O fim da posse e a nova lógica do setor imobiliário - WHOW
Consumo

O fim da posse e a nova lógica do setor imobiliário

Startups estão desafiando a lógica centenária do setor de real estate ao trazer novos serviços e questionar algo que era tido como definitivo: eu preciso ter um lugar para chamar de meu?

POR Raphael Coraccini | 25/07/2019 20h12 O fim da posse e a nova lógica do setor imobiliário

A relação das pessoas e das empresas com o setor imobiliário está no turbilhão da mudança, como nunca se viu antes. A cultura do fim da posse, que deve se concretizar nos próximos anos, está trazendo cada vez mais pessoas para uma nova relação de consumo. E às empresas tradicionais resta a necessidade de encontrar soluções para não serem engolidas pelas startups de real estate que estão aparecendo e ganhando enorme participação no mercado e atenção dos investidores.

Flavia Mussalem, gerente regional do QuintoAndar, afirma que, transformar o processo de locação, é uma parte pequena do desafio que o QuintoAndar assumiu. “O segundo desafio é encontrar a casa que combine com o que a pessoa quer. Estamos começando a se aventurar a esse novo universo. Temos a Originals e através dos dados de milhares de imóveis já sei o que procuram em cada região. Com isso, oferecemos uma consultoria para que o imóvel dele seja desejado. Pode ser uma reforma simples ou colocando armários. Conseguimos saber isso por causa dos dados”, ressalta Flavia, ao destacar que essa otimização dá mais liquidez aos imóveis e adequa a oferta à demanda.

Outra empresa dedicada a melhorar a atratividade dos imóveis é a Loft, plataforma transacional de imóveis que compra, reforma e vende. “Damos liquidez porque paga à vista. E para quem compra, entregamos pronto para morar. Tem muito oferta de imóveis, mas poucos estão prontos para morar, com exceção das unidades novas”, conta Pricylla Couto, diretora de Inteligência de Marketing da Loft.

A startup de revenda de imóveis tem, atualmente, 60 reformas acontecendo simultaneamente e cada engenheiro da empresa fica responsável por oito a dez obras. “Os engenheiros têm um checklist de tarefas diárias a cumprir. Também contratamos diferentes empreiteiros capazes de entregar várias obras ao mesmo tempo”, explica Prycilla.O diferencial da Loft está no seu algoritmo criado pelo time de cientistas de dados da startup. A ferramenta imputa dados colhidos durante a visita técnica dos especialistas quando vão fazer a avaliação do imóvel. “Analisamos 50 itens, da vista à fachada, e através disso, saímos com o preço final de venda, comparando com os dados da região e o tamanho da necessidade da reforma”, explica.

Mudanças na decoração

Outra empresa ascendente na nova forma de utilizar imóveis e fechar negócios no setor é a Viva Decora – também ancorada na capacidade do seu algoritmo de entender a jornada de compra do consumidor. “Mapeando a jornada de compra, buscamos ajudar as pessoas a compararem produtos e serviços e fazemos isso também por meio de uma plataforma de conteúdo. Se eu fosse fazer uma comparação seria a de um grande shopping que vende produtos e serviços de todas as marcas, procura ter conteúdo e espaço de convivência. Tudo isso é feito no digital”, destaca.

imobiliaria3 Foto Unsplash

Como ficam as construtoras?

Romeo Busarello, diretor de Marketing e Ambientes Digitais da Tecnisa, destaca que a Loft, com seus poucos 11 meses de idade, vale três vezes mais que a Tecnisa, empresa de algumas décadas de vida e uma das maiores construtoras do País, avaliada em R$ 500 milhões na bolsa. Apesar dessa disparidade de valores diante dos novos entrantes, o executivo do real estate não crê que as construtoras estejam ameaçadas. “Sempre será preciso o tijolo, o que muda é o modelo de negócio. Nós estamos sentados em cima de um monte de salas comerciais, e entregamos três quando querem apenas uma. E mesmo assim, não fecham. As pessoas querem ir ao coworking. E quando olhamos para residenciais, a forma de viver também vai mudar substancialmente, mas vai demorar um pouco mais.”

“Sempre será preciso o tijolo, o que muda é o modelo de negócio”

Romeo Busarello, diretor de Marketing e Ambientes Digitais da Tecnisa

O executivo afirma que as empresas tradicionais inovam por três motivos: “medo, ambição ou preguiça. Invariavelmente, inovam por medo do concorrente. Nós inovamos por ambição”, diz. “Exceto na área de contabilidade, que não pode ser criativa, todos os outros setores precisam ser inovadores”, brinca.

imobiliaria2 Foto Unsplash

A Tecnisa tem um programa para startups realizado a cada 21 dias, quando a empresa recebe projetos de inovação. “Não somos investidor-anjo, somos clientes-anjo. Damos a oportunidade de as startups emitirem notas contra nós. Mais de 1.200 empresas participaram, mas fechamos apenas 85 negócios. No entanto, esses negócios aconteceram principalmente nos últimos 4 anos. O ecossistema de São Paulo não fica a dever para nenhum lugar do mundo”, avalia.

O executivo conclui alertando sobre a necessidade não só de o mercado de reinventar, mas os próprios executivos. Para ele, não são só as empresas que, se não se reinventarem, correm o risco de desaparecer. “Também, como diretor de Marketing, estou com os dias contados”, provoca.

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