Como seria a mobilidade urbana centrada na experiência do cliente - WHOW

Eficiência

Como seria a mobilidade urbana centrada na experiência do cliente

Especialistas discutem uma visão de mobilidade urbana com modais integrados, tecnologia e diálogo entre operadores

POR João Ortega | 11/11/2021 22h24

Cidades com diversos centros empresariais espalhados em todas as regiões. Planejamento urbano. Prevalência de bairros mistos, em que residências e comércios coexistem. Prioridade para transporte coletivo e para modais que ocupam menos espaço, como bicicletas e patinetes. Veículos aéreos (eVTOL) complementando as demais opções de transporte. Jornadas de transporte de pessoas e logística integradas com uso de tecnologia. Carros? Alguns, mas nunca com apenas o condutor e nenhum passageiro. Tudo movido a hidrogênio, uma fonte energética bem mais limpa que a eletricidade. É assim que especialistas imaginam uma mobilidade urbana centrada na experiência do cliente no ano de 2050. 

Estes foram alguns dos elementos que surgiram durante o painel “Repensando a Mobilidade Urbana Pós-Pandemia”, que ocorreu no evento CONAREC 2021, quando empreendedores do setor da mobilidade responderam à pergunta do mediador: “Como você imagina as cidades no ano de 2050?”. 

Participaram da discussão Tomás Petti Martins, CEO da Tembici, startup de aluguel de bicicletas; Pedro Palhares, Country Manager no Brasil da Moovit, guia digital do transporte público; e Pedro Somma, CEO da Quicko, app que ajuda o usuário a encontrar a rota intermodal mais rápida. A mediação foi realizada por Paulo Cardamome, CEO da Bright Consulting. 

Para alcançar este futuro, porém, será preciso mudar a dinâmica atual, degrau por degrau. Segundo Tomás, o primeiro passo para repensar a mobilidade sob a ótica da experiência do cliente é considerar que “as pessoas compram um trajeto, e não um modal específico”. Esta perspectiva traz a necessidade da integração entre todos os operadores de transporte – público e privado – já que o que se deve entregar é o mais rápido e eficiente deslocamento de um ponto ao outro. 

Neste cenário, o CEO da Tembici adiciona ainda mais uma camada de complexidade que também precisa estar integrada à mobilidade de pessoas, que é a logística. “Vemos cada vez mais bicicletas sendo usadas para entregas de última milha. Não faz mais sentido ter caminhões circulando na cidade com um ou dois pacotes para entregar”, afirma. 

Na visão de Pedro Palhares, há um problema anterior à tecnologia para que exista, de fato, integração da mobilidade. “O que falta é diálogo entre os operadores, e isso gera problema para o passageiro, que é o cliente destes operadores”, explica. O empreendedor ilustra uma jornada em que, com inteligência de dados, o trem chega no momento exato para que os passageiros saiam na estação e tomem o ônibus, que também sai no horário ideal para a maioria dos usuários. 

A reinvenção passa, também, por uma mudança de modelo de negócio. Para Palhares, não faz sentido que um usuário pague uma passagem por um ônibus, outra para o metrô, todos os dias do mês. “tudo está migrando para o modelo por assinatura, então por que não?”, provoca.  

Na equação, a questão da sustentabilidade é essencial. Os avanços tecnológicos vão, sem dúvidas, substituir os combustíveis usados atualmente por fontes mais limpas. Só que não basta. Pedro Somma acredita que a raiz do problema está no planejamento das cidades, que precisa ser revertido. “Qual é a cidade em que queremos viver? Numa em que o pedestre não tem espaço, que a ciclovia fica congestionada, que o ônibus disputa lugar com os carros individuais?”, questiona. ”As cidades de hoje foram desenvolvidas com políticas públicas antigas que priorizaram um tipo de transporte que, em geral, leva uma pessoa, deixa quatro assentos vazios e passa 80% do tempo parado”. 

No entanto, a questão da sustentabilidade vai muito além do impacto ambiental. Com uma mobilidade mais integrada, pensada para a melhor experiência do cliente, há benefícios socioeconômicos que vão desde diminuir o tempo que o trabalhador passa em deslocamento, aumentando sua produtividade, até redução de gastos com manutenção e energia. “É uma discussão importante sobre a eficiência econômica da cidade que nós queremos”, resume o empreendedor por trás da Quicko.