"Empreendedorismo social não é alternativa, é regra", diz Monique Evelle - WHOW
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“Empreendedorismo social não é alternativa, é regra”, diz Monique Evelle

Fundadora da plataforma Inventivos, que apoia empreendedores no início da jornada, fala em entrevista exclusiva sobre o contexto do empreendedorismo nas periferias

POR Daniel Patrick Martins | 30/09/2021 09h29 “Empreendedorismo social não é alternativa, é regra”, diz Monique Evelle

Confiança no negócio e autoestima são ingredientes indispensáveis na jornada empreendedora: é o que destaca a empreendedora Monique Evelle. Com mais de dez anos empreendendo, Monique Evelle, soteropolitana de 27 anos, jornalista e ativista, usa o aprendizado da própria trajetória para incentivar o empreendedorismo por onde passa.

Começou seu primeiro projeto acerca deste tema ainda quando estava na escola, em 2011, chamado Desabafo Social. Hoje, este projeto é um laboratório de tecnologias sociais aplicadas a educação e geração de renda. Somente em 2020, o negócio apoiou financeiramente mais de 3 mil pessoas em 460 cidades no Brasil, por meio de desafios sociais e criativos. Também deu suporte a mais de 40 iniciativas de comunicação nas periferias que estavam na linha de frente de combate ao coronavírus e às fake news.

Monique Evelle é sócia, há três anos, da Sharp, hub de inteligência cultural. Além disso, em 2020, junto com Lucas Santana, criou a Inventivos, startup que oferece, por meio de sua plataforma, mentorias, estratégias e conhecimentos de como ampliar fontes de renda, construir um negócio do zero e vender em escala.

A startup já recebeu investimento da Black Founders Fund, do Google for Startups, e, em pouco mais de um ano, mais de 1500 pessoas passaram pela formação de empreendedores, contando, além do Brasil, com outros países de língua portuguesa, como Cabo Verde, Moçambique e Portugal.

Também é autora do livro “Empreendedorismo Feminino: Olhar Estratégico sem Romantismo” e figura entre os 50 profissionais mais criativos do país pela Revista Wired. Em 2017, foi reconhecida uma das 30 jovens mais promissoras na lista ‘Forbes Under 30’. Já em 2019 se tornou LinkedIn Top Voices, e, neste ano de 2021, assumiu a coordenação do NuLab em Salvador, hub de tecnologia e experiência do cliente do Nubank, onde atua como consultora para ações internas e externas de diversidade e inclusão do banco digital.

E, para compartilhar um pouco mais sobre sua trajetória, nós da Whow! conversamos com a empresária sobre empreendedorismo social, ideias de negócios e perfil do empreendedor. Confira a entrevista a seguir:

Whow! – Como está hoje a percepção do empreendedorismo social e como ela mudou a partir da pandemia?

Monique Evelle: O empreendedorismo social não dá para ser apenas uma via, uma alternativa, uma possibilidade, e sim uma regra. Porque a gente entendeu na pandemia que pessoas são pessoas. As pessoas não são recursos, não são apenas consumidores. E outro ponto importante é esse lugar de criar soluções com mais agilidade, que faça sentido para a sociedade, para as pessoas, para o planeta, considerando o que a gente chama hoje de ESG. A periferia sempre pensou e começou a criar a partir disso, porque, infelizmente, também foi a partir da ausência que houve todas essas criações. Mas a gente está vendo aí um movimento importante que tira essa lente apenas da escassez, e começa entender a potencialidade e abundância disso, e o empreendedorismo social vira uma regra e não apenas uma alternativa, uma possibilidade.

Whow! – Há preconceitos em relação ao empreendedorismo?

Monique Evelle: Eu mesma tive muita aversão quando comecei a empreender, porque são sempre as mesmas pessoas nos holofotes falando o que a gente deveria fazer ou não, e também com a narrativa da meritocracia, como se todas as pessoas tivessem as mesmas ferramentas e oportunidades. Então, tem muita gente não conseguindo se sentir representada por muitas falas e pessoas, sobre tudo nesse novo universo que é a internet.

