Empreendedorismo feminino e a cultura “We Can Do It!" - WHOW
Pessoas

Empreendedorismo feminino e a cultura “We Can Do It!”

O mercado nunca viu tantas mulheres empreendedoras quanto hoje em dia – mas, estatisticamente, a desigualdade de capital e falta de oportunidades ainda imperam

POR Carolina Cozer | 20/09/2019 16h33 Empreendedorismo feminino e a cultura “We Can Do It!”

Nunca houve tanto espaço para mulheres empreendedoras no mundo corporativo quanto em 2019. Segundo estatísticas publicadas na revista Fortune, em junho, pela primeira vez na história, 33 das empresas com maior receita do ano são lideradas por mulheres.

São boas notícias, e mostram que há cada vez mais espaço para mulheres recorrerem ao empreendedorismo como meio de subsistência.

O relatório State of Women-owned Businesses Report de 2018 aponta que as empresas pertencentes a mulheres, nos Estados Unidos, geram US$ 1,8 trilhão em receita anualmente, e empregam 9,2 milhões de pessoas. Isso significa um aumento de 3.000% nas estatísticas de 1972 para cá.

EMPRESAS PERTENCENTES A MULHERES GERAM US$ 1,8 TRILHÃO EM RECEITA ANUALMENTE E EMPREGAM 9,2 MILHÕES DE PESSOAS NOS ESTADOS UNIDOS

Mas nem tudo é o que parece. Apesar do enorme crescimento, apenas 3% das empresas financiadas por venture capital têm CEOs do gênero feminino.

Os investidores masculinos têm uma probabilidade muito maior de investir em startups dirigidas por pessoas de sua própria “tribo” – fazendo com que as empresas de mulheres não tenham as mesmas oportunidades de lançamento. Quando o assunto são as negras, os números são ainda menores: apenas 53% das CEOs são caucasianas.

O portal Business News Daily, além de analisar dados e estatísticas reais do mercado, entrevistou mulheres CEO de diversos segmentos para descobrir os maiores desafios encontrados no caminho do empreendedorismo.

DESAFIAR EXPECTATIVAS SOCIAIS

Falta de empreendedoras induz a ideia de que, para serem bem-sucedidas, precisam adotar uma postura tipicamente “masculina” – agressiva, severa e competitiva;

LIDAR COM ACESSO LIMITADO A FINANCIAMENTOS

Menos de 3% das empresas financiadas por venture capital têm CEOs do gênero feminino;

LUTAR PARA SER LEVADO A SÉRIO

Domínio masculino faz com que papéis de liderança femininos muitas vezes não sejam valorizados;

TOMAR POSSE DAS PRÓPRIAS CONQUISTAS

Mulheres involuntariamente subestimam seu próprio valor, enquanto homens costumam supervalorizar suas capacidades;

CONSTRUIR UMA REDE DE SUPORTE

O fato de existirem poucas consultoras e mentoras disponíveis limita o crescimento profissional de mulheres empreendedoras;

EQUILIBRAR NEGÓCIOS E VIDA FAMILIAR

Mães empreendedoras precisam lidar com jornadas duplas ou triplas para dedicar tempo ao trabalho e à família;

LIDAR COM O MEDO DO FRACASSO

 Lidar com a possibilidade de falha se torna ainda pior quando há um background de insegurança e desvalorização comercial.

Liderança feminina no mercado das finanças

800px Women in Economic Decision making Christine Lagarde 8414041294

Christine Lagarde, ex-ministra de Finanças da França e ex-Diretora do Fundo Monetário Internacional (IMF) – dois cargos do qual foi a primeira mulher a ocupar – foi indicada na última terça-feira (17) para a presidência do Banco Central Europeu (BCE). Ela contou, em uma entrevista à CNN, que foi altamente desencorajada a buscar liderança profissional no início de sua carreira como advogada:

“Quando eu me inscrevi no maior escritório de advocacia de Paris, me disseram que eu seria uma ótimo recruta, e que receberia bons trabalhos para fazer – mas que eu nunca deveria esperar desenvolver parcerias, porque era mulher.”

Ela continua: Pensei comigo mesma: ‘Vocês não me merecem.Estou indo embora.’ E tive uma sensação de liberdade extraordinária, descendo as escadas de lá e pensando: ‘O que eu faria nesta empresa? Por que trabalharia com esse tipo de atitude?”.

