Economia compartilhada cresce dentro das empresas - WHOW

Eficiência

Economia compartilhada cresce dentro das empresas

Após uma onda de negócios de compartilhamento entre indivíduos, mundo B2B começa a olhar para a rentabilidade dos próprios ativos

POR João Ortega | 29/09/2021 11h41

Economia compartilhada é o modelo econômico que busca maximizar a eficiência dos ativos por meio do compartilhamento destes entre diversos agentes. Estamos falando de propostas de valor como a do Airbnb e do Uber, que rentabilizam casas e carros, respectivamente, em momentos que estariam, na economia tradicional, vagos e sem uso. 

Trata-se de um movimento que se intensificou desde a crise de 2008, quando o compartilhamento tornou-se uma fonte importante de renda para uma parte relevante da população. 

Mais recentemente, a economia compartilhada passou a ser adotada por empresas, e não apenas pelos indivíduos. Podemos citar, neste sentido, o modelo de coworking, ou seja, de compartilhamento dos espaços de trabalho. É uma forma de estar bem localizado dentro das cidades, em um local próprio para realizar as atividades profissionais, mas sem o custo e a dor de cabeça de montar um escritório próprio. 

No entanto, há diversas possibilidades de compartilhamento para as quais as empresas não olham – ou não costumavam olhar. Um movimento de novos negócios busca repensar o uso de ativos empresariais para reduzir custos e posicionar seus clientes B2B como promotores da sustentabilidade. 

Com o compartilhamento B2B, as empresas podem focar em ter a posse apenas dos ativos essenciais para suas operações. O restante é utilizado sob demanda ou por assinatura, por meio de startups que atuam com a economia compartilhada. Esta prática é ainda mais interessante para os pequenos negócios, que conseguem manter uma operação enxuta e focar apenas no que é core, ou seja, central para a empresa. 

Compartilhamento dentro da empresa 

Uma das formas de adotar a economia compartilhada no contexto empresarial é promover este compartilhamento entre os colaboradores de uma mesma empresa. Portanto, este modelo visa reduzir o número de ativos em posse da companhia, fazendo com que eles passem mais tempo usados pelos funcionários e menos tempo ociosos. 

É o caso da Joycar, que criou uma solução de gestão de frotas de veículos compartilhados. A proposta é que os clientes da startup, que podem ser empresas de qualquer tamanho, possam ter um número menor de carros, mas que, por meio da tecnologia, eles possam ser compartilhados entre os colaboradores de maneira mais eficiente. 

“Levar a cultura do carro compartilhado para dentro das empresas gera uma economia tremenda e entrega uma solução mais sustentável por reduzir o número de carros nas ruas”, diz Rafael Taube, fundador da Joycar, em entrevista exclusiva. “Promove para o colaborador da empresa uma experiência melhor e para o gestor de frota a possibilidade de acompanhar todos os dados sobre carros e usuários em tempo real”.

A startup não é dona dos carros. Ela apenas instala um hardware nos veículos da própria empresa cliente e fornece um software para que o gestor da frota possa ter controle sobre a operação. “Sem controle, podem surgir surpresas desagradáveis, desde uma multa de trânsito que não se sabe quem levou, que no caso de um carro corporativo pode custar muito caro, até a dificuldade de manter a manutenção em dia”, explica o empreendedor. 

Rafael Taube destaca que o compartilhamento é interessante inclusive para pequenas empresas, mesmo que já tenham uma frota bastante reduzida, com apenas um ou dois veículos, por exemplo. “Por menor que seja a empresa, é possível que os veículos estejam sendo mal utilizados. Muitas vezes o gestor da frota, nesses casos, é o próprio empreendedor, e ele não tem tempo para ficar lidando com essas questões”, explica. Nesse sentido, a Joycar está sempre buscando soluções que facilitem a vida deste gestor. “Quando um carro atinge 10 mil km, por exemplo, o sistema já pode disparar um email automático direto para a oficina, que vem buscar o carro para fazer a revisão”. 

Quando se olha para fora do Brasil, já é possível notar que a economia compartilhada está mais disseminada no contexto B2B. Um dos exemplos mais interessantes é a Floow2, uma empresa de tecnologia holandesa, mas com atuação em toda a União Europeia. A startup desenvolve marketplaces de compartilhamento customizados para cada empresa, ou mesmo para uma comunidade de empresas. Assim, os colaboradores podem acessar a plataforma, escolher os produtos ou ativos que desejam utilizar e reservá-los por um período determinado. Ou seja, trata-se, como a Joycar, de uma startup que usa tecnologia para a gestão dos ativos que serão compartilhados.

Compartilhamento entre empresas

Um passo adiante na “intensidade” do compartilhamento é dividir os ativos entre empresas diferentes. Neste caso, é preciso estar atento a algumas questões específicas, como, por exemplo, a privacidade dos dados de uso. É o que pondera Rafael Taube: “Tem o desafio da privacidade, mas vai depender do que é compartilhado e o quão relevante é a informação. É diferente compartilhar um computador, que tem vários dados sensíveis, ou uma mesa em um coworking, por exemplo”. 

Segundo o empreendedor, a Joycar pode se tornar uma ferramenta para gestão do compartilhamento de frotas entre empresas diferentes. Mas só daqui a alguns anos, já que a startup está focada no modelo atual. 

No entanto, existem alguns players no Brasil que já atuam com a economia compartilhada B2B entre empresas diferentes. Este movimento é mais forte na indústria, em que os ativos são caros e a capacidade ociosa é alta. É o caso, por exemplo, da Peerdustry, que se posiciona como “a fábrica virtual sob demanda”. 

O modelo da startup funciona da seguinte forma: uma empresa que consome peças usinadas entra na plataforma da Peerdustry, que por sua vez a conecta com uma indústria com capacidade de produzir as peças solicitadas com a capacidade ociosa de seu maquinário. De um lado da ponta, não há necessidade de ter máquina própria; do outro, dá rentabilidade a um ativo que estaria subutilizado. 

A Bee2Share é outra startup brasileira que atua neste segmento. Autoproclamado o “maior parque fabril do mundo”, trata-se de um marketplace em que as fábricas oferecem a capacidade ociosa de suas máquinas. Toda a negociação é feita entre as empresas interessadas, sem intermédio da startup. 

Por último, é essencial destacar a XporY, uma das grandes referências na economia colaborativa B2B. Embora não esteja focada no compartilhamento em si, a startup permite que empresas acessem produtos e serviços de outras empresas por meio da permuta bilateral. Ou seja, todas as transações acontecem sem dinheiro, apenas com um crédito interno da plataforma. É uma forma de rentabilizar capacidade ociosa, obter produtos ou contratar serviços relevantes sem investir capital. Vale a pena assistir ao episódio #17 do Whow! Vida Loka Podcast, que teve o convidado Rafael Barbosa, fundador da XporY.