Whow! – É possível empreender em qualquer negócio?

Monique Evelle: Acredito que é possível empreender em qualquer negócio e também iniciar um empreendimento sem estrutura suficiente. Uma coisa é iniciar sem estrutura, mas se manter sem estrutura é inviável, é impossível a gente conseguir crescer, escalar de forma sustentável. E também mentalmente e emocionalmente é inviável para os empreendedores, porque vira um surto coletivo, e a gente sabe que sofremos de burnout, esgotamento por trabalhar demais. A gente precisa entender que sim, é possível empreender em qualquer área, mas considerando que não dá para criar uma narrativa que continue sem estrutura.

Whow! – Como ficam as questões sociais, culturais e de gênero ao empreender?

Monique Evelle: Eu, enquanto mulher preta, sou empreendedora, mas também sou uma mulher, negra e nordestina, e isso me atravessa o tempo todo. Então, situações de racismo, de machismo, a gente passa o tempo todo, independente se é na jornada empreendedora ou fora dela. Não existe hierarquias de opressões. Não dá para acordar e, por exemplo, olhar para o meu negócio e ignorar que sou uma mulher preta. Não dá. Porque toda hora a gente tem uma notícia de racismo. E isso impacta diretamente na nossa produtividade e no nosso índice de felicidade, se a gente vai contribuir em movimento ou não. Então, a gente não pode desconsiderar essas questões sociais, raciais, culturais e de gênero, porque a gente se movimenta e cria soluções de acordo, também com nossas experiências e com nossas vivências. Todas essas lentes precisam ser compreendidas quando a gente está criando negócios.

Whow! – De onde vêm as suas ideias de negócios e o que te faz se associar a uma empresa?

Monique Evelle: Eu crio soluções pensando na realidade em que vivo e também considerando aquilo que tenho de expertise para falar. As ideias vêm muito desse lugar de como transformar nossos saberes em fonte de renda. Como é que a gente consegue fazer com que as pessoas saiam deste lugar de empreendedorismo por sobrevivência e vão para um caminho do empreendedorismo com autonomia, transformando o que sabe fazer em sua principal fonte de renda, mesmo que não tenha uma estrutura inicial? Não precisa ter inicialmente a estrutura, mas a gente precisa começar a preparar o terreno para ter estrutura e garantir sustentabilidade do negócio e chegar até a fase, caso a pessoa queira, no modelo de negócio, de captação, de rodadas de investimento. Então, isso também veio muito no lugar de como é que a gente populariza e democratiza esses conhecimentos através de uma linguagem que a maioria das pessoas entendam. É muito sobre decodificar ferramentas, conhecimentos para outros empreendedores. Assim surge a construção do Desabafo Social e, dez anos depois, a empresa se torna um laboratório de tecnologias sociais aplicadas a educação e geração de renda. Surge a Inventivos, que é essa plataforma exclusiva e completa de formação de empreendedores nos países de língua portuguesa. E ser sócia da Sharp vem muito no lugar de como é que me associo a negócios em que realmente acredito e que podem também transformar realidades de mercado e de sociedade.

Whow! – Como as pessoas percebem a questão do empreendedorismo e o mundo dos negócios?

