Evino compra Grand Cru: o que está por trás da aquisição? - WHOW

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Evino compra Grand Cru: o que está por trás da aquisição?

Entenda a estratégia do e-commerce de vinhos que adquiriu uma tradicional rede de lojas deste setor

POR Vagner Jesus | 26/10/2021 13h22

Sou um grande apaixonado pelo mundo dos vinhos. Passei boa parte da minha vida estudando e vivendo esse assunto, desde uma pegada bem autodidata até me render ao ensino profissional, com cursos de ponta dentro e fora do Brasil. Até hoje, reservo um espaço em minha rotina para acompanhar as movimentações deste mercado.

Pois bem, quem costuma ler as notícias do mundo empresarial certamente viu o anúncio de que a Evino comprou a Grand Cru. Num primeiro momento confesso que a minha impressão foi: “Caramba, a banana de fato está comendo o macaco!”. 

Calma, vou te explicar o que isso significa mais a frente, até porque essa sensação também não durou muito tempo. Na sequência, já comecei a racionalizar o que estava acontecendo e quero, neste artigo, apresentar a vocês alguns achados importantes por trás dessa aquisição.

A compra anunciada não revela os valores da negociação, porém a expectativa de receita das duas empresas combinadas está na ordem dos R$ 700 milhões em 2021.

Vamos começar falando da Evino, empresa fundada em 2013, em São Paulo, por um pequeno time de apaixonados pelo assunto que resolveu compartilhar sua paixão difundindo a cultura do vinho no dia a dia dos brasileiros. Nitidamente, no início o foco era a briga por preço, trabalhando com ofertas diárias e kits promocionais.  O propósito era fazer grandes importações direto dos produtores e disponibilizar os vinhos a preços de entrada.

Do outro lado, temos a Grand Cru, a maior importadora e distribuidora especializada em vinhos de qualidade da América Latina. Fundada em 1998, foi expandindo sua operação e hoje conta com mais de 107 lojas em seu portfólio. Dessas, 90 são franquias, além de  outras 27 lojas com inaugurações previstas ainda para 2021

Esse é um daqueles casos em que a nova economia engole a velha economia e nos faz refletir sobre o assunto.

Imagine você que, em 2013, quando nascia a Evino, certamente o mercado estabelecido e já consolidado não reconhecia valor nessa entrada. Provavelmente nem deram muita atenção àqueles “meninos” que estavam fazendo um negócio para vender vinho pela internet.

Estamos falando de um mercado bastante tradicional, onde pegar a garrafa na mão era, e em alguma monta ainda é, um rito importante na equação (mesmo sabendo que isso tem mudado absolutamente com o tempo). Pense que certamente o mercado não deu nenhuma significância para aquele novo competidor que no futuro se tornaria um gigante com a possibilidade inclusive de abocanhar o negócio tradicional.

Quero te fazer refletir sobre como é o modus operandi da nova economia, mas antes, vamos alinhar esse conceito. Nova economia foi um termo cunhado ainda nos anos 1980 que descreve uma nova forma de fazer negócio utilizando para isso o desenvolvimento de tecnologia proprietária. Essa nova economia era formada por empresas com modelos de negócios digitais onde a premissa era a convergência de diversas inovações tecnológicas alimentadas ou potencializadas pela conectividade.

Na nova economia, alguns fatores são muito importantes para habilitar a escalabilidade (capacidade de um negócio crescer sem perder a premissa de qualidade e geração de valor para o comprador/usuário). Entre eles, ter uma atuação em toda jornada do consumidor é fundamental.

Com a compra da Grand Cru, a Evino não somente amplia seu portfólio para o fornecimento de produtos mais premium, como também amplia a sua capilaridade de atuação, unindo os ambientes físico e digital. Isto cria uma presença de negócio que o mercado tem cunhado como phygital.

Ser phygital é ter a capacidade de atender em ambiente físico (nas 107 + 27 lojas da Grand Gru) mas também em ambiente digital (usando a infraestrutura proprietária da Evino).

E por que é isso é importante? Porque existem clientes que querem comprar em ambiente digital, mas também há aqueles que preferem a compra presencial com o auxílio do sommelier na escolha, com a possibilidade de tocar a garrafa, ver o rótulo e escolher dentre as diversas possibilidades de rótulos, estilos, uvas, regiões e preços.

Um preceito muito importante dentro da nova economia é que, em geral, o empreendedor não busca o resultado imediato. Ele está pensando constantemente na geração de valor de longo prazo para que o cliente mantenha a compra constante e melhore seu engajamento com a marca. 

Por si só,  essa mentalidade torna-se uma grande vantagem competitiva para o negócio.  Quando a Evino desenvolve seu modelo de negócio focado no engajamento dos clientes, a briga deixa de ser pelo custo de aquisição do cliente e passa a ser pela longevidade deste no modelo de negócio, e por isso faz sentido eles pensarem em ampliar a atuação dentro da jornada do cliente, e assim estar presente em ambiente físico, digital ou os dois.

Gosto de pensar no motor que alavanca essa nova economia, que é a tecnologia. Ela impulsiona o crescimento do negócio, dando escala, dando repetitividade e gera valor por meio da produtividade. Certamente no caso da compra em questão os dois ambientes digitais devem convergir entre eles (a Grand Cru também tem plataforma de vendas online) e, nessa convergência, ganhos de sinergia e identificação de oportunidades certamente virão. Quem ganha com isso? O cliente certamente ganhará!

Quero terminar esse texto trazendo uma reflexão importante sobre esse caso. Veja como uma “simples” compra ou fusão de empresas geram material para refletirmos. 

Toda transformação tecnológica gera um espanto, um choque, um medo na sociedade ou no modelo que está estabelecido. Mas é natural que, com o passar do tempo, nós nos acostumemos com a mudança e ela deixe de ser algo que incomoda e passe a ser um hábito natural no nosso dia a dia.

E você está preparado para essas mudanças que a nova economia tem colocado? Quem será a próxima empresa tradicional a ser adquirida por um negócio baseado em tecnologia? Pense nisso…