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Kondzilla: o maior no YouTube

Uma das estrelas do Whow! Festival de Inovação foi Konrad Dantas, conhecido por seu canal de vídeos no YouTube: Kondzilla. Ele narrou a sua impressionante trajetória no evento

POR Ivan Ventura | 25/07/2019 15h14

*Fotos Renato Nascimento

Uma das estrelas do Whow! Festival de Inovação tem o um nome que muitos reconheceriam em um estalo de dedos. Konrad Dantas fundou o Kondzilla, um canal de vídeo e produtora especializada em artistas de funk. Mas até mesmo quem acha que conhece a “Kond” nem desconfia que a empresa se transformou em uma legítima plataforma de comunicação da cultura urbana da favela brasileira.

Konrad nasceu em um conjunto habitacional na Baixada Santista, no litoral paulista. A sua morada, assim como ocorre em muitas aglomerações urbanas próximas ao litoral, ficava distante do vai-e-vem das ondas do mar. Tudo isso é muito parecido com o cenário que o brasileiro e o mundo tem do Rio de Janeiro – e as semelhanças com a capital fluminense não se resumem ao aspecto geográfico e sócio-econômico.

A cultura dessas comunidades tem muitas semelhanças, dentre elas o gosto pelo funk carioca – um estilo musical que surgiu a partir do chamada Miami Bass e que era muito popular nos EUA nos anos 1970 e 1980. O estilo, por meio de movimentos de Djs conhecido como a Furação, ganhou outras comunidades e vizinhanças, caso do Espírito Santo e a própria Baixada Santista. O funk virou “música obrigatória” na comunidade e atraiu o interesse de milhões de jovens, dentre eles o jovem Konrad.

“Quando eu tinha 11 anos, pensei: o que preciso fazer para ajudar a minha família? Tudo o que aconteceu na minha vida aconteceu porque eu queria cantar rap, mas ainda bem que deu errado. Realmente achei que ia ganhar dinheiro com rap”, contou ele no palco do Whow!.

“Tudo o que aconteceu na minha vida aconteceu porque eu queria cantar rap, mas ainda bem que deu errado. Realmente achei que ia ganhar dinheiro com rap”

A música era um objetivo na vida mas, por um momento, foi deixada de lado. Em 2008, Konrad, então com 18 anos, perdeu a mãe, uma professora do Guarujá. Naqueles dias, ele lembra que a tristeza e ironia caminharam de mãos dadas. O pai, que se separou da mãe no fim dos anos 1990, casou-se nada menos que no dia enterro da mãe. Que coisa, não?

kondizila IMG 4398Sozinho, Dantas seguiu em frente. Ele havia herdado o dinheiro oriundo dos direitos trabalhistas da mãe, que era professora em uma escola de ensino fundamental no Guarujá. “Muitos diziam que eu deveria comprar um apartamento no Guarujá. Era o sonho da minha mãe. Mas, o que aconteceria depois? Eu compro e não teria dinheiro para pagar o condomínio”, lembra.

Ele concluiu a faculdade e não comprou o tal apê. Em vez disso seguiu para São Paulo para estudar computação gráfica. O curso foi pago com o dinheiro do espólio da mãe e abriu novas oportunidades profissionais na carreira…  Bem, não necessariamente no início.

“Toquei a minha vida a partir da oportunidade que a minha mãe deixou para mim. Quando estudei na escola de computação, não fui bem em duas matérias: diretor de cena e fotografia. Não estudava essas disciplinas direito. Depois de concluir o curso, pensei: ‘poxa, não me dediquei 100% com o dinheiro que a minha mãe me deixou’. Decidi estudar direção de cena sozinho”, disse.

A mudança logo rendeu frutos. No fim dos anos 1990, Kond já produzia os primeiros vídeos de rap, axé, funk. Pouco depois “descobriu” a mídia YouTube e viu uma oportunidade: exibir vídeos de músicos e a própria música da favela. O funk ganhava o seu espaço no YoutTube.

