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Exclusivo: de mau aluno a sócio do C6 Bank; conheça a história de Liao Yu Chieh

Liao Yu Chieh venceu o histórico de aluno preguiçoso, fundou uma edtech e hoje é sócio de um dos maiores bancos digitais do País, o C6 Bank

POR Raphael Coraccini | 24/09/2019 13h02 Exclusivo: de mau aluno a sócio do C6 Bank; conheça a história de Liao Yu Chieh Liao Yu Chieh, professor do Insper especializado em educação corporativa e novo sócio do C6. Foto (Douglas Luccena)

Nenhuma empresa entra no inóspito setor bancário sem uma grande ideia. A do C6 Bank é a gratuidade da maioria dos serviços oferecidos às pessoas físicas. Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC) apontou que a tarifa cobrada por grandes bancos que mais encareceu entre 2017 e 2019 bateu o valor de R$ 41,90. É nesse cenário de cobranças absurdas por serviços básicos que o C6 Bank espera ganhar terreno.

Além disso, o banco digital C6 compra briga com a maior fintech do Ocidente, o Nubank, ao oferecer saques gratuitos em terminais físicos. Enquanto o Nubank cobra R$ 6,50 por saque (custo de cada operação nos terminais 24 horas), o C6 oferece o serviço gratuitamente.

Para bancar essa grande ideia de zerar tarifas para Pessoa Física, o banco C6 aposta na sua força de venda de serviços para Pessoa Jurídica. É aí que entra a edtech Idea9, especializada em educação corporativa, que foi comprada pelo C6 Bank no último ano para ampliar seus serviços voltados às empresas. A startup, fundada por Liao Yu Chieh, e Veronica Odani, também fica responsável por treinar executivos e colaboradores do banco digital.

A Idea9 já trabalhava dentro do C6 Bank há mais de um ano, com cursos para executivos. “A Idea9 deu treinamento interno no C6 Bank e formou a primeira turma de consultores empresariais. O banco gostou da qualidade e disse que não queria treinar só os executivos, mas todos os outros. Chegamos a esse acordo, que culminou com a aquisição”, conta Chieh, ao Whow!, hoje sócio do C6 e head de Educação no banco.

c6 2 edit Imagem: Douglas Luccena

O empreendedor

Professor do Insper há 13 anos, Chieh, ganhou diversos prêmios por desenvolver a melhor didática no instituto antes de abrir a Idea9, em 2017. Engenheiro de formação, Chieh abandonou a carreira no mercado financeiro para se dedicar à tarefa de ensinar.

“Eu falei, agora quero ir para a minha paixão, que é ensinar, fazer aprender. Quero investir 100% nisso”
Liao Yu Chieh, sócio do C6 Bank

Já como professor do Insper, Chieh abriu uma consultoria, mas percebeu que só ensinando não conseguiria dar escala ao seu negócio. Além do que, a remuneração que recebia com o novo negócio e com as aulas no instituto estava muito aquém do que ele ganhava no mercado financeiro.

“Nessa consultoria, rapidamente eu iria bater no teto, ia causar uma estafa e mesmo assim eu ganharia uma fração do que eu ganhava como executivo. Era apaixonante, mas impossível de trabalhar só com isso. Como que eu consigo arrumar um modelo de negócio no qual eu consigo trabalhar com educação, mas que seja escalável? Eu e minha sócia chegamos a um modelo de escola de negócios que seria escalável”, relata Chieh sobre como surgiu o serviço de educação executiva por assinatura da Idea9.

Ao fazer as primeiras pesquisas sobre o mercado de educação corporativa, Chieh e Veronica tiveram que enfrentar uma barreira cultural, a preferência do executivo brasileiro pelo ensino presencial. Hoje, a Idea9 entrega mais de 70 cursos, a maioria presencial. “Criamos cursos de interesse, e os mais procurados são de finanças e comportamento. As empresas solicitam muitos cursos voltados para soft skills, ou seja, apresentação, comunicação assertiva, teatro para executivos, curso de improviso”, relata.

De mau aluno a professor

Chieh sempre teve incentivos dentro de casa para ser um aluno de destaque, mas a realidade apontava na outra direção. Durante o Ensino Médio, Chieh passava despercebido pelos professores. “Eles não sabiam meu nome porque eu nunca fui o aluno brilhante, nunca vi motivos para estudar apenas com o objetivo de passar de ano”, conta o atual professor. “Dada a minha origem chinesa que preza muito pela educação, eu via muito meus pais valorizando os colegas que passavam em medicina na USP e no Direito da Faculdade São Francisco. Eu não achava que tinha condição”, completa.

