“Fazer comida em casa será tão desnecessário quanto fazer a própria roupa”, diz CEO da Movile, dona do iFood - WHOW
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“Fazer comida em casa será tão desnecessário quanto fazer a própria roupa”, diz CEO da Movile, dona do iFood

Em sua sede, a empresa tem um pequeno museu com itens bem comuns a todos os consumidores, até aos mais jovens e digitais. O fogão é um deles

POR Raphael Coraccini | 30/10/2019 11h00 “Fazer comida em casa será tão desnecessário quanto fazer a própria roupa”, diz CEO da Movile, dona do iFood

A Movile, empresa de venture capital e dona do iFood, surgiu em 1998, quando o celular ainda era um item de luxo, os pedidos de delivery de comida se restringiam somente à pizzaria da esquina e o Brasil tinha entre bancos e estatais de commodities as empresas de maior valor de mercado.

Vinte e um anos depois, só uma coisa entre essas não sofreu alteração. Enquanto o comportamento do consumidor se tornou em grande parte digital e sua vida gira em torno de um smartphone, o Brasil continua apostando na economia do século 20.

Para Fabrício Bloisi, fundador e CEO da Movile, essa paralisação tem prazo para acabar sob pena de o País ficar para trás em segmentos onde têm potencial para liderar o mercado mundial. O de delivery é um deles.

Esse potencial pode virar um pesadelo se as empresas do setor não se prepararem para uma avalanche de novos consumidores que deve invadir o mercado nos próximos anos, com pessoas recorrendo cada vez mais a serviços de delivery alimentar.

iFood Foto Midori de Lucca (divulgação iFood)

Fim do fogão?

Hoje, o iFood faz entregas para o mesmo usuário três vezes ao mês. Isso pode chegar a 90 vezes ao mês, segundo o CEO com o apagamento da cultura de fazer a própria comida.

Antes de essa cultura ser enterrada, o iFood já a colocou no passado. Em sua sede, a empresa tem um pequeno museu com itens bem comuns a todos os consumidores, até aos mais jovens e digitais. O fogão é um deles.

Para atender essa nova leva de consumidores que não cozinham, a empresa está desenvolvendo sua plataforma de inteligência artificial capaz de interpretar em milisegundos o pedido de um consumidor para agilizar o tempo de entrega e não sofrer um colapso do sistema com o crescimento exponencial da demanda nos próximos anos.

“Quando fazemos isso, começamos a acertar o tempo de todo mundo, quando antes a gente errava o tempo de quase todo mundo”, reconhece Bruno Henriques, vice-presidente de Inteligência Artificial e Crescimento do iFood.

Mudança cultural

Reduzir o tempo de entrega nos próximos anos será para as empresas de delivery uma questão de sobrevivência ainda mais forte do que já é diante da necessidade de alimentar pessoas que consomem cada vez menos comida feita pelas próprias mãos ou que saiam de casa para buscá-la.

“Daqui a 10 anos, será que existirá a rotina de ir ao mercado, comprar comida e cozinhar em casa?”, pergunta Bloisi.

“Vamos achar as cozinhas irrelevantes. Gastar tempo cozinhando será uma opção dispensável. É como pensar hoje em fazer as próprias roupas”

Fabrício Bloisi, fundador e CEO da Movile

iFood Foto Midori de Lucca (divulgação iFood)

O crescimento do iFood em 2019 é um indicativo de que essa cultura do consumo de alimentos está ganhando terreno de maneira acelerada. Só neste ano, a empresa contratou mil novos funcionários.

Quando a Movile fez seu primeiro aporte, em 2013, o iFood registrava 25 mil pedidos por mês e tinha uma equipe de 20 pessoas. Hoje, são 20 milhões de pedidos só no Brasil e 2,7 mil funcionários.

O executivo afirma que o ritmo de crescimento do iFood é maior que o das líderes mundiais chinesas e americanas. Ele diz ainda que, hoje, os chineses são parâmetro para os serviços de delivery por aplicativo, mas afirma que o Brasil tem potencial para produzir a maior plataforma de entregas do mundo e que o mercado nacional não vai ficar restrito a apenas iFood, Rappi e Loggi – que hoje dominam o mercado.

“Cabe mais 20 empresas legais como a nossa no mercado nacional e este ano já tivemos dois IPOs no segmento”, avalia Bloisi ao reconhecer a importância do desenvolvimento dos concorrentes e da entrada de novos players.

Para o CEO da Movile e do iFood, o crescimento baixo da economia brasileira está relacionado a aspectos políticos e econômicos, mas também está ligado ao baixo desenvolvimento tecnológico. “Precisamos buscar algo grande. Crescemos muito acima do que cresce o País porque apostamos no empoderamento das pessoas e focamos em gestão”, destaca.

iFood Foto iFood (divulgação)

Liderança mundial

Para o CEO, a inteligência artificial será a tecnologia responsável por produzir os líderes mundiais em delivery. Ele destaca a luta entre Estados Unidos e China pela tecnologia mais desenvolvida. “Quem vencer vai liderar a nova fase da indústria no mundo. Aqui, deveríamos pensar quanto estamos discutindo sobre o assunto”, diz.

Para o executivo, o complexo de vira-lata atravanca o avanço do Brasil em áreas em que tem potencial maior que esses países que hoje dominam o mercado. Para ele, buscar unicórnios é um sonho pequeno. “O Brasil tem potencial de produzir empresas de 100 bilhões de dólares”.

Bloisi diz que o iFood é uma das concorrentes para bater a centena de bilhão e lutar pela liderança do serviço de delivery no mundo. Para isso, a empresa investe bilhões de dólares em pesquisa e desenvolvimento, não só para agilizar a entrega, mas para baratear o custo da produção e da cadeia como um todo. “Consigo planejar a produção e reduzir desperdício. O iFood tem inteligência para isso”, afirma.

O executivo fala sobre a plataforma de aprendizado de máquina, iFood Brain, que está preparando o aplicativo para a nova década. Construído dentro de casa, o iFood Brain é abastecido por diversas áreas da empresa com informações variadas dos consumidores para aumentar a eficiência da plataforma de serviços da empresa. A ideia é que, nos próximos anos, o iFood consiga personalizar o que o cliente acessa, e como ele acessa, usando interface dinâmica e assistente de voz. A cultura de pedir comida por um simples toque nem bem se estabelece e será substituída por pedir a um simples comando de voz.


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