Inflação, auxílio emergencial e a retomada econômica das empresas - WHOW

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Inflação, auxílio emergencial e a retomada econômica das empresas

Na estreia de sua coluna para o Whow!, Marcel Solimeo reforça a necessidade de programas específicos para pessoas e empresas mais afetadas pela crise

POR Marcel Solimeo | 30/11/2021 16h45

A elevação da taxa da inflação que vem assolando a maioria dos países, desde o surgimento do COVID 19, pode ser explicada, em parte, por desorganização do sistema produtivo e dos transportes, mas, também, pelas condições climáticas desfavoráveis , com incêndios, secas e enchentes, e, ainda, pelo aumento dos preços dos combustíveis.

No Brasil, essa taxa tem sido bastante superior às dos demais países porque, além desses fatores, temos pressão adicional da taxa de câmbio, pois a desvalorização do Real impacta não apenas os preços dos produtos importados, mas também dos exportáveis, como alimentos e commodities em geral, porque o produtor tem a opção de exportar ou vender internamente, o que nivela os preços do mercado interno aos da exportação.

A taxa acumulada, que superou os 10% em doze meses, explica porque o comércio vem desacelerando o crescimento após vários meses de expansão. O aumento do preço dos alimentos vem reduzindo o consumo de bens essenciais, o que é agravado pelo fato de que não apenas os preços dos produtos aumentaram, como o dos serviços públicos, a exemplo da energia elétrica, além dos combustíveis e gás natural.

Quanto mais o consumidor gasta com serviços básicos, menos sobra para a compra de bens. A massa salarial está se achatando porque o aumento da ocupação ocorre nos setores com remuneração mais baixa, não compensando as perdas para a inflação.

As camadas mais carentes da população, dependentes do Bolsa Família, foram as mais impactadas pelo aumento dos preços, agravando a situação de dificuldades que já enfrentavam. O pagamento de R$ 200 da primeira parcela do Auxílio, embora positivo, foi insuficiente para repor o poder de compra dos beneficiados.

Agora discute-se no Congresso o pagamento, no mês de dezembro, da segunda parcela do Auxílio Emergencial, no valor de R$ 400 e, ainda, com aumento da população beneficiada de 14,5 milhões para 17 milhões, além de outros benefícios específicos.

Embora aprovada na primeira fase no Congresso a transformação desse benefício em caráter permanente, falta definir a fonte de custeio do programa, inclusive para o mês de dezembro próximo.

É lamentável que em um orçamento de mais de R$ 4 trilhões, com verbas vultosas para o Fundo Partidário, emendas parlamentares e outras menos prioritárias, estejam apontando para os R$ 45 bilhões do auxílio como responsáveis pelo rompimento do “teto do orçamento” e da austeridade fiscal.

E as empresas nesse cenário?

Para os empresários, o mais importante é que haja definição do Bolsa Brasil, não apenas pelo seu impacto social e econômico positivo, como para assegurar maior previsibilidade para as empresas planejarem suas atividades. O fim desse debate deve acabar com as dúvidas sobre a questão fiscal, contribuir para maior estabilidade da taxa de câmbio e reduzir a pressão sobre os preços.

Mais importante é que os parlamentares passem a discutir agora o “auxílio emergencial” para as milhares de empresas, a maioria de micro e pequeno portes, que, devido às restrições impostas pelos estados e municípios, ficaram meses sem poder operar. As perdas dessas empresas de comércio e serviços são irrecuperáveis.

Muitas, no entanto, sobreviveram às custas de acumularem um imenso passivo fiscal, previdenciário, trabalhista, com fornecedores, e outros, e ainda correm o risco de fechar, se não houver um programa específico para essas empresas.

O “Refis da Crise” é uma medida muito importante para auxiliar as empresas, se for aprovada com urgência e tiver a abrangência necessária para atender às necessidades dos negócios prejudicados pelas restrições. Prazos bastante longos para os parcelamentos, com uma carência para que as empresas possam ganhar fôlego para iniciar os pagamentos, são fundamentais.

Além do parcelamento dos débitos fiscais e previdenciários, é necessário um programa de crédito específico para atender a essas empresas, com prazos mais longos do que as linhas tradicionais, e com um fundo garantidor. As linhas de crédito disponíveis não atendem a essa necessidade, por seu prazo curto, embora sejam importantes.

O maior problema, no entanto, é que essas empresas não conseguem competir pelo crédito com aquelas que não foram afetadas pelas restrições, devido ao passivo que carregam. Por isso, tem que ser um programa específico para elas.

Finalmente, o que é importante para todos, empresários, trabalhadores, e a população em geral, é a retomada do crescimento, que necessita que o setor público faça sua parte, executando as funções, que lhe cabem, e oferecendo serviços públicos de qualidade. E desburocratizando a economia.

Os empresários farão sua parte e liderarão a retomada.

Marcel Domingos Solimeo é Economista Superintendente do Instituto de Economia da Associação Comercial de São Paulo.