Demissões em startups geram dúvidas sobre a saúde financeira - WHOW
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Demissões em startups geram dúvidas sobre a saúde financeira

Cortes recentes no Gympass e C6 Bank levantam a dúvida. Especialista explica o que é, para uma startup, ser saudável financeiramente

POR Adriana Fonseca | 14/04/2020 13h00 Demissões em startups geram dúvidas sobre a saúde financeira Arte Grupo Padrão (@flaviopavan_76)

A crise acarretada pela Covid-19 mal se instaurou no Brasil e algumas grandes startups anunciaram demissões. Foi o caso do Gympass, plataforma de benefício corporativo de atividade física, e do banco digital C6 Bank.

Chamado de unicórnio ao ser avaliada em mais de US$ 1 bilhão em junho do ano passado, quando recebeu um aporte de US$ 300 milhões, o Gympass não informou quantos funcionários demitiu – uma fonte que não quis tornar seu nome público e que estava na lista de demitidos, no entanto, conta que foram cerca de 200 pessoas cortadas. Questionada, a assessoria de imprensa respondeu apenas o seguinte, ao Whow!: “com relação ao número, não temos a quantidade exata”.

“Ninguém esperava [os cortes]”, contou o ex-funcionário, ao Whow!, que ressaltou que todos tinham registro em carteira e que vão continuar com o plano de saúde por dois meses. 

Antes do aporte que o tornou um unicórnio, o Gympass havia recebido outras quatro rodadas de investimento, segundo dados armazenados no CrunchBase, mas os valores não foram revelados. 

Outra startup que foi pelo mesmo caminho foi o C6 Bank. Com mais de mil funcionários, demitiu 60, segundo sua assessoria de imprensa. “Com a parada da economia, fizemos um ajuste nas áreas”, resumiu-se a comentar ao Whow!.

Fundado em 2018 por ex-executivos do banco BTG Pactual, o C6 Bank iniciou sua operação com capital social de R$ 250 milhões, segundo reportagem da Exame, e investimentos dos acionistas somariam mais R$ 500 milhões até dezembro daquele ano. 

Na demonstração financeira disponível no site do banco, no exercício que se encerrou em 31 de dezembro de 2019, o C6 Bank possuía R$ 335,6 milhões de patrimônio líquido, R$ 1.312,4 milhões de captações com clientes (CDBs, Letras Financeiras e Deposito à Vista) e R$ 152,2 milhões de operações de crédito ou com característica de crédito. O prejuízo líquido foi de R$ 186,9 milhões, decorrentes de investimentos feito pelo banco ao longo do ano para lançamento do seu aplicativo e evolução de produtos e experiências a seus clientes.

Em janeiro de 2020, o C6 Bank anunciou a marca de 1 milhão de correntistas. 

startups Foto ilustrativa (Pexels)

Startup: o que é ser saudável financeiramente?

Diante de aportes milionários e avaliações bilionárias (caso do Gympass), quando uma startup decide demitir ao menor sinal de crise – por mais grave e sem precedentes que ela seja –, levanta um questionamento: serão as startups saudáveis financeiramente?

Uma avaliação recente da plataforma americana CB Insights sobre o impacto do coronavírus nas fintechs levantou um ponto relevante. 

“Uma fuga do dinheiro significa que as fintechs terão que apertar os cintos e se concentrar mais na lucratividade e no fluxo de caixa positivo do que no crescimento a todo custo. Isso representa uma mudança acentuada em relação à década passada, quando as empresas levantaram grandes quantidades de capital sem demonstrar lucratividade.”

Pela análise, entende-se que as fintechs (e por que não as startups de um modo geral) vêm trabalhando com um fluxo de caixa prejudicado, para favorecer o crescimento rápido e exponencial. 

Será isso saúde financeira? 

“Startups e unicórnios são empresas como as outras, então uma crise como a atual influencia de forma direta seus resultados também”

Rubens Massa, professor do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da FGV

“Mas essas organizações [startups] são criadas para serem escalonáveis, terem um crescimento rápido e desproporcional, por isso elas recebem muito aporte, para que o crescimento se acelere. Quem investe nessas empresas sabe que existe um risco maior envolvido, porque a maioria das hipóteses não é testada organicamente, no dia a dia, são hipóteses geradas em testes artificiais ou na mente de quem criou o projeto”, explicou Rubens Massa, professor do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da Fundação Getulio Vargas (FGV), ao Whow!. “Geralmente, há investimento grande no ‘back office’, em pessoas envolvidas no projeto que dão credibilidade a ele. A forma de avaliar a contabilidade nessas empresas é, portanto, diferente da forma de avaliar a contabilidade em uma organização tradicional.”

Rubens continua: “Para startups que já são ‘scale ups’, ser saudável financeiramente não significa, necessariamente, ter um bom fluxo de caixa, mas sim estar trabalhando em uma curva de crescimento dentro do esperado e se expandindo continuamente.”

Do ponto de vista financeiro, segundo o professor, o maior cuidado que uma startup precisa tomar é a busca pela testagem constante de seu modelo de negócio para evitar receber aportes grandes em um modelo frágil e pouco testado.

“Ao crescer muito rapidamente dessa forma, crescem junto os problemas que não foram amadurecidos, a instabilidade do modelo e o despreparo da equipe”

Rubens Massa, professor do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da FGV

“Isso faz com que, lá na frente, o negócio se desmistifique, vá perdendo credibilidade e deixando de conseguir o capital necessário para escalar o negócio na velocidade esperada”, completou Rubens.

Necessidade de amadurecimento

De acordo com o especialista, esse é um problema das startups no mundo de forma geral. “É inerente ao modelo. Mas, especificamente no Brasil, de forma geral, existe um nível baixo de amadurecimento das startups, mesmo com o ecossistema crescendo, é um amadurecimento menos avançado do que outros lugares mais avançados, como Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha e China.”

Voltando às demissões, no mesmo e-mail em que mandou o comunicado lamentando os cortes – “a decisão mais difícil de todas” –, o Gympass escreveu o seguinte:

“O Gympass é hoje um dos unicórnios mais promissores da nova economia. É a única startup presente em 14 países e em todas as regiões do Brasil, e foi umas das empresas que mais rapidamente estruturou medidas para apoiar as três pontas do seu modelo de negócio, formado por empresas, usuários e parceiros de fitness, para tentar mitigar os efeitos provocados pela pandemia do novo coronavírus. Até agora, foram tomadas seis medidas super bacanas que vão possibilitar aos usuários manter-se ativos e saudáveis e às academias continuarem gerando receita e promovendo conteúdo relevante para toda sua base.”


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