A criatividade brasileira é só “futebol e carnaval” ou vai produzir inovação?   - WHOW

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A criatividade brasileira é só “futebol e carnaval” ou vai produzir inovação?  

Entre 129 países, o Brasil ficou em 66º no ranking de mais inovadores do mundo. Afinal, somos uma nação criativa para a nova economia?

POR Raphael Coraccini | 27/12/2019 10h00 Foto Ryan Wallace (Unsplash) Foto Ryan Wallace (Unsplash)

Caetano Veloso canta sobre um Brasil que flerta com a mais sublime criatividade, própria de um povo livre e ousado, mas que não consegue transformar essas criações em algo duradouro, eficiente e para todos. O que pode ser traduzido em inovação. O mote “futebol e carnaval”, que ganhou eco na música “A Luz de Tieta”, nos define como País ou existe alguém em nós que brilha para além desses estereótipos?

Entre 129 países, o Brasil ficou em 66º no ranking de mais inovadores do mundo. Não é uma posição de honra, ao contrário. Mostra que o País tem um longo caminho a percorrer para entrar na nova economia de maneira pujante, para disputar mercado. Isso não quer dizer, porém, que não há potencial a ser explorado. É o que entende Juliana Bernardo, head de Inovação e Produtos no Grupo BWG.

criatividade Foto Sergio Souza (Unsplash)

Todas as ciências de baixa tecnologia

Juliana destaca que o Brasil tem casos de empresas que expandiram exponencialmente inovando em ambiente totalmente adverso e com pouca tecnologia. Ela cita exemplos de empresas como Habib’s, Chilli Beans e Nespresso, que criaram o que parecia impossível. “A palavra de ordem dentro do Habib’s sempre foi inovação, desde 1988, quando nem falávamos em startups e inteligência artificial como se fala hoje. A empresa cresceu em um cenário nada favorável, de gigante instabilidade econômica”, destaca.

Os grandes trunfos inovadores do Habib’s, segundo Juliana, foram a utilização do ainda incipiente sistema de franquias, a realização de parcerias como as com a Coca-Cola e a Warner Bros.; investimentos em comunicação e posicionamento em preço baixo; inovação de cardápios, produtos e serviços; e a criação do delivery em até 28 minutos. Quando não havia qualquer sinal de iniciativas como a Rappi.

Novas rotinas de compra

A Chilli Beans entendeu que as lojas de óculos precisam de outros produtos e, mais do que isso, precisavam de ciclos muito mais curtos de troca de coleção. “Então a marca começou a criar valor agregado, chegando a criar mais de nove modelos de óculos e três de relógio por semana, casando a coleção de óculos com datas comemorativas, signos, sistema solar, bandas e afins”, lembra Juliana. “Além de lançarem a possibilidade da personalização”, completa. Personalização essa sem contar com a riqueza dos big datasanalytics.

A Nepresso, por sua vez, foi pioneira no Brasil em convencer as pessoas a gourmetizarem um hábito antiguíssimo, o consumo de café. “Quem diria, há 10 anos, que as pessoas comprariam uma máquina pessoal para fazer seu próprio café em casa e em cápsulas?”, avalia Juliana.

O poder criador da periferia

Mas para a head de Inovação e Produtos no Grupo BWG, o maior potencial inovador do Brasil para o mundo que se apresenta não está explícito nos empreendimentos de êxito da economia tradicional, mas no poder criador da periferia do País. “O potencial inovador das favelas, da periferia, na maioria das vezes emerge quando entendem que existe demanda não atendida, vão lá e criam, inovam e fazem acontecer”, explica. É o sentido primeiro do empreendedorismo por necessidade que pode catapultar inovações disruptivas.

Ela lembra ainda que alguns dos negócios sazonais ou permanentes que emergiram nos últimos anos são extensões ou aperfeiçoamento de criações da periferia, como o moto táxi, as barraquinhas de café da manhã e hot dog. “Essas viraram os food trucks de gente que largou até emprego em multinacional para empreender. Tudo isso sabemos que nasceu ali, na periferia”, diz a executiva.

criatividade Foto (Rawpixel)

Talento e necessidade

99, Ifood, Gympass, Loggi, PagSeguro, Stone, Nubank, Arco Educação, QuintoAndar, Wildlife Studios e Ebanx. Esses unicórnios mostram que o Brasil é capaz de construir coisas grandiosas, com criatividade, na nova economia. Exemplos como esses mostram que o Brasil é inovador por talento. E os exemplos de criações que vêm da periferia mostram que a inovação também vem por necessidade.

O diretor-executivo no GVAngels (grupo de investidores-anjo formado por ex-alunos da Fundação Getúlio Vargas), Wlado Teixeira, destaca que as competências do brasileiro de apresentar criatividade e resiliência foram forçadas pela situação. “O talento vem das dificuldades em sobreviver historicamente com inflação muito alta e a necessidade vem em decorrência de sobrevivência com altos níveis de desemprego, que é o ponto de partida para o surgimento de muitos empreendedores”, destaca.

Papel do poder público

Para ele, o Brasil precisa construir uma política de incentivo dessas competências por meio, inicialmente, de crédito. “Falta, basicamente, fomento em linhas de crédito a juros baixos para empreendedores, para obtenção de capital de giro, com a finalidade de desenvolver tecnologias. Temos linhas de crédito como BNDES e outras similares em esferas estaduais, mas são, geralmente, para ativos fixos. E não são fáceis de conseguir”, avalia.

Outro ponto que o diretor-executivo no GVAngels destaca é a falta de uma política fiscal mais favorável aos investidores. “Por exemplo, se um investidor perde dinheiro em um investimento em Bolsa de Valores, ele pode compensar com lucro em operações. Porém, em investimentos em startups, não há compensação”, explica.

Avanço dos empreendimentos

Para o investidor, os benefícios do poder inventivo do brasileiro não estão relacionados especificamente a alguns setores de atividade, mas podem atingir diversos setores da economia, desde aqueles de manufatura simples até os de tecnologias de ponta. “É muito relevante o que aconteceu no Brasil em termos de tecnologia e empreendedorismo nos últimos dez anos. Fui empreendedor em 2007 e, na época, o número de startups sendo criadas era muito baixo. Quando vendi minha startup em 2013, o número de startups já tinha aumentado bastante, mas era muito pequeno em comparação com o atual momento”, conta.

É preciso, porém, aumentar a aposta no poder criativo do brasileiro, que já levou o homem aos céus e deu ao mundo a primeira transmissão da voz humana. “Ter histórico de invenções importantes na velha economia não garante que o mesmo vá ocorrer na nova economia. No entanto, apesar das dificuldades que o Brasil tem na área da Educação, o País está se saindo bem no empreendedorismo e se destacando na América Latina”, avalia Wlado.


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