia própria e baratear tecnologias que já existem.

 

*Cristiano Barbieri é head de Estratégia Digital, Inovação e Tecnologia da SulAmérica


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