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Tecnologia

Como reimaginar o futuro das empresas?

Especialistas apontam a necessidade das empresas atuarem não só por um propósito, mas sim gerarem impactos positivos na sociedade

POR Eric Visintainer | 23/10/2020 13h37 Como reimaginar o futuro das empresas? Imagem: Pexels

Com a pandemia, todas as as empresas precisam se transformar ou evoluir em algum nível ou área. E a transformação digital tem sido uma das principais atitudes. Mas como as empresas podem agir para continuarem o exercício de pensamento futuro, e talvez se anteciparem a outras crises e o futuro do cliente.

O Whow! conversou com três especialistas em novos negócios e que estudam as práticas necessários para o sucesso futuro das corporações. E um ponto em comum entre eles, é o da necessidade das empresas atuarem não só por um propósito, mas sim gerarem impactos positivos na sociedade. Além disso, a transformação digital inclusiva aparece como um ponto-chave.

Confira a entrevista na íntegra, com Pedro Piovan, fundador da Ensaio, um laboratório de inovação, Gilberto Lima Jr., futurista e mentor de empresas de base tecnológica e João Souza, futurista social e cofundador da Fa.Vela, um ecossistema de inovação, tecnologia e empreendedorismo em territórios vulneráveis como favelas e regiões periféricas.

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O futuro das empresas

Whow!: Como nós e as empresas podemos reimaginar o futuro?
Pedro Piovan: A pandemia trouxe uma provocação: Ou aprendemos agora que inovação não é um luxo, em vez de uma constante. Do contrario, não dará certo. Quem não estava preparado para incertizas, ou se prepara, porque vai acontecer bastante, ou ficará à deriva do contexto. Existem três tipos de empresas: As que não entenderam o que aconteceu e não se capacitaram em termos ferramental e nos negócios, e de agora em diante vão começar um novo período — e em cinco há dez anos, se continuarem assim, elas vão falir; as empresas que estão se inspirando nas lideranças para habitar este cenário de extrema instabilidade; e as empresas que estão liderando o empresariado desenhando futuros que fazem sentido para o ser humano — algumas empresas estão vivendo neste futuro e questionam as suas raízes: Qual o impacto que tenho na cadeia logística? Será que a pessoa que está no chão de fábrica está se beneficiando tanto quanto o meu cliente?
Gilberto Lima Jr: Há problemas de consciência organizacional e percepção estratégica de futuro. Qual é o futuro imaginado para concretizar e apontar rumos? Quais são os sentimentos, e vontades que os líderes precisam apontar? Crescer 20% ao ano e distribuir lucro? Integrar a comunidade de usuários com os colaboradores operando em nível social?. Cada empresa precisa pensar que tipo de Organização quer ser e com qual modelo de negócio! Possui uma diretriz baseada na percepção de futuro? O Design Thinking e os benchmarks internacionais podem auxiliar, na formulação de um roadmap de futuro: Para onde vai o meu setor? Quem está fazendo a transição e se tornando algo novo? A palavra-chave é pivotar, estudar modelos e antecipar cenários.
João Souza: Hoje o digital tem que ser parte da estratégia. Por necessidade do isolamento, as economias locais não estavam tão fortalecidas e não estão se digitalizando. A transformação digital tem a oportunidade de trazer mais empresas para um modelo de sociedade no qual querem viver. No digital pode-se comprar um produto de Belém ou um aprendizado digital para aprender sobre a outra cultura. Estamos aprendendo o que é a transformação digital, e a com inclusão, mas se vê pouco sobre a inclusão, mais sobre novas tecnologias. Existe espaço, hoje, em empresas menores, não só nas startups, para se reinventar mais rapidamente. Para isso, é preciso revisitar o propósito e pensar de que forma as empresas realizam a estratégia digital. A TD pode ser uma régua muito alta, às vezes digitalizar é o primeiro processo na atuação com os clientes.

Whow!: Quais transformações vieram para ficar nos negócios no pós-pandemia?
PP: A gente desperdiça muito tempo e recursos financeiros e naturais. Por isso, precisamos nos perguntar: O que é frugal e mínimo para continuar entregando o que precisamos para ao nosso cliente? Que tipo de futuro as pessoas vão ter e o que vamos precisar oferecer? Que tipo de modelo organizacional precisamos prover para os colaboradores? As empresas estão começando a prestar atenção e a criar a comunicação assíncrona, e isso é uma mudança de modelagem mental. A mudança na modelagem organizacional é crucial, e no modelo ágil passar por descentralizar o pode do líder para os participantes. Hoje, modelo passou de não se pode errar para o modelo ágil, no qual se tem autonomia para adicionar feedbacks do cliente ou stakeholder, em um trabalho de colaboração. E é necessário ter um ambiente seguro. Estamos aprendendo a voltar a ser gente.
GLJ: Simultaneamente, tecnologia e postura empresarial e do papel do empreendedor. O plano A deu água e o plano B tem uma exigência de sobrevivência das empresas que serão resilientes. Mas não existem garantias de sobre as empresas. A humanização na Magazine Luiza a ajudou a escalar de forma exponencial, se os comparar com qualquer setor do varejo ou fora. O que dá poder para a Magalu é olhar para olhar alám da gestão, tecnológica, e sim para qual é a consistência do que se está fazendo. Velhos padrões do mercado, como produzir ao menor valor possível para sobreviver com os tributos do governo, a ideia de fazer uma competição entre times com foco no faturamento e crescimento, e se possível eliminar os outros; este modelo mental, na visão da escassez e do predador, na piramidal de Maslow está embaixo, as empresa precisam subir os degraus para entender a sua situação na solução com a sociedade e mercado.
JS: A transformação digital tem levado para uma economia digital e temos uma oportunidade, como sociedade, de pensar uma reinvenção da comunidade ou do novo normal. Esta economia escancarou as desigualdades de uma forma que até já tínhamos esquecido e começamos a ver parte da população do Brasil sem conexão à Internet, como serviços de telemedicina e de renda. É uma economia que traz um tema transversal para pensar o tipo de valor que as empresas estão entregando para a sociedade, além de um impacto de inclusão e diversidade. A transformação digital será algo digital, mas se o pilar da inclusão não estiver sendo levado em conta , como se pensa a transformação digital,  ela só vai ser exponencial n a desigualdade e falta de acesso, em uma economia excludente.