A necessidade de retribuir o apoio dos pais foi o motivo que levou Chieh a dedicar alguns meses de muito esforço diante dos livros ao fim do terceiro ano. O aluno pouco engajado se dedicou e, depois de concluir a escola, conseguiu passar no vestibular para engenharia na USP.

“Finalmente, entrei na Poli [Escola Politécnica da USP]”, conta. “Mas, depois, virei um aluno mediano de novo. No último ano eu tinha muitas matérias penduradas e via que todos os meus colegas iam se formar e eu passaria vergonha. De novo, dei um gás e me formei em cinco anos.”

c6 edit Começando a trabalhar no mercado financeiro, Liao entrou no MBA de finanças do Insper. Concluído o curso, o futuro CEO da Idea9 continuou dentro do instituto como professor monitor, dando aulas de reforço aos fins de semana. Com 30 anos, ele foi contratado como professor. “Eu era professor de finanças no Insper, onde só tem gente parruda, com pós-doutorado em Chicago. Mas eu não tinha nem mestrado. Trabalhava o dia inteiro no mercado financeiro e dava aulas à noite, de onde eu ia tirar um mestrado? Eu não chegava aos pés em conhecimento financeiro dos meus pares”, assume. “Pensei, ‘se eu não me diferenciar de alguma forma, eu vou ser despedido’”, conta o executivo.

A solução que o atual sócio do C6 encontrou para se manter como professor do Insper e se destacar no meio de um monte de especialistas foi desenvolver o que ele tinha de melhor, a didática. “Eu precisava fazer o meu aluno aprender o máximo possível por meio de comunicação, didática e técnicas de ensino”, diz o executivo. Além de tratamento fonoaudiológico, curso de oratória e retórica, Chieh assistia aulas de centenas de professores para desenvolver a didática.

O empenho no desenvolvimento da habilidade de ensinar rendeu a Chieh a premiação de melhor professor da pós-graduação do Insper em 2008, 2010, 2013, 2014, 2015 e 2016, uma startup de sucesso e o posto de sócio de um dos maiores bancos digitais do País.

Escalando

liao 2 editEntre o aluno mediano e o professor mais premiado no Insper, Chieh teve uma fase como habilidoso executivo do mercado financeiro, que rendeu a ele bons contatos entre investidores. Dedicado a abandonar sua carreira em finanças e se mover totalmente na direção do mundo da inovação, ele contou com a sua rede de contatos para ir atrás de dinheiro para sua empresa de treinamento de executivos. “Eu e minha sócia estávamos muito preparados para falar com investidores. Nossa estratégia foi pulverizar os investimentos por meio dos investidores-anjo. Poderíamos ter buscado um fundo, mas, geralmente, o fundo está interessado em um negócio que já esteja rodando, com cliente, modelo validado e valuation”, explica.

Os sócios reuniram 1,5 milhão de reais de 17 investidores-anjo antes mesmo de conseguir o primeiro cliente. A Idea9 foi fundada em 2017 e tinha break even previsto para 2019, que veio alguns meses antes. O retorno antes do planejado cancelou a necessidade de outras rodadas de investimento até que, em agosto deste ano, aconteceu a venda da empresa para o C6 Bank, com o banco C6 comprando todas as participações dos investidores-anjo.

Aulas via WhatsApp

Além de desenvolver a força de trabalho do C6 Bank, a Idea9 continua a treinar executivos e colaboradores em outras empesas. Mesmo com a aquisição, a edtech continua a ter autonomia na captação de clientes externos. E para ampliar o número de empresas em sua plataforma ela conta com o potencial inexplorado do WhatsApp.

A ideia é transformar grupos do aplicativo de mensagem em salas de aula, mas não com conteúdos programados para entrar e sair do ar em um determinado período. A ideia de Liao é oferecer aulas ao vivo com a participação em tempo real dos alunos.

“Estamos rodando essa criação da Idea9 de aula via WhatsApp que não seja num modelo estático no qual a plataforma funciona só como repositório de conteúdo”

São mais de 120 milhões de usuários do WhastApp no Brasil e um enorme potencial de exploração da plataforma na ascensão dos cursos à distância. “A gente desenhou metodologias próprias para ensino via WhatsApp com um professor e doutor de inovação da USP que atende em grupos do aplicativo como se fossem salas de aula, com interação por texto, vídeo, imagem ou áudio. Tudo em tempo real”, conclui.


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