Os primeiro vídeos, como era de se esperar, eram bem “toscos”, como ele mesmo definiu. Muitos eram feitos por meio de um celular barato, mas tinham um ingrediente “matador”, que era justamente a música ignorada por outras mídias tradicionais. Logo no primeiro funk, feito de maneira amadora, ele conseguiu incríveis 7 milhões de visualizações. A favela começava a emergir do ostracismo.

Os vídeos se tornaram recorrentes e a produtora dele chegou a produzir 40 produções no mês no início dos anos 2000 feita de maneira totalmente amadora. Mas o negócio oscilou em um segundo momento e não rendeu (financeiramente) o esperado. Por conta disso, ele lembra que chegou a suspender o sonho de produzir vídeos de funk.

“Cogitei trabalhar com pós-produção de vídeos, o que realmente poderia me render um vida mais estável. Mas, então, recebi o convite do Charlie Brown para a produção de uns vídeos de uma turnê. Não quis, mas uma amigo me convenceu do contrário. ‘A chance do Charlie Brown Júnior não vai aparecer de novo’, dizia ele”.

kondizila IMG 6638Dantas seguiu o conselho e produziu o vídeo para a banda por R$ 3 mil, uma “fortuna na época para quem ganhava R$ 900 para produzir vídeo” , lembra. O trabalho abriu portas e a produção de vídeos foi retomada, desta vez com roupagem mais profissional. Surgiram artistas como MC Guimê, um dos primeiros grandes nomes oriundos da produtora (já chamada de Kondzilla) com dezenas de milhões de views.

A partir daí surgiram outros funkeiros e os milhões de views se tornaram cada vez mais frequentes, mas havia um problema: as letras misóginas e que se referiam às mulheres como objeto, o incomodava. Então, um dia, um dos músicos (com mais de 22 milhões de visualizações) recebeu um convite para ir ao programa da Fátima Bernardes, na Globo.

“Ela comentou que a música era boa, mas citou o palavrão no meio da letra”. O comentário foi o gatilho para a mudança. Pouco depois surgia a música “Baile de Favela”, de MC João, que não usava palavrões, mas ressalta a cultura urbana da favela. Resultado: 100 milhões de views.

NÚMEROS QUE IMPRESSIONAM

50 milhões de pessoas inscritas no Youtube
24% da população brasileira
130 milhões de usuários únicos
+ de 25 billhões de visualizações no Youtube

A decisão foi acertada e a Kondzilla colecionou novos visualizações e se tornou o maior canal de músicas no Youtube do mundo. Mais do que um produtor, ele passou a aconselhar e até empresariar os funkeiros. Hoje, dos 10 vídeos mais vistos da história, 5 foram produzidos pela “Kond”. Além disso, o canal possui 50 milhões de pessoas inscritas – ou 24% da população brasileira. Mais do que isso, existem mais de 130 milhões de usuários únicos, sendo que 71% é formado pela população brasileira. Os demais vêm de países como Colômbia, Portugal e outros países.

Kondzilla ganhou musculatura e se transformou em uma plataforma de mídia, que ainda usava a marca para comercializar roupas, produtos, e serviços ligados à marca. Nos últimos anos, passou a migrar para outras plataformas de conteúdo, inclusive a Netflix.

Hoje, as produções de seus vídeos envolvem dezenas de funcionários, sendo que ele chegou a utilizar 144 pessoas em um comercial para uma marca de alimentos. São nesses momentos que ele afirma se lembrar dos primeiros vídeos, onde era apenas ele e um celular. “Me dá 150 pessoas que eu filmo. Me dá um iPhone que eu filmo do mesmo jeito”. De fato, ele nasceu para isso.

“Me dá 150 pessoas que eu filmo. Me dá um iPhone que eu filmo do mesmo jeito”


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