Escola do Mecânico fomenta mercado com educação e empregabilidade - WHOW
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Escola do Mecânico fomenta mercado com educação e empregabilidade

Sandra Nalli, fundadora da Escola do Mecânico, revela a trajetória por trás da startup e fala sobre o futuro do setor de reparo e manutenção de automóveis

POR João Ortega | 25/11/2021 19h17 Escola do Mecânico fomenta mercado com educação e empregabilidade

Em um mercado dominado por homens, uma mulher empreendedora se destaca com empregabilidade, educação e impacto social. Sandra Nalli é fundadora da Escola do Mecânico, franquia de escolas que oferecem cursos de mecânica que formou mais de 30 mil alunos na área. Em dez anos de trajetória, a marca se consolidou como referência no setor de reparos e manutenção automotiva, que movimenta R$ 128 bilhões por ano no Brasil. Hoje, são 10 escolas próprias e 26 na rede de franqueados em nove estados. 

Sandra tem 20 anos de trajetória neste universo. Aos 14 anos, foi contratada como menor aprendiz em uma rede de oficinas mecânicas de Campinas. Quase uma década depois, já era gerente de uma das lojas. Ao mesmo tempo, realizava um trabalho voluntário dando aulas de mecânica na Fundação CASA, instituição de ressocialização de jovens infratores. Em 2011, ela percebeu que poderia causar ainda mais impacto positivo se montasse a sua própria escola. 

“Na empresa em que eu trabalhava, tinha uma necessidade absurda de contratar mão-de-obra e não encontrava. Comecei a ver na Fundação CASA que havia meninos que tinham força de vontade e poderiam ser incluídos no mercado de trabalho”, explica a empreendedora em entrevista exclusiva. Com recurso próprio, alugou um espaço em Campinas e chamou de Escola de Mecânico. Na época, pensava o local como um projeto social, mas, ao ver o crescimento da demanda, pensou que dali poderia surgir um negócio. Fez um curso do Sebrae para aprender o básico do empreendedorismo e, em março de 2011, abriu o CNPJ e começou a comercializar o curso. 

Empregabilidade: o sucesso do cliente

“Trabalho com classe C, D e E, pessoas de baixa renda”, diz Sandra Nalli. “Em 2014, comecei a me perguntar o que é sucesso para o meu cliente, o motivo pelo qual as pessoas compravam o curso. Percebi que o que este cliente queria era mudar de vida por meio do trabalho”. Nesse sentido, a empreendedora percebeu que a questão da empregabilidade seria um pilar essencial no negócio. 

“Peguei a lista telefônica e varri os sites de vagas de emprego para ligar para oficinas de mecânica automotiva e ofertar meus alunos como auxiliares de mecânica. Esse é o grande porquê da Escola do Mecânico”, revela a fundadora. Só que este formato não era escalável. Por isso, a solução foi usar tecnologia.

Assim nasceu o app Emprega Mecânico, que conecta os profissionais formados na Escola com o mercado de trabalho. “30% das pessoas que se cadastram no app conseguem um emprego. E o número real é ainda maior, já que tem empresas que não dão baixa na vaga e também as contratações informais”, diz a empreendedora. “Ainda é um mercado muito informal”. 

O aplicativo vem crescendo ano a ano. Na pandemia, houve um boom de vagas: cerca de 55% de aumento nas posições abertas. 

Além disso, a Escola do Mecânico também tem um viés de fomento ao empreendedorismo. A empresa mantém um pilar de capacitação comportamental em todos os cursos, e desenvolveu um curso focado na gestão de oficinas. Sandra Nalli também fez uma parceria com o Sebrae no Estado de São Paulo para incentivar este comportamento. 

“Com a parceria, os alunos podem fazer uma jornada de capacitação de gestão dentro das nossas escolas. Depois de cumprir a jornada, estes estudantes podem pleitear um crédito para poder montar sua própria oficina”, explica. 

Expansão da Escola do Mecânico

A ideia de crescer o negócio por meio de franquias surgiu em 2015, quando a empreendedora buscava expansão mas não tinha capital para suprir a demanda de novas escolas. “Começamos a franquear em 2016. Primeiro, montamos uma franquia própria, para entender se o plano de negócios estava realmente robusto. Depois de validado, vendemos duas franquias naquele ano”, revela. 

Outro componente da expansão foi a diversificação dos cursos. Hoje, a Escola do Mecânico oferece aulas para principiantes até especialização em tecnologia automotiva. O currículo engloba manutenção e reparo de carros de passeio, motocicletas e veículos pesados, assim como módulos focados em híbridos e elétricos e tecnologia embarcada. 

O modelo de negócio também foi ampliado para auxiliar no crescimento da marca. “Atendemos o mercado B2B, com um atendimento mais customizado para oficinas mecânicas, aplicando o treinamento para os profissionais na medida certa”, explica Sandra Nalli. 

Em 2020, o faturamento da rede da Escola do Mecânico cresceu 20%. A expectativa é de terminar esse ano com receita 55% maior do que no ano passado. 

Investimento e futuro

Neste ano, a Escola do Mecânico recebeu um aporte de R$ 1 milhão da Yunus Investimentos Brasil, organização fundada pelo banqueiro e economista Muhammad Yunus. Trata-se de um fundo voltado apenas a empresas que geram impacto social positivo. 

“O investimento representa muito para a gente, não só pelo dinheiro mas pelo impacto social que resultará dele. Agora, temos a responsabilidade de fazer o nosso plano de negócios apresentado ao Yunus dar certo”, diz a fundadora. 

Parte do recurso será investido em tecnologia, especialmente no aplicativo Emprega Mecânico, já que o pilar da empregabilidade é essencial para que o produto seja de fato uma solução para o cliente. Outra fatia relevante será aplicada em contratações. O restante vai ser distribuído em marketing e desenvolvimento de novos cursos para ampliar o portfólio.

A Escola do Mecânico continua se atualizando à medida que o mercado em que atua também se transforma. Cada vez mais o comportamento de uso dos carros mudam, com a economia compartilhada, assinatura de veículos e apps de mobilidade.  “Quantos motoristas de aplicativos as oficinas atendem hoje, que é um perfil de cliente muito diferente do consumidor que faz o uso pessoal do carro? Este profissional busca mais economia, manutenção preventiva”, explica Sandra Nalli.

“Já mudou muito o mercado. Temos visto cada vez mais marcas do setor automotivo chancelando oficinas mecânicas para oficializar um padrão de serviço. Acredito que o movimento será parecido com as farmácias de bairros, que estão sendo substituídas ou incorporadas por grandes redes farmacêuticas. Mas por conta da alta dos preços e dos apps, diminuiu a venda de carros novos e aumentou o tempo de uso dos carros. Isso é bom para o setor de reparação como um todo”, analisa a empreendedora.