Impactos da pandemia para as mulheres: como e por que elas são mais afetadas? - WHOW

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Impactos da pandemia para as mulheres: como e por que elas são mais afetadas?

Múltipla jornada de trabalho, aumento da violência doméstica e crescimento do desemprego são alguns dos impactos da pandemia que as mulheres enfrentam

POR Redação Whow! | 06/05/2021 13h26

Os impactos de uma crise nunca são neutros em termos de gênero, e com o COVID-19 não é diferente. Um documento feito pela ONU Mulheres mostrou que as mulheres sofreram mais os impactos da pandemia do que os homens.

Por que? Resumidamente e de maneira geral, porque são elas que arcam com o peso das responsabilidades de cuidados em relação à doença. Quando as escolas fecham e os familiares adoecem, são elas que cuidam. Ao passar mais tempo em casa, também são elas que correm maior risco de violência doméstica.

Como as mulheres têm maior probabilidade de ter menos horas de trabalho empregadas e de ter contratos precários, elas também são as mais afetadas pelo desemprego em tempos de instabilidade econômica.

Nas próximas linhas aprofundaremos todas essas questões.

Impactos da pandemia na rotina das mulheres

Quando a pandemia eclodiu e grande parte das empresas decretaram o home office, muito se falou sobre os efeitos positivos desse modelo de trabalho. Não restam dúvidas de que trabalhar de casa pode otimizar nosso tempo, aumentar nossa produtividade e contribuir para o aumento da qualidade. Porém, para as mulheres, o cenário é um pouco diferente.

Em primeiro lugar, como o home office foi implementado de maneira súbita, muitas residências não estavam preparadas para isso. Foi preciso transformar espaços, muitas vezes de lazer, em áreas de trabalho e estudo. Em segundo, junto com essa adaptação de ambientes, veio a necessidade de conciliação entre vida profissional, pessoal e doméstica.

Especialmente para as mulheres que têm filhos, a pandemia impôs um grande desafio multitarefa. Com a falta de espaços próprios para cada atividade, a casa se tornou o lugar onde uma só mulher precisa ser várias: trabalhadora, mãe, dona de casa e ela mesma (porque sim, a mulher também precisa achar um tempo para se dedicar a si).

Se antes do coronavírus as mulheres já tinham uma jornada dupla, tripla ou quádrupla, com a pandemia isso se intensificou ainda mais, porque agora essas jornadas acontecem todas no mesmo espaço. E, vale ressaltar, com uma cobrança muito maior.

Mulheres na linha de frente dos profissionais da saúde 

De acordo com Wenham et al, 2020, mulheres em geral, e mulheres negras em particular, são as principais protagonistas na continuidade de serviços essenciais em um cenário emergencial de saúde. Elas representam, segundo a OMS, 70% dos profissionais da área de saúde do planeta.

No Brasil, o Censo 2000 mostrou que as mulheres também correspondem a 70% dos profissionais do setor. Na área médica elas representam 36% do total, enquanto nas categorias de psicologia e enfermagem o percentual chega a ultrapassar a marca de 80%.

Na prática e considerando a situação atual, esses dados mostram que o gênero feminino está mais exposto aos riscos de contaminação.

Violência doméstica contra mulheres 

Segundo Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, a pandemia foi uma alavanca para o crescimento de casos de violência doméstica no Brasil. De acordo com o ministério, as denúncias de violência contra a mulher correspondem a 30% de todas as denúncias feitas no Disque 100 e no Ligue 180 em 2020.

Ao todo, o país registrou 105.821 denúncias no ano passado. “Nós, infelizmente, tivemos de deixar dentro de casa agressor e vítima. Isso foi um fenômeno que aconteceu no mundo inteiro e nós lamentamos”, disse Damares na véspera do dia da mulher este ano.

Diante dos impactos da pandemia no crescimento da violência e das denúncias, o governo federal aumentou os canais de atendimento. Hoje, além dos tradicionais números 180 e 100, é possível denunciar via WhatsApp e por um aplicativo do próprio ministério, chamado “Direitos Humanos Brasil”. 

Empresas e iniciativas para conter a violência contra mulheres na pandemia 

Uma pesquisa realizada pela UFC em parceria com o Instituto Maria da Penha, mostrou que mulheres que são vítimas de violência doméstica chegam a faltar cerca de 18 dias por ano. Isso resulta numa perda anual de quase R$ 1 bilhão para o país. Ou seja, o feminicídio é um problema que afeta não só as empresas, mas a sociedade como um todo.

Nesse sentido, a iniciativa privada pode e deve aproveitar seu poder para criar soluções e campanhas de conscientização. Algumas empresas já atuam na área, como é o caso da Marisa, Magazine Luiza e Uber.

Na Marisa, foi implementado um canal de atendimento para vítimas que em apenas um ano atendeu mais de 40 funcionárias. “Já houve casos de providenciarmos a transferência de algumas dessas mulheres para outra cidade para conseguirem abandonar seu agressor”, disse Andrea Sanches, diretora de marketing da empresa.

Desemprego afeta mais as mulheres 

Os impactos da pandemia também chegaram na participação das mulheres no mercado de trabalho. O nível de participação feminino chegou a 45,8% no terceiro trimestre de 2020 e se tornou o mais baixo desde a década de 90, segundo dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). 

Os setores de alojamento e alimentação, cujas vagas eram preenchidas em 58% de mulheres, a queda foi de 51%. Nos serviços domésticos, onde as mulheres respondem a 86% dos profissionais, houve redução de 46%. Já em educação, saúde e serviços sociais, áreas também majoritariamente ocupadas por mulheres, a queda foi de 33%.

As medidas de isolamento social somadas ao fechamento das escolhas são a receita certeira para provocar a perda de empregos femininos.

Saúde emocional 

Uma pesquisa desenvolvida pelo Instituto de Psiquiatria da escola de medicina da USP, revelou que as mulheres são mais afetadas emocionalmente pela pandemia do que os homens. Elas respondem a 40,5% de sintomas de depressão, 34,9% de sintomas de ansiedade e 37,3% de estresse.

A pesquisa mostrou ainda que não é somente a saúde das mulheres que têm jornada materna e profissional que foi afetada. Mulheres que moram sozinhas e não têm filhos também relataram níveis altos de estresse, ansiedade e depressão.

Nestes casos, os sofrimentos estão associados sobretudo ao desemprego, histórico de doenças crônicas, e contato com pessoas que tiveram COVID-19.

Perspectivas para o futuro

Desde março de 2020, a ONU Mulheres, com apoio da União Europeia, realiza o projeto Conectando Mulheres, Defendendo Direitos. O programa é uma iniciativa para apoiar mulheres defensoras de direitos humanos no Brasil, com levantamento de verba para promover e sustentar suas estratégias de prevenção e resposta a violações de direitos humanos e feminicídio.

Enquanto os impactos da pandemia continuam longe de acabar, essas iniciativas fomentam a esperança de ajudar e retirar as mulheres da situação de vulnerabilidade.

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