pandemia Foto ilustrativa (Freepik)

Whow!: Qual deve ser o papel das empresas no futuro?
PP: Que tipo de futuro queremos desenhar intencionalmente? Sair da mentalidade de que isso não é um problema da minha empresa. Deve-se desenhar um futuro mais igualitário, no qual se possa distribuir renda e comida para todos.
GLJ: Precisamos da consciência de como funcionar com o meio ambiente e o cliente. É a hora da DR (discutir a relação). E talvez você tenha que dar prioridade a produtos e serviços desde que parta do pensamento organizacional para a entrega de valor para a sociedade. E o retorno será a maior remuneração. A recompensa que a empresa recebe da sociedade é pelo bem que foi feito. Pegue o pico de estratégia do últimos cinco anos, como é a sua comunicação? O momento agora é de não ter preguiça de estudar. As empresas precisam concentrar na liderança e nos colaboradores o olhar da curiosidade, da inovação, o espírito de curiosidade e criar um ecossistema que seja estimulante. Qual foi a última vez que você fez algo inédito? As empresas que estão indo bem, realizam muito bem um benchmark, sobre quem está impactando o seu mercado, como possíveis cenários de ameaça e inovações que podem disruptar o mercado.
JS: As empresas precisam fugir da tecnologia de bits e bytes. Quem quer refletir o propósito e repensar as entregas, precisa trazer entregas de dois pilares: diversidade e inclusão. Para assim trazê-las na construção e transformar as equipes em mais diversas, e em uma contratação orientada e isso precisa estar no core do negócios. A inovação vem de várias visões, e vai além de bits e bytes. As ideias que resolvem problemas vêm da escuta de raça, gênero e território. Com pessoas mais diversas em cargos gerenciais, as empresas que produzem bens e serviços e têm pessoas que vivem nestes territórios, funciona até melhor do que pesquisas de marketing que vão no mercado da periferia e falam como é o consumidor deste produto no dia a dia.

Whow!: O que falta para as empresas reimaginarem os seus futuros?
PP: O princípio é entender, o porquê de trabalhar. É só para dar lucro para o acionista? O que o acionista está fazendo come este dinheiro? Precisamos de transparência extrema. Não tem como ficar em um modelo de trabalho que só visa o lucro. Em qual demanda das pessoas eu estou atuando? O que eu faço é realmente importante? A pandemia está sendo um aperitivo  do que vamos viver em escalas muito maiores: aquecimento global, desigualdade crescendo. O Aílton Krenak diz: “O capitalismo é um carro que estava vindo, capotou e parou por conta da pandemia.” Não poderia parar antes, do contrario o competidor o engoliria. E agora “bateu em uma árvore”. Vamos ver se está muito amassado. A pessoa ficou muito ferida? Mesmo se o carro estiver amassado, vamos entregá-lo na mesma mão de quem o capotou? O segundo setor, empresarial, é um dos principais atores para dizer se isso continua ou não. Que tipo de futuro queremos viver e que você quer promover para as pessoas que trabalham ali. Não dá para ter burn out aos 35, 40 anos.
GLJ: A sustentabilidade não pode ser mais uma jogada de branding e marketing. As empresas conscientes são as que darão conta para ter longevidade diante crises. As empresas seculares, você chega aos valores dos fundadores, e se ajusta para atender uma dimensão maior de ser, que é servir o público. Um dos líderes da Panasonic planejava a empresa para os próximos 250 anos. “Entendo que a empresa não pertence a mim, e sim ao povo japonês”, dizia. O modelo de comportamento de consumo já estava mudando e agora será mais acelerado. Não basta colocar as pessoas em home office e reproduzir o velho modelo que ruiu. Foco da gestão e em produtividade não significa controlar o outro que não está na sua vista. 
JS: Diversidade dá dinheiro, não só imageticamente. Quando você tem uma empresa mais diversa, a inovação está no seu nível mais alto. Às vezes uma fala de uma pessoa preta, lgbt, de favela, solta um insight. Ao analisar o propósito das tecnologias, por exemplo, a roda tinha o propósito de movimentar objetos. Em um momento perdemos o propósito das tecnologias, como processadores que elevam o preço do computador que pode valer 20 salários mínimos. Precisamos questionar o propósito das tecnologias e a transformação digital permite isso.


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