Do iFood ao consultório médico: como a inteligência artificial está mudando o mercado - WHOW
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Do iFood ao consultório médico: como a inteligência artificial está mudando o mercado

Startups e especialistas falaram sobre o papel da inteligência artificial na criação de novos serviços e o impacto da tecnologia no mercado de trabalho

POR Raphael Coraccini | 25/07/2019 13h58 Do iFood ao consultório médico: como a inteligência artificial está mudando o mercado

*Fotos Douglas Luccena

Os robôs já saíram da ficção e são menos assustadores do que os filmes e livros poderiam sugerir. Sob um trabalho de comunicação feito pelas empresas do setor e rostos amigáveis dados a eles, a tecnologia está ganhando a simpatia da sociedade. O último dia do Whow! Festival de Inovação discutiu como a inteligência artificial avança sobre as atividades feitas até então por seres humanos. Se as máquinas, há algumas décadas, estavam dedicadas a substituir o trabalho manual, é a vez dos trabalhos cognitivos serem repassados para as máquinas inteligentes. Mas, afinal, o que uma máquina inteligente é capaz de fazer?

A inteligência artificial serve basicamente para três grupos diferentes de atividade, de acordo com Sandor Caetano, Chief Data Scientist, do iFood: Para dar superpoderes aos times e melhorar processos, criar produtos novos que conseguem girar por causa dos dados e desenvolvimento de soluções para o futuro.

Caetano destaca que, apesar de a inteligência artificial estar começando a emplacar agora no mundo dos negócios, muito já está sendo feito. “Estamos mirando lá em cima mas, aqui embaixo, como já está funcionando? Tem muita coisa hoje operando graças à inteligência artificial, e que dá muito trabalho para fazer”, explica.

Na startup de entrega de alimentos, existe um simulador que faz uso de tecnologia de ponta, testa novas soluções e avalia a eficiência delas. “Quando a solução está operando bem, eu coloco pra rodar na vida real. Não tenho ninguém trabalhando em logística e entrega, só no simulador. Isso muda o jogo”, conta o executivo.

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Para fazer a inteligência artificial usar toda sua capacidade, é preciso alimentá-la com a commodity da nova economia: os dados. E é necessário captar esses dados de uma maneira fácil para depois juntá-los em um lugar só. Essa é a etapa mais simples do processo, depois, a complexidade é a palavra de ordem.

“Se você cria um modelo de IA que vai tomar decisão sozinho, você vai ter que validar as decisões. E são muitos pontos de falha possíveis. Aí você vai ver se funciona: precisa usar métricas. Depois, tem que melhorar o modelo ao longo do tempo porque ele sempre surge com um modelo básico que precisa ser otimizado. O processo é longo e exige muitas interações. E nenhuma delas é simples”, destaca Caetano.

Anthony Eigier, CEO da NeuralMed, destaca que um dos aspectos principais da inteligência artificial (e dos mais complexo) é o deep learning – a capacidade de a máquina aprender com profundidade o que se imaginava que só o ser humano poderia processar. Eigier destaca que, o nome imponente pode ser substituído pela capacidade da máquina de reconhecer padrões.

“Se eu mostro a forma de um cachorro, as pessoas vão saber pelas experiências anteriores que não se trata de um cavalo ou de um elefante. As aplicações mais assertivas em IA estão amparadas na capacidade de reconhecer padrões”, explica.

“As aplicações mais assertivas em IA estão amparadas na capacidade de reconhecer padrões”

Anthony Eigier, CEO da NeuralMed

A NerualMed usa IA para detectar doenças por meio de reconhecimento de padrões, identificando, em exames de imagem, eventuais recorrências que estejam fora do histórico de um exame negativo (que não aponte doença nenhuma). “Um médico experiente consegue ser mais assertivo porque já viu aquilo mais vezes que um com menos tempo de carreira. Nosso cérebro faz isso de maneira incrível, mas tem uma hora que cansa pelo excesso de informação. Toda vez que você consegue desenvolver um padrão para atender uma grande quantidade de dados, você tem uma solução interessante”, afirma.

A startup aparece como solução não para tirar empregos dos médicos, mas para liberá-lo para outro trabalho. E o maior desafio hoje para a NeuralMed é a percepção das pessoas sobre assertividade da IA.

“Todo mundo acha que IA vai ser 100% assertiva, e não vai. A diferença é que ela acerta mais que um humano. A taxa de falso negativo na Europa e nos EUA em exames de Raio X é de 20%. Os médicos acertam 80% das vezes. O pior dos nossos algoritmos tem 96% de assertividade”, afirma.

Homens e máquinas

A Stilingue tem usado a tecnologia para melhorar a velocidade e assertividade de suas pesquisas. Para isso, precisou ensinar à máquina a interpretar as expressões em português e convertê-las em texto, algo que o Google Translator faz há algum tempo, mas não de maneira profissional, como requer uma empresa de pesquisa.

“Se você não trabalha o processamento de linguagem natural no português, sua máquina vai parecer um gringo que mora no Rio de Janeiro há seis meses e acha que já fala português”

Rodrigo Helcer, CEO da Stilingue

O computador da empresa de pesquisa brasileira é capaz de interpretar expressões informais e regionais, algo que o Google não faz com correção, ao menos no Brasil. “A gente traduz isso para texto para fazer nossa análise de opinião. Hoje, se fala tanto em entender o consumidor, mas no fim do dia muitas empresas acabam olhando para ele como número. A experiência digital tão falada precisa de um feedback. O processamento de linguagem natural atua como base para isso”, explica.

Helcer destaca ainda que muitas iniciativas chamadas de IA não fazem jus ao nome. “A IA deveria mudar para inteligência aumentada, porque tem muito mito sobre o que é feito de forma automática. No fim do dia, ela está em prol de fortalecer o ser humano, em incapacidades que só a tecnologia pode atender, seja na roteirização logística do iFood ou na medicina. A IA é como uma armadura do homem de ferro, precisa de alguém que preencha”.

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Paula Gertrudes, fundadora da Cara de Conteúdo, que tem ido atrás de soluções em IA para otimizar seus processos de seleção de celebridades para campanhas publicitárias, concorda que haja uma banalização do termo inteligência artificial. “Em muitos casos, o que é vendido como IA funciona como se fossem anões dentro de uma máquina. Um front end bonito, mas com alguém atrás, preenchendo planilhas e entregando a informação”, explica.

Diego Figueiredo, CEO da Nexo, afirma que as pessoas acabam limitando tudo que está acontecendo de novo à tecnologia de IA, que existe desde a década de 50, mas que ganha aceleração no século 21 por causa do aumento exponencial na capacidade computacional.

Para Figueiredo, apesar de ser quase septuagenária, a IA ainda está dando seus primeiros passos. “Daqui a 15 anos, a gente vai ver que o existia (em IA) não era nada. As tecnologias em chatbot, hoje, que são tão comemoradas, são elementares. Muitos empregos serão transformados. As pessoas acabam confundindo um pouco quando sai uma notícia dizendo que a IA vai roubar empregos. Esquecem que a gente vai vier num mundo muito diferente do que vivemos hoje”. No futuro, segundo o executivo, algumas profissões podem desaparecer no setor da medicina, por exemplo, “mas vamos ter o designer de órgãos”, aposta. A pergunta é: qual será o balanço entre profissões extintas e criadas? Ainda não há uma resposta definitiva.

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