Inovação local: empreendendo com escolas de inglês na periferia - WHOW

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Inovação local: empreendendo com escolas de inglês na periferia

Othon Damaceno e Natalia Gomes são fundadores da Pop!, escola de inglês que já conta com três unidades na periferia da cidade de São Paulo

POR João Ortega | 17/09/2021 17h19

Em geral, o conceito de inovação é associado a empresas disruptivas como Uber, Netflix e Google. De fato, são exemplos bastante inovadores de negócios que mudaram totalmente os mercados em que se inserem. No entanto, a inovação pode estar em ideias de negócios bem mais simples, especialmente quando se olha para a resolução de problemas locais. Este é o caso da Pop!, escola que leva o ensino de inglês de qualidade para bairros periféricos na Grande São Paulo. 

“Muitas pessoas que querem empreender ficam em busca de uma ideia super inovadora”, afirma Othon Damaceno da Costa, empreendedor e professor de inglês à frente da Pop!, em entrevista exclusiva. “A inovação pode ser realmente algo que ninguém nunca viu, mas pode ser também uma inovação local. Uma escola de inglês na periferia, em certa medida, é uma inovação”. 

Por outro lado, o que o empreendedor costuma ver nos arredores são negócios que se canibalizam pela concorrência e não resolvem problemas reais. “Vejo muitos comércios nascendo no ramo alimentício, e isso é mais do mesmo”, exemplifica.

O início da jornada empreendedora

Othon fundou a Pop! em 2014 junto com a namorada Natalia Gomes. Ambos são professores de inglês e tinham feito, um ano antes de lançar a empresa, um curso para obter certificado internacional de ensino da língua. Ambos já tinham experiência prévia com empreendedorismo: ele havia tentado o sucesso abrindo uma lavanderia e ela esteve à frente de uma franquia já no ramo de escolas de idiomas. Mas o modelo de uma marca própria voltada à população periférica era mais atrativo para o casal. 

A primeira unidade nasceu no Jardim Vista Alegre, em Embu das Artes, cidade da região metropolitana de São Paulo. É o bairro onde Othon cresceu ao lado da família, e a rede de contatos local o ajudou no início do empreendimento. “Consegui alugar um espaço com uma amiga da minha mãe, que me deixou fazer a obra no local e funcionar por três meses antes de ter que começar a pagar. Ajudou bastante ali no início”, conta. 

Nesse sentido, o professor de inglês dá a dica para outros empreendedores que querem começar negócios em seus bairros: use a rede de contatos a seu favor. Além disso, Othon sugere atuar em um setor que já seja conhecido pelo empreendedor.  “Ajuda a sobreviver em momentos difíceis. Se eu não soubesse dar aula, talvez o negócio não iria para frente, porque teria que contratar professores desde o começo”. 

“Não romantizo a minha história, mas é verdade que a gente começou colocando a mão na massa. Não tinha contabilidade, não tinha outros professores, não tinha nada. Era a gente fazendo tudo. Hoje, é uma conquista para nós estar regularizado, pagando os tributos, emitindo notas e contribuindo para o crescimento do município”, afirma Othon. 

Crescimento do negócio

Othon admite que, nos primeiros meses à frente da escola, não tinha muito conhecimento sobre gestão de negócios. Como bom professor, ele reconhece a importância de se estudar para a função, mas acredita que é a própria rotina empreendedora que mostra quais são as prioridades. “O dia-a-dia ensina muito mais que qualquer estudo. Até porque são os problemas que aparecem ao longo da trajetória que mostram em que sentido eu precisava me capacitar mais”, afirma. 

A escola de inglês no Jardim Vista Alegre teve bons resultados. Até hoje, passaram 279 alunos pelo estabelecimento, que emprega atualmente três funcionários. Segundo Othon Damaceno, a taxa de retenção dos alunos da matrícula até o fim do ano letivo está em torno de 85%. 

O desempenho levou Othon e Natalia a abrirem duas outras unidades: uma no bairro do Campo Limpo, em São Paulo, e a mais recente no Jardim São Marcos, também em Embu das Artes. 

Além do ensino presencial, a Pop! oferece, desde o ano passado, aulas virtuais de inglês. O novo meio surgiu, claro, como resposta à pandemia, já que a escola precisou fechar as portas em diversos momentos. “Tanto eu quanto a Nathalia não éramos fãs de dar aula online. Quando veio a pandemia, começamos a nos capacitar para aprender a dar aulas nos meios digitais. Fizemos essa transição e, hoje, o online não só virou um produto como já é o carro-chefe da empresa em número de matrículas. Atingimos alunos que não seria possível alcançar, até em outros Estados”, conta Othon. 

Para o futuro próximo, o plano é continuar abrindo mais unidades da escola, ao mesmo tempo em que escalam o produto digital. Mais para frente, os empreendedores vislumbram complementar a oferta com ensino regular, para além dos idiomas, mas no modelo bilíngue. Tudo isso sem perder o propósito, que é levar educação de qualidade à periferia.

Empreender para a periferia

O fator local faz parte do propósito dos empreendedores por trás da Pop!. “Poderíamos estar nos centros, mas escolhemos estar na periferia”, reforça Othon. Segundo o professor, a ideia de trabalhar neste mercado veio da própria dor que ele tinha na época em que estudava inglês. “Uma das grandes dificuldades era o deslocamento. As escolas de inglês ficavam longe do meu bairro. E, mesmo assim, não era um ensino com tanta qualidade, com as certificações internacionais que temos hoje”, relembra. 

O empreendedor vê o inglês como prioritário para que os moradores das periferias tenham mais oportunidades no mercado de trabalho. Othon diz que foi o fato de ele ter aprendido a língua desde cedo que abriu portas para sua carreira, e quer levar o mesmo impacto para outras pessoas. “É clichê falar isso, mas não tem como alguém da periferia progredir que não seja pela educação”, ressalta. 

No entanto, a Pop! é uma empresa e tem como premissa gerar lucro, e Othon reconhece que o ensino de inglês ainda não é para todos. “Embora ter as escolas nos bairros da periferia já ajude na questão do acesso, a verdade é que o preço não é tão acessível como deveria ser”, analisa. “Do contrário, a escola não existiria. Temos que pagar os professores, toda a parte comercial e não perder a qualidade do ensino. Foi uma opção”, finaliza o empreendedor.