Anos mais tarde, ela não apenas desenvolveu parcerias, como se tornou presidente de um escritório de advocacia, o que abriu portas para se tornar ministra, presidente da IMF e, agora, postulante a um dos cargos mais importantes do universo das finanças europeu.

Responsabilidade na capacitação de mulheres

Web Summit 2017 Press Conferences CG1 7761 37552444754 copiar

Gillian Tans foi a primeira mulher CEO da Booking.com, em 2016. Sob sua liderança, uma das maiores empresas de travel tech do mundo expandiu as operações da Holanda para 224 países ao redor do globo. No ano em que assumiu o cargo, seu salário disparou para US$ 17 milhões ao mês.

Apesar de ter saído da Booking neste ano, ainda é grande incentivadora para que mulheres busquem carreiras em posições de liderança na tecnologia.

Na empresa, liderou diversas iniciativas para trazer mais mulheres para funções técnicas dominadas quase que totalmente por homens, como TI e operações.

Uma dessas iniciativas foi desenvolver uma parceria com inúmeras universidades, oferecendo bolsas de estudos para mulheres em graduações e pós-graduações de ciência da computação, engenharia, tecnologia e matemática.

Ela comentou, em uma entrevista a YouStory, sobre sua preocupação com a falta de representatividade feminina na tecnologia, pois o reforço dos estereótipos de gênero na área pode afastar ainda mais mulheres destas carreiras.

“Isso pode levar mais mulheres a pensar que esse caminho não é possível. É por isso que continuo pressionando a mídia para mostrar, também, mais mulheres [na tecnologia]”.

Em uma conversa com a Economic Times,  acrescenta:

“Como uma das poucas CEOs do setor de tecnologia, sinto um senso de responsabilidade em ajudar mulheres a mostrar que tudo é possível neste setor, e em negócios mais amplos. Ainda há muito a ser feito”.

Empreendedorismo trans

Empreendedorismo femininoSe há poucas oportunidades para startups lideradas por mulheres, há menos interesse por parte do mercado quando essas mulheres são trans: não há números significativos no mercado que indiquem um impacto desse perfil na economia.

“Normalmente, pessoas trans não estão nas famílias e têm uma evasão escolar muito grande. Então, também não estão estudando com as pessoas e, consequentemente, não estão nos locais de trabalho. Isso cria uma série de vieses inconscientes e de estigmas que a gente tenta combater”, comentou Maite Schneider, empresária transgênero e fundadora da Transempregos, em uma entrevista à 99 Empregos.

A Transempregos foi fundada em 2013, e é o maior banco de dados de currículos e vagas para transgêneros no Brasil, e já empregou e capacitou milhares de pessoas no país. Mas ainda é um caminho muito longo para que o mercado se abra para a diversidade.

A Rede Nacional de Pessoas Trans (RedeTrans) comenta que 82% dos adolescentes trans abandonam os estudos, e apenas 10% desse grupo têm empregos formais. E quando tem, são muitas vezes subempregos, de capitalização inferior, dificultando a abertura para o empreendedorismo.

FORA DA CURVA

Empreendedorismo feminino

A empresária multimilionária Martine Rothblatt é um caso fora da curva. É a mulher mais bem-paga dos Estados Unidos, e é transsexual em um casamento homoafetivo. Sua fortuna está avaliada em US$ 320 milhões, e também foi nomeada como a principal CEO da indústria farmacêutica em 2018.

Sua empresa de biotecnologia foi fundada para salvar sua filha, que corria risco de vida com uma doença que não tinha tratamento. Martine também fundou a Sirus XM, empresa de radiodifusão via satélite que está avaliada em US$ 21 bilhões, e investe em pesquisas de inteligência artificial para, um dia, poder libertar os humanos de seus limites biológicos – como gênero, infertilidade, câncer e demais doenças, mas também da morte.

“Toda pessoa tem o direito de viver o quanto quiser, e minha religião é a ciência, que permite que as pessoas façam isso”


+ NOTÍCIAS

Whow! 2019 premia as mulheres mais inovadoras do ano
Há pouquíssimas mulheres entre os investidores-anjo brasileiros
Conheça as startups africanas que inovam no continente