‘Empreender não é para você’: a frase que inspirou empreendedor da periferia - WHOW

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‘Empreender não é para você’: a frase que inspirou empreendedor da periferia

Alexandre Simões transformou a frase em livro e revela, em entrevista exclusiva, os três sonhos que ainda tem como empreendedor

POR João Ortega | 07/10/2021 16h07

O empreendedor Alexandre Simões tem como propósito pessoal acabar com a regra da qual é exceção. Nascido na periferia da cidade de São Paulo, o estrategista em marketing digital acredita que empreender não deve ser um privilégio para poucos, e sim uma atividade possível a todos que a desejarem. Por isso, lançou em setembro, na cidade de Nova York, o livro ‘Empreender não é para você’ em que conta detalhes da sua jornada. 

Em entrevista exclusiva, Alexandre revela que o título da obra é uma frase que ouviu muito ao longo da sua história, e que outros jovens da periferia também podem escutar até hoje. O propósito do livro é concretizar sua própria trajetória ao mesmo tempo em que traz ensinamentos práticos sobre como montar um negócio, com linguagem acessível. “A ideia é ajudar pessoas que começaram de alguma forma meio desorganizada, ou quem quer empreender, mas paralisa diante das barreiras”, diz. 

Alexandre Simões é fundador da Alka Digital, agência de marketing com sede em Boston, nos EUA, onde vive atualmente, além de um escritório em sua cidade natal. Também é cofundador da NATV, um serviço de streaming com conteúdo para brasileiros que moram no exterior, entre outros negócios digitais. Conheça, a seguir, os principais momentos de sua trajetória no  empreendedorismo. 

Empreendendo no início da internet

A atitude empreendedora apareceu cedo na vida de Alexandre. Seu pai era zelador em um prédio de classe média-alta, e logo na infância montou uma pequena banca de jornal naquele local. Vendia as revistas em quadrinhos que já tinha lido, além de balas e chicletes que comprava a um preço menor.

Aos 17 anos, decidiu fazer um curso de tecnologia, o que logo impulsionou sua carreira. Na época, era bastante envolvido com os grupos de hip-hop da periferia de São Paulo, e criou um dos primeiros portais na internet sobre o tema: o Mundo da Rua. 

“Do portal, comecei a gerar negócios. A internet era algo muito novo para as pessoas. Comecei a usufruir do meu domínio das tecnologias digitais para ganhar dinheiro. Vendia anúncios no portal, criava pequenos hotsites para as bandas de hip-hop. Com o tempo, já trabalhava como empresário e profissional de marketing para bandas famosas no cenário do hip-hop nacional”, conta o empreendedor. No início dos anos 2000, ele já realizava projetos de marketing digital usando o nome Alka (que é a junção das primeiras duas letras de Alexandre e Kamila, sua então namorada e atual esposa). 

Mesmo naquela época, o empreendedor já tinha a visão de que o digital seria cada vez mais importante no contexto dos negócios. “Via o potencial da internet muito por conta da demanda que só crescia. A partir do momento que eu conheci a banda larga, entendi o quanto aquilo iria mudar toda a dinâmica do mercado”, explica. 

Hoje, é muito comum afirmar que toda empresa precisa ter presença digital. “No começo dos anos 2000, eu já dizia que quem não tem uma presença online não é uma empresa real”, afirma Alexandre, que empreendeu em diversos projetos digitais, inclusive alguns que foram à falência, antes de se mudar para os EUA em 2015. 

Da periferia de São Paulo aos Estados Unidos

Segundo o empreendedor, para o jovem nascido na periferia, especialmente na sua época, ir para o exterior era algo “proibido pelo próprio inconsciente”. Sua mudança para a cidade de Boston não foi algo previsto, mas sim uma viagem pouco planejada que se transformou em moradia.

Uma das razões para que ele e a esposa tenham decidido ficar foi a facilidade de empreender na cidade. Foi em Boston que eles formalizaram a marca Alka Digital e estabeleceram a sede da empresa. 

“Existe um ecossistema favorável para o empreendedorismo, seja pelo estímulo do governo, pelo acesso a crédito, pela facilidade em conversar com um investidor ou pelo próprio fato de as pessoas consumirem mais e estarem abertas a novos produtos e serviços. Vejo empreendedores abrindo novas lojas e crescendo rapidamente. A roda não para de girar nunca: tem apoio do sistema e tem consumo”, analisa Alexandre. 

O lançamento do livro, no entanto, aconteceu em Nova York e foi um momento de emoção para o empreendedor.  “Estava ali ocupando um espaço que um dia já foi inalcançável para mim, e é o berço do hip-hop, então foi algo bem simbólico”, explica. 

Foi nessa mesma viagem que Alexandre Simões estabeleceu seus objetivos para o futuro. O empreendedor viu o Madison Square Garden, uma das mais conhecidas arenas do planeta, com a marca da Hulu, streaming de filmes e séries norte-americano. Definiu, então, que uma marca sua iria estampar uma grande arena e patrocinaria o Corinthians, seu time de coração. “Na minha juventude, nunca consegui comprar uma camiseta oficial do Corinthians. Hoje, eu tenho uma coleção. É simbólico na minha jornada”. Na mesma cidade, gravou um vídeo em frente à bolsa de valores e projetou: “quero abrir capital de uma empresa minha”. 

Embora sejam objetivos difíceis, Alexandre Simões acredita que é possível alcançá-los com planejamento estratégico. “É o maior gargalo da maioria dos negócios. O conceito parece complexo, mas é só ter o entendimento de que é preciso traçar objetivos e definir como chegar até eles”, explica. Segundo o empreendedor, planejamento estratégico é o que evita que um empreendedor pegue um empréstimo quando poderia usar outras alternativas para levantar dinheiro, ou que o negócio morra porque não teve clareza de onde pretende chegar. 

Lições do empreendedorismo periférico

Na visão de Alexandre, o maior acesso a conteúdo sobre empreendedorismo na internet não é suficiente para que os jovens da periferia tenham as mesmas oportunidades daqueles que nasceram em cenários mais privilegiados. Por isso, bate na tecla da educação formal e busca fomentar os ecossistemas periféricos, seja por mentoria, criando conteúdo de fácil leitura ou até investindo. 

“Não faz sentido estar nos EUA, construindo as coisas que estou construindo e não contribuir para o sucesso das pessoas que vêm da origem, do lugar que eu venho. Poder compartilhar o conhecimento que eu tenho, contribuir com conteúdo real sem fórmulas mágicas, faz muito sentido para mim. Sempre estou procurando meios para que isso chegue nessas pessoas”, destaca o empreendedor. 

“Vemos hoje cada vez mais projetos que estão fomentando as startups que nasceram nas favelas. É impressionante o volume de dinheiro que circula nesses espaços”, diz Alexandre Simões, otimista. Estima-se que o poder de compra das favelas brasileiras seja de cerca de R$ 120 bilhões por ano. 

No entanto, o empreendedor não acredita que apenas o empreendedorismo de startup merece atenção. Para ele, qualquer negócio é válido, desde que esteja alinhado ao sonho daquele empreendedor. Se uma pequena loja, que atende a população local, é suficiente para determinada pessoa, sem problemas. Mas é preciso abrir a visão para que isso seja uma escolha, e não a única opção daquela população.

“Não acho que as pessoas têm que sonhar o meu sonho. Se elas entendem que o negócio delas naquele formato, naquele tamanho, é suficiente, está tudo certo. Agora, se elas querem levar a empresa para outro patamar, temos que ajudar. É importante contribuir e também respeitar o tempo e o espaço de cada pessoa. O caminho tem que ser saudável. Mas tenho o dever de mostrar como eu saí da periferia e construí essa história para quem também tem um sonho parecido”, finaliza Alexandre.