Monique Evelle: Muita gente não se considera empreendedora ou empreendedor. Porque acredita que empreender é quando você realmente consegue faturar não sei quantos milhões e a realidade não é essa. Existe ainda um receio de se auto intitular empreendedor por conta dessa recusa e por não conseguir se ver nas narrativas vendidas na internet, em eventos e assim por diante. Demora para começar a entender que empreender é realmente dar vida a uma ideia, formatar uma ideia e transformar em um negócio daquilo em que você acredita. Você não precisa abrir mão dos seus valores, suas crenças; não sendo limitantes, está tudo bem. Você seguir nesse caminho e também mudar o mundo e ganhar dinheiro ao mesmo tempo. Porque quando a gente fala em empreendedorismo, esquece que pode ser de impacto social também. Então, tirar esse imaginário e reconstruir outros imaginários de empreendedores. Existem outros caminhos. A gente começa a ver esse lugar da representatividade e faz com que a gente saia da representatividade e vá para o que chamo de proporcionalidade. Então, as pessoas começam a entender que podem construir outros imaginários de empreendedorismo a partir do momento que enxerguem outras pessoas que se parecem com elas e vieram de lugares semelhantes, inclusive.

Whow! – Há um perfil para ser empreendedor?

Monique Evelle: Infelizmente, as pessoas que vivem nos novos centros urbanos, que significa periferias e favelas deste país, criam por conta da ausência de políticas públicas, da ausência de investimentos e não se veem como empreendedores e empreendedoras. Toda hora estão tentando apagar incêndio. Porque no final do dia não estamos sendo remunerados por aquilo, mas queremos criar soluções para nossa quebrada, para o nosso território, para nossa periferia. Quando eu falo isso é porque, claro, é muito mais propício para quem já tem estrutura, investimento, rede de contatos, acesso a investidores, acesso a potenciais parceiros, fazer seu negócio prosperar e já se entender como empreendedor, como empreendedora. A gente só consegue fazer aquilo que a gente já viu. Se a gente não tem referência, a gente não vai se movimentar. A ausência de referência faz com que a gente negue o que somos. Então, a ausência de referência faz com que a gente não se auto intitule empreendedor, empreendedora e muito menos a gente consiga sustentabilidade nas coisas que a gente está criando.

Whow! – Quais seriam as dicas para quem quer empreender?

Monique Evelle: A primeira é começar com o que tem nas mãos. Se eu quero começar a criar um site de conteúdo, por exemplo, quais são as plataformas gratuitas para começar? A partir disso, olhando para o lado, será que tem alguém que poderá me ajudar? A pessoa não pode me ajudar, mas essa pessoa conhece alguém que poderá me ajudar. Então, começar a fazer a lista mesmo das possibilidades de contato que a gente tem, por mais que acredite que só tenha um contato, esse contato pode levar para outras pessoas. E as parcerias. A gente pede ajuda, mas é bom ter esta estratégia. Parceria é uma troca. Como é que cada um pode contribuir nessa jornada? Começar a criar estratégias e laços de confiança para ser um ganha-ganha. O que eu tenho para contribuir e o que você tem para me dar também, aí começa essa rede se fortalecer.

Whow! – A partir de sua experiência, que olhares poderia nos dizer sobre o empreendedorismo feminino e o empreendedorismo negro?

Monique Evelle: Quero ser vista como alguém por trás de iniciativas bem sucedidas. Criar projetos e negócios alinhados a esse novo mundo. Esse novo mundo é plural. Esse novo mundo é de impacto positivo, é de impacto social. Também acredito que o empreendedorismo já é negro e feminino. A realidade do Brasil é essa. A gente pode até não se intitular como empreendedoras, como empreendedores. Mas somos. Estamos criando soluções, estamos empreendendo nossas vidas e transformando ideias em negócios. Tenho trabalhado para isso. Agora, não dá mais para gente acreditar que apenas há um único jeito, uma única forma de fazer. A gente precisa encaixar esse quebra-cabeça. A gente sabe das dificuldades de empreendedores negros. Fizemos uma pesquisa onde o resultado foi que o empreendedorismo negro é feminino e solitário, mas não precisa ser. A gente só precisa fazer com que essas mulheres negras e empreendedoras consigam entender e acessar mais rapidamente redes de apoio. Na Inventivos, a gente tem esse lugar de empreendedores apoiando empreendedores. Então, é muito mais sobre isso de como é que a gente populariza as iniciativas já existentes e apoia também, porque as iniciativas precisam continuar acontecendo.