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Gestão Sustentável: o que é, e como as empresas podem adotá-la?

Técnicas de gerenciamento que buscam o desenvolvimento de organizações a partir do equilíbrio econômico, social e ambiental ganham cada vez mais importância

POR Luiza Bravo | 23/04/2020 09h00 Gestão Sustentável: o que é, e como as empresas podem adotá-la? Arte Grupo Padrão (@flaviopavan_76)

O conceito de “sustentabilidade” ganhou destaque nos últimos anos, e é frequentemente associado ao meio-ambiente. O termo, no entanto, é muito mais abrangente, e foi cunhado para definir práticas que buscam respeitar e aprimorar não apenas os aspectos ambientais de um determinado negócio, mas também os econômicos e sociais. Enquanto indivíduos, cada um de nós pode adotar atitudes sustentáveis no dia a dia.

Mas como as empresas podem se tornar sustentáveis, e por que isso é interessante?

A sustentabilidade corporativa não apenas é importante para a preservação do planeta como um todo, mas também pode ser uma estratégia para as empresas alavancarem sua lucratividade. Cada vez mais consumidores estão dispostos a pagar por produtos ambientalmente responsáveis, e o surgimento de fundos de investimentos éticos despertou a atenção do mundo para a importância da responsabilidade social corporativa.

O Whow! conversou com o CEO da Ideia Sustentável, Ricardo Voltolini, que é um dos primeiros especialistas do país em Estratégia e Inteligência em Sustentabilidade. A seguir, ele fala sobre a importância da adoção de práticas sustentáveis e como a pandemia do novo coronavírus pode estimular esse movimento.

Whow!: O que é gestão sustentável e como colocá-la em prática?
Ricardo Voltolini: O termo “sustentabilidade” tem muitas versões, mas tentando definir de modo menos teórico, podemos entendê-lo como um novo jeito de pensar e fazer negócios: mais responsável, mais ético, com mais respeito às pessoas e ao meio ambiente. Essa definição é bem simples e mostra quais são os desafios que as empresas têm pela frente. A sustentabilidade evoluiu do que chamávamos de “três Ps” (People, Planet e Profit – Pessoas, Planeta e Lucro) para o que chamamos hoje de ESG, sigla em inglês para designar os aspectos ambientais, sociais e de governança, e que envolvem consumidores, fornecedores e comunidades. As empresas precisam identificar quais são seus impactos socioambientais negativos e trabalhar para minimizá-los ou eliminá-los. Depois disso, o próximo estágio é o que chamamos de regeneração, que nada mais é do que gerar impacto positivo, melhorando a sociedade e a comunidade onde atuam.


W!: Como gerar valor com gestão sustentável? As organizações já entenderam que podem lucrar com essas práticas?
RV: Por mais de uma década, meu trabalho consistiu em tentar explicar para as empresas por que sustentabilidade era importante, e obviamente isso não era tão bem compreendido, porque o conceito ainda era muito atrelado ao meio ambiente, não conseguiam colocar essa questão no âmbito dos negócios, parecia apenas um assunto interessante, mas que caía naquele estigma do “eco-chato”. Nos últimos anos, essa compreensão veio evoluindo, e ganhou um destaque ainda maior no ano passado, com manifestações importantes de líderes empresariais e grandes investidores pelo mundo reforçando a importância de os negócios colocarem o propósito antes do lucro.

O presidente da Black Rock, por exemplo, que é a maior empresa de gestão de ativos do mundo, divulgou uma carta em que ressaltava a importância dessa questão do propósito para os negócios que desejam prosperar. Em agosto, a Business Roundtable lançou um manifesto assinado por mais de 180 CEOs de grandes empresas reafirmando o compromisso dessas organizações com a ESG. Ativos, riscos e oportunidades foram rediscutidos à luz desse conceito, e o sustentável passou a ser o novo normal competitivo.

As ações de empresas de capital aberto consideradas mais sustentáveis valorizam, em média, 12% a mais do que as de empresas consideradas não sustentáveis. O mercado financeiro era a ponta que ainda resistia a essas mudanças, e acabou cedendo depois dessas manifestações. Antes disso, já havia uma pressão dos millennials, porque eles já trazem consigo alguns desses valores como essenciais. Então, existe um aumento das fontes de pressão, desses jovens entrando nas empresas e cobrando que elas sejam mais sustentáveis. Os millennials começaram a assumir presidência das empresas, e também estão determinando onde querem botar dinheiro como investidores, em que empresas querem trabalhar e de que empresas querem comprar produtos.

gestão Foto ilustrativa (Pixabay)


W!: Como criar uma cultura sustentável dentro das empresas e engajar os colaboradores com essas questões?
RV: Muitas empresas que abraçam a sustentabilidade apenas em algumas ações, de forma pontual, estão sentindo necessidade de que esses temas passem a integrar seu planejamento estratégico. Isso significa adotar a sustentabilidade como parte dos compromissos que as empresas querem assumir com o futuro, ajudando-as a caminhar para um outro estágio, que é uma cultura de sustentabilidade. Quando a sustentabilidade entra no planejamento estratégico, ela passa a determinar as escolhas da empresa na maneira como ela faz negócios, e quando ela permeia todos os aspectos da empresa, torna-se uma cultura. Quando você chega nesse estágio, você não precisa de muito para mobilizar os colaboradores.

A Natura é um exemplo de empresa que já se encontra nesse estágio. Com a eclosão da pandemia do coronavírus, houve uma comoção generalizada, e todos estão “botando a mão na massa”, porque são pessoas já habituadas a essa cultura. Para as empresas que ainda não chegaram nesse nível, este pode ser um momento de convocar os colaboradores e fazer uma pesquisa com eles, para tentar entender como eles estão enxergando o papel de sua empresa nesse momento.

“Eu também pediria que cada colaborador recomendasse algo que a empresa poderia fazer, mas ainda não está fazendo. Essa seria uma ação simples para criar vínculos de confiança com seus colaboradores em torno desse tema da sustentabilidade”

Ricardo Voltolini, CEO da Ideia Sustentável


W!: Você falou sobre a importância desta pandemia para o desenvolvimento de medidas sustentáveis. Como essa crise evidencia essa questão dentro das empresas, exatamente?
RV: Essa pandemia está sendo um grande teste para empresas e lideranças. Tem organizações que tomaram a frente, outras que poderiam fazer muito mais, e outras ainda que estão “na moita”, apenas protegendo seus ativos e esperando a crise passar. Esta é a hora do “vamos ver”, em que percebemos se aquelas empresas que adotam o discurso da sustentabilidade – que traz ganhos de imagem, reputação, melhora seu valor no mercado financeiro e suas relações com a comunidade – de fato, o praticam.

A primeira medida importante tomada por empresas líderes nessa crise foi afastar seus colaboradores e colocá-los em home office para preservar sua saúde, em uma demonstração clara de respeito. As grandes companhias também criaram uma rede de proteção para seus fornecedores, de forma a preservar as pequenas empresas. Outra coisa que chama a atenção é como o foco se voltou para a comunidade: todo dia vemos uma série de empresas convertendo sua produção para outros itens – como álcool gel e respiradores – e distribuindo-os para a população. É um movimento de solidariedade fora do comum.  Tem uma divisão no Brasil de duas linhas de liderança: uma pragmática, que coloca a economia na frente da saúde, e outra mais humanista, de jovens líderes que colocam a vida humana em primeiro lugar. Neste momento, tenho visto o surgimento de lideranças e a confirmação de outras com essa orientação por propósito e valores. Esses líderes farão a transição de um modelo de empresa mais tradicional, que foca em gerar valor para os acionistas, para um novo modelo de capitalismo consciente, mais orientado por princípios de sustentabilidade.

W!: E quando a pandemia passar? Que lições você acredita que vão ficar?
RV: Antes mesmo da pandemia, eu já dizia que 2020 seria o ano da sustentabilidade. Agora, isso tudo está fortalecendo alguns dos princípios e valores da sustentabilidade, mostrando claramente que é importante respeitar colaboradores, equilibrar vida pessoal e profissional, zelar pelo bem-estar das pessoas e cuidar da comunidade. Curiosamente, o meio ambiente também está sendo impactado de forma muito positiva: estamos produzindo menos lixo, poluindo menos, consumindo menos combustíveis fósseis. A parada do mundo foi importante para desacelerar o curso das mudanças climáticas, que vinha galopante e colocando em risco, assim como o coronavírus, toda a humanidade.

Acho que essa pandemia fez a humanidade enxergar, pela primeira vez, que todos estamos expostos a riscos. A emergência climática é um risco importante também, e que não vinha sendo considerado. Acho pouco provável que as empresas que estão à frente desse movimento altruísta hoje voltem a um patamar inferior ao que estão fazendo. A partir daqui, a régua vai ficar alta, porque isso vai começar a ser mais cobrado pela sociedade também. As empresas vão perceber que não é preciso chegar numa situação de crise para investir no colaborador, na comunidade e